“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

 

Diz o velho aforismo que “cabeça desocupada é oficina do diabo”. Pois é o que parece que me aconteceu ontem, lá pelo meio-dia, entre uma navegada pela internet e uma ou outra risada gostosa e moleque da Isadora, brincando comigo – que acabou por desaguar no poeminha cretino e safado que segue, daqueles da série “sacanagens sociológicas empíricas da pequena-burguesia”:

“Causo” bizarro de uma patricinha funcionária de um
banco multinacional que foi de “tailleur” ao boteco:

Andava muito enjoada
De festinhas fashion, teatro,
Exposições e frescuras,
E, desejando loucuras,

Foi ao bar, sentou na mesa,
Logo veio um cafajeste
Com aquela conversa mole,
Lhe elogiou muito a beleza
E o papo intelectual
E convidou-a a beber.

Abobalhada com o tipo,
Tomou quatro uísques duplos
E acordou com hemorróidas.

Não sabia, até então,
Que “líquido alcoólico com gelo”,
Quando empinado em excesso,
Dor no cu causar pudesse.

Gravataí, 12 de novembro de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 13/11/2009 at 1:00 am Deixe um comentário

O Ventre da Montanha (visão de um sonho em plena consciência)

Estou há três dias cumprindo a suspensão que me foi imposta (cujo desconto da metade do salário antecedeu-a em 23 dias!), sem nenhuma atividade, portanto, além de auxiliar nos afazeres domésticos e andar em casa, pra cima e pra baixo, com a Isadora no colo, conduzindo-a pela mão nos seus primeiros passos, ou simplesmente a acompanhando no andador.

E, no fim da manhã do último sábado chuvoso, acabei por parir, aos quarenta e quatro anos, este poema adolescente, que se insinuou nas minhas guampas, sexta-feira à tarde, quando subia a arborizada e poética Rua Barbosa Filho, no rumo de casa, após gastar uns cobres num “Tri Legal”, na esperança de ganhar um prêmio de loteria.

Ele cheira fortemente a plágio, e parece ter umas cores de Castro Alves ou Olavo Bilac, muito embora, como tantas vezes, tenha se desenvolvido a partir dos primeiros versos, em pura improvisão, diante da visão da montanha andina que nunca visitei, na viagem tão planejada e jamais realizada que eu e o Alemão Valdir faríamos, atravessando o deserto de Atacama, até encontrar o Oceano Pacífico, em Antofagasta, saídos do outro lado do continente, após nos despedir do Atlântico, em Tramandaí. Mas é, entretanto, o único produto, por enquanto da minha “vagabundice institucionalizada” e aí vai publicado para que os leitores possam ter a chance de ler alguma coisa neste blog além da pura (embora ótima) transcrição dos escritos do mestre Reich. Divirtam-se, se puderem:

O Ventre da Montanha
(visão de um sonho em plena consciência)

Silêncio absoluto! A hora é intensa
De uma solenidade sem fronteiras.
A cordilheira aos meus pés se ergue
Como uma catedral gótica rasgando
O céu gelado e tenso do poente.

No coração, envolto em neve, da montanha
Se abre o portal de um espelho transcendente
Que acolhe os raios translúcidos da tarde,
Me convidando a um sono em tons azuis.

Lá, no profundo do seu ventre mágico,
Sei que se encontra o sabor perdido
De um forno a lenha perfumando a tarde
Com sua fumaça, assando roscas de polvilho.

No extremo oeste, a milhares de quilômetros,
Venho encontrar, escondido, bem enterrado,
O crepitar saltitante, o entusiasmo
Bobo de passear na rua
Sob o frio transparente de um sábado à tarde.

Venho rever o encantamento de correr,
Piá solto, o arvoredo, espiando
De longe o canto obscuro
Em que ardem, hipnotizantes,
As chamas de uma ancestral fogueira.

Mas, ao tocar o coração do monte,
Tudo se esvai em cinza, em minhas mãos
Só restam grãos tímidos de sonho,
O mundo berra
Aos meus ouvidos com as contas por pagar!

Levanto, em um salto lúcido, e bato,
Forte, no muro duro e invisível
Do quotidiano de peão metido a poeta.

As correntes da rotina me maneiam
E já não há fuga apaixonada e mística.
Só o torpor de porre de cachaça
Pode me anestesiar de sua aridez intensa!

Gravataí, 24 de outubro de 2009.

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 25/10/2009 at 12:30 am Deixe um comentário

Semi-Soneto da Paixão Escrita

Para que os leitores não reclamem que, além de praticamente não publicar nada, nunca mais apareceu um poema que preste por aqui, vai publicado abaixo o último que escrevi, em raro estado de inspiração, no caminho de casa até o foro, após o almoço, na segunda-feira:

Semi-Soneto da Paixão Escrita

Escrever é um ofício solitário”.
É como fazer sexo consigo mesmo!

 Há os que exageram no tom masturbatório
E jogam aos olhos dos leitores
Toda uma porra xaroposa e exasperante,
Qual lenga-lenga de cornudo bêbado.

 E também há os meros sonhadores
Que se comprazem na contemplação
E nos envolvem na própria fantasia
Até o limiar de deleites absurdos
Para depois “se acabar” num nada seco!

 Mas há, são raros e inconformados,
Quem saiba transformar o fogo que arde
Nas suas entranhas mentais em plena arte
E nos fazer explodir, abestalhados,
Ante a surpresa do simultaneamente
Belo, simples e profundo,

 No tom dos gritos de um êxtase poético
De musa lúbrica, gostosa e apaixonada.

 Gravataí, 24 de agosto de 2009

  Ubirajara Passos

Publicado em:  on 26/08/2009 at 7:00 pm Deixe um comentário

DISCUSSÃO DE TRÊS MILITANTES POLÍTICOS BÊBADOS NUM BAR DA “CIDADE BAIXA, EM PORTO ALEGRE

Nestes dias em que os velhos moralistas petistas desvelaram de vez sua máscara hipócrita para defender a pouca vergonha mais reles e vulgar (daquela vulgaridade de que não vale nem a pena falar para não se cair no lugar comum dos sermões anti-corrupção em que os petistas fora do poder eram tão exímios) dos corruptos mais óbvios e poderosos, acabamos, eu o Alemão Valdir, numa manhã destas, em conversa pela internet, por parir o argumento da peça teatral que segue (que está mais para número mambembe que peça propriamente dita), mais tarde escrita por nós a quatro patas. Pra variar, o Alemão é autor de alguns versos. Dou um prêmio pra quem descobrir quais são. Qual o prêmio só revelo se alguém descobrir, também.

Como se verá, a peça não é nenhum primor de literatura e muito menos de política ou filosofia. Seu texto é até ingênuo (poderia estar na boca de qualquer funcionário público revoltado de Passo Fundo, no interior do Rio Grande, por exemplo), mas cai como uma luva no fascismo explicitamente corrupto do governo do Inácio, em que a censura (com o disfarce de ação judicial) foi reinaugurada justamente para impedir que a imprensa possa denunciar a coisa mais óbvia e encardida das últimas décadas da política brasileira, qual seja o fato de que a família Sarney (catapultada ao trono feudal maranhense, como dinastia permante, pela ditadura fascista imperialista inaugurada em 1.º de abril de 1964) é corrupta, vive da corrupção e não comete um ato político ou econômico que não esteja relacionado a sugar o próprio estado burguês. O Estadão, entretanto, não pode divulgar as falcatruas do Sarney Jr. para não manchar-lhe a honra e o direito fundamental de imagem… Mas, enfim, vamos ao texto:

Discussão de três militantes políticos bêbados num bar da “Cidade Baixa”, às duas horas da madrugada, em Porto Alegre

(encenação em um único ato)

Cenário: um obscuro bar com duas portas paralelas na fachada, prédio do estilo dos anos vinte do século passado, mesas na calçada, numa das quais se acham sentados os personagens no início do ato, postes de luz ao lado esquerdo das mesas, de luz amarelada, com canteiros de grama molhada de chuva, salpicados de tocos de cigarro à direita das mesas.

Personagens: o Portuga Libertário, o Pelotense Petista, o Alemão Batata Vermelho, um garçom vestido da forma tradicional, alguns figurantes bebericando às mesas.

Abre a cortina.

É inverno. Um vento forte (o minuano) corre o cenário, carregando folhas secas de árvores e fazendo esvoaçar guardanapos de papel e as melenas dos personagens. Os três militantes se encontram sentados na mesma mesa, bebericando. O Portuga Libertário à esquerda, o Pelotense Petista à direita e o Alemão Batata Vermelho ao fundo. O Portuga sobe na mesa e principia a falar.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (de cabelos desgrenhados, casaco preto cheio de caspa, óculos ensebados de gordura, de pé sobre a mesa, cuspindo fogo… e cachaça):

Republiqueta colonial,
semi-feudal,
neo-capitalista…

O PELOTENSE PETISTA (gordo e baixinho, cabelo preto penteado para trás com gel, terninho preto e gravata cor de rosa choque, com o nó frouxo atado pelo meio, um broche de estrela pespegado no peito, jogado na cadeira, segurando um copo de uísque Nato Nobilis cheio de gelo derretido):

Por culpa dos anarquistas,
só querem baderna.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que peida, enquanto tenta se equilibrar sobre a mesa):

… em que não serve simplesmente fuder-se o operário,
mas, sobretudo, para que o poviléu bovino
fique tranqüilo com sua bolsa-esmola,
é necessário,
pra caralho,
na republiqueta,
dar de mamar, muito mamar, mamar demais,
com toda “honra”, só mamar na teta,
a Sarney, ao irmão do irmão do primo
filho da mãe do bodegueiro,
da sobrinha
do industrial,
do feto que nem mãe ainda tinha…

O PELOTENSE PETISTA (derramando o uísque “chique” sobre a gravata, com aquele olhar esbugalhado de quem perdeu a propina no bolso furado):

Cala a boca, subversivo,
horrendo
comunista comedor de criancinhas.

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se levanta após um trambolhão, tira o copo da mão do Pelotense com um safanão, dá um talagaço, e o joga contra a parede):

… republiqueta maldita! A etiqueta
dos punhos brancos se mistura com a farinha
rala do escaveirado sertanejo,
dos sem-terra, dos sem-teto, dos “sem-teta”,
e algoz e torturado dão-se as mãos
nesta ciranda sádica (punheta
que o “dono” bate com a mão alheia
do servo submisso,
no seu sócio
de vigarice,de orgia e vício…)

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (de cor e ideologia… vestido dos pés à cabeça de farda militar camuflada, óculos escuros em plena noite, com um copo de underberg à mão):

Mas que negócio é este de punheta?
olha a censura!

O PELOTENSE PETISTA (furibundo, avançando sobre o Portuga, que se esconde de quatro em baixo da mesa):

Censura não há, seus desbocados pecadores!
O que há é o chicote exemplar da Lei
que só existe para que os senhores,
e os do seu tipo não desgracem tudo
e desonrem a República Mãe Nossa
com esta conversa fiada de falsos moralistas…

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que sai, de gatinhas, do outro lado da mesa e se volta para o Pelotense, abrindo a braguilha e brandindo o censurado, que logo esconde, para desapontamento do Pelotense):

Punheta sim! Que os descarados socam
pra se esporrar, com seus punhos rendados,
sobre as cabeças miseráveis do rebanho
de cuja angústia, do medo, do castigo
provém o hábito de lamber o sapato
dos entojados “proprietários” da nação!

O PELOTENSE PETISTA (que olha para o sexo do Portuga entre fascinado e furioso, e murcha quando a braguilha é fechada):

Olha, “bandido”, desregrado, “fiô da puta”,
pra ti, terrorista debochado,
censura é pouco,
tens que ser banido
do convívio austero e disciplinado
de nossa honrada e impoluta sociedade!

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (secando o copo de underberg e pedindo um chope):

Vê o que diz este safado pelotense
autoritário,
que só quer submeter-nos
pra impedir que se mexa em “seus” pertences
havidos com a expropriação
do suor alheio
(expropriação séria e honrada!)

O “PORTUGA” LIBERTÁRIO (que se aproxima da mesa e toma um gole do chope do alemão):

Ele só diz e faz tudo isto
porque existe o rebanho submisso!
Como se há de aclarar a consciência
do servo massacrado cujo braço
é o único capaz de esgoelar o algoz
explorador, sem a menor pena,
para poder realmente então viver?

O ALEMÃO BATATA “VERMELHO” (dando um soco na mesa, não se sabe se por entusiasmo ou contrariedade com o gole roubado pelo parceiro Portuga):

Meu caro Portuga anarquista,
tu muito bem conheces,
Eu que fui “estalinista”,
hoje concordo com o Reich:
o problema tá no rabo!
Ele não disse, mas acho:

Ou se arranca o rabo ou se lhe joga ferro em brasa
pro rabo parar de arder!
Senão como se há de dar cabo
de tanto idiota curvado
babando aos pés de outros tantos
imbecis, burros, vaidosos
que passam, com a anuência
dos idiotas de baixo,
o tempo esfregando o rabo,
roubando, e “lavando” o roubo,
e exercendo o poder?

Cai a cortina.

Gravataí, 4 de agosto de 2009

Ubirajara Passos e Valdir Bergmann

Publicado em:  on 05/08/2009 at 12:45 am Comentários (2)

Vem!

 

Por que não vens ao meu encontro, então?
Por que não perder tarde e noite sem roteiros?
Esquecer o imediato, o necessário, o rotineiro?

Vamos quebrar esta barreira insossa do desconhecido
E misturar nossas carências e desejos
Até que vórtice sem freio da loucura

Que atende por “tesão emocionado” nos conduza
De volta ao rotineiro, ao chato, ao sem sentido
Da existência, distantes, lado a lado!

Porto Alegre, 16 de março de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 18/03/2009 at 1:45 am Deixe um comentário

Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa

Muito leitor sarcástico e gozador, senão intelectualóide e amargurado, deve estar pensando que o título deste texto, pela seu tamanho quilométrico, deve ser maior que o próprio. Entretanto, umas trinta e seis horas depois de escrevê-lo, ainda meio bêbado, a bordo de uma tartaruga que atende pelo nome de Viação Ouro e Prata, não encontrei outro melhor para o soneto “heterodoxo” que segue:

Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa:

Eu venho da noite profunda das eras
Que o tempo escondeu entre névoas eternas.

Eu venho do azul quase negro gravado
No fogo confuso das lutas inglórias.

Eu venho da curva onde o vento perdeu-se.
Venho do oculto pulsante sem nome,
Da força infinita que vibra, tão ínfima,
Desde o velho “sempre”.

Venho do escuro, do nada, do pouco,
Do velho, o esquecido, do sem importância.

Sou o canto do beco sem rumo onde o Diabo
Nem perdeu as botas, porque não as tinha,
E deixou à brisa, flanando, sem cor,
O rastro rasgado de um pensamento.

Rio Grande do Sul, 21 de fevereiro de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 22/02/2009 at 1:19 pm Deixe um comentário

Lua Nova de Setembro

Depois de sofrer, rir e chorar como uma criança (bem longe dos olhos da mãe e da filha), depois de sentir pulsar dentro de si a vida, apesar do amontoado de reveses e contrariedades, só me restou, já meio bêbado, neste meio de noite, mais um pobre e pedante poema, que dedico à Isadora (nascida hoje às oito para o meio-dia, peleando pela vida):

Lua Nova de Setembro

                                                à milha filha Isadora Freitas Passos

Quando o poeta tem uma filha o que fazer?
Quando os trejeitos literários fogem todos,
Quando os meneios revolucionários,
Os berros encorpados do discurso
Se tornam inúteis, frágeis como o vento, 

Que há de fazer este poeta embriagado
Se já é inútil para a luta anárquica?
Não balbucia, mas chora como criança,
Se as luzes orgulhosas de rebelde
Questionador de tudo e todos se dissolvem
No ouvir incerto de um choro de criança? 

Que há de fazer o poeta, o da caneta,
Que resta ao vingador, o do fuzil -
Que sempre foi caneta, mas quer ser
Espada aguda de aço inquebrantável? 

Onde é possível resgatar a irreverência
Do debochado boêmio,
O inconformismo
Do cético de toda fé espontânea? 

Quando se quebra contra toda armadura
De “eruditismos libertários”,
De orgulhos
Cheios de si do improviso desbocado, 

            Quando a certeza gaiata esvai-se, inútil,
E ao poeta resta tão-somente
O próprio choro, criança desmamada
A chorar, sem sentido, nem justificativas,
Perante a emoção pura e original do pranto
Nos lábios sem conforto de quem vê
Pela primeira vez a crua luz do mundo? 

Em que instância misteriosa o plenilúnio
Dará ao bardo, de novo seu sentido,
Se uma lua “nova”, linda e intensa,
Toldou-lhe toda compreensão,
 Arremessou-lhe 

Ao doce e inescrutável absurdo
Da vida sem regras, exigências ou pendores
Gritando, forte e autônoma ao seu ouvido? 

                                                             Gravataí, 1.º de setembro de 2008 

      Ubirajara Passos

Publicado em:  on 01/09/2008 at 10:20 pm Comentários (1)

Isadora

 Sempre fui, além de anarquista, um tremendo boêmio, destes chucros criados guachos, completamente desapegado de “valores ontológicos” padronizados como família, casamento compulsório, ou descendência (embora este último até fosse interessante, pela possibilidade de se viajar no tempo, através dos ramos genealógicos e encontrar sabe lá que inusitado ancestral a ilustrar algumas das asneiras nossas comportamentais a que prezamos). 

Mas o fato é que, do alto da minha rebeldia anárquica, DDA e estética, escrevo hoje tão somente para celebrar o nascimento da gatinha mais linda do mundo, a minha filha Isadora, que vem à luz por obra da minha gata preferida, com quem estou me casando. O poema, como verão, foi escrito há alguns meses, mas esta aí para celebrar essa mais recente criatura humana, cuja simples presença traz ao Universo mais um pouco de beleza e encanto:

Isadora repousando de uma estafante mamada 

Isadora    

 Isadora, luz que doura
Os cinzentos dias meus,
Tu que vens desnuda ao mundo,
Sem roupas nem preconceitos,

A que só a vida anima,
A pura vida sem rima,
Porque improvisada e livre,
Gaiata e sem preceitos,

Debochada ante as carrancas
Dos nossos bestiais senhores,
Que conselho posso eu dar-te,
Como o faria meu pai?

Que alerta boêmio e bêbado
Posso eu sussurrar-te ao ouvido
Pra evitar-te os tropeços
Nas madrugadas da vida
Que dei e não tem remédio?

 Tu que, mais que de um casal
Enlouquecido de êxtase,
“És filha de ti sozinha”,
Conforme a etimologia
Do nome que a ti demos,

Creio eu, “princesa” minha,
Antes de qualquer palavra,
De andar, orgulhosa e linda,
Antecipando, menina,

A mulher fatal e livre,
A paixão justa e serena,
A rebeldia sem medo
A tudo que nos oprime
E nos faz menos humanos,

Serás bem maior, inciente
De ti e deste mundo louco,
Na vida que se governa,
No choro sem etiquetas

E no prazer pueril,
Sem referências,
Na graça

Cheia de si, sem porquês
Necessários, na beleza
E na poesia solta
Do murmúrio de uma sanga
Na preguiça de uma tarde,
Morna, vadia e feliz! 

Gravataí, 20 de maio de 2008 

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 31/08/2008 at 12:00 pm Comentários (2)

DO MEU AMIGO “CORONEL”

Estes dias, numas andanças pelo interior do Rio Grande do Sul, dei, eu e meus camaradas, com uma figura na mesa de um buteco, que já ocupou os mais altos postos da hierarquia militar e que hoje, reformado, tem indignação maior do que qualquer peão ou soldado dos quartéis, fábricas ou escritórios, com a situação destes nossos pampas e do Brasil, e com a vida fútil e sacrificada que levamos todos, como gado que somos. Por óbvias razões, não divulgarei aqui seu nome ou sua patente militar.

Mas, como lhe prometi no churrasco que fizemos no seu apartamento, em uma grande cidade do interior gaúchos, e de onde trouxemos, os três, presente seu, uma manta de lã cada um, como recordação das horas de irmandade existencial e filosófica passadas com a figura, a que apelidamos simplesmente de “Coronel”, publico aqui um de seus poemas, que o sujeito aprendeu não só a comandar homens e manejar a espada, mas também a lutar com as palavras:

“Fortes ou fracos?

Você já se indagou o que é?
Você já pensou em viver com muita força, poder, dinheiro, carros
mordomias a todos os momentos,
bajuladores, falsidades, dizendo-lhe que você é o melhor?

Admirado por pessoas que nunca te viram, mas sabem que você existe,
em teu caminho sendo olhado e observado,
tua paz sendo prejudicada pelo que teme, não pelo que deveria fazer ou pensar?

Tua simplicidade aparente não se escapa das mazelas,
das ganâncias e desejos não concebíveis.
Tua voz se abre em todos momentos e todos te escutam,
porém um surdo não te percebe, mas te admira e chora por ti.
Um cego que não te vê, mas te escuta,
sabe que você tenta ser forte,
mas sente que és fraco
(Um deficiente de que você não foi ao encontropara dar-lhe algum carinho,
pois somente tem pena e não demonstra respeito).

Porém um dia você já parou?
E pensou: por quê? Eu não sei!
Pois a tua vida é como a da maioria:
“vai e vem”.
Teus propósitos são demonstar e aparecer ,
Ser saliente por pensar que tudo tens.

Você pensa que é forte!
Os fracos não fazem demonstrações,
pois assimilam o que não possuem,
e, dentro de suas humildades,
superam as fraquezas que vivem.

Fracos valorizam, ouvem, são mais valentes do que imaginamos.
Admitem as dificuldade materiais,
humildemente vivem e caminham se vangloriarem.
Amam as pequenas coisas, se contentam com a simplicidade,
se alimentam sem exigências soberbas,
cultivam a purezas das coisas,
se entregam eternamente na esperança que amanhã será um dia melhor
e amam a Deus com fervor.

Reflita!

Uma árvore nasce de uma pequena e humilde semente.
Algumas irão dar frutos e outras não.
Porém as que não darão frutos darão sombras que muitas pessoas
que estão a procurar a PAZ,
independente de ser forte ou fraco.”

Ao “Coronel”, se me ler, deixo aqui um abraço do “tamanho do Rio Grande”, e aos leitores na companhia das reflexões singelas, mas profundas, deste meu mais novo amigo.

Ubirajara Passos


Publicado em:  on 28/07/2008 at 7:52 pm Deixe um comentário

JOÃO VELHACO

Já mencionei, há uns meses, o velha esquema da imprensa brasileira, no auge da ditadura militar fascista de 1964, de substituir matérias censuradas por meras receitas de bolo, trechos dos “Lusíadas”, de Camões, ou mesmo por, aparentemente, inocentes e ingênuas previsões de tempo.

Pois é, por falta absoluta de originalidade para abordar outros assuntos transbordantes de ardor, como os capítulos seguintes da “Bíblia do Peruca”, e não por imposição de qualquer censor externo ou interno, que resolvi acatar a sugestão do companheiro Valdir Bergmann.

E, assim, publicamos, em homenagem à maioria avassaladora de “gatos pardos” da política nacional (embora alguns bichanos se diferenciem pelo tamanho do rabo, que tende a crescer com a reposição de seus minguados salários em 143%, como é o caso da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius), o poema que segue.

O texto foi escrito a quatro “patas” por mim e pelo alemão Valdir, há uns quatro anos, como sátira aos ilustres sindicalistas pelegos destes pampas, e serve como uma luva para advertir-nos contra falsos líderes, do quilate de Lula e de Stalin, especialmente neste momento em que setores do serviço público gaúcho, como os funcionários do Poder Judiciário, sofrem os mais descabelados ataques à sua condição salarial e funcional, destinados que estão, pela patronagem, a se transformar em meros robôs de carne e osso, sem direito a reajuste, nem dignidade pessoal em seu trabalho.

Deixamos claro, desde já, que qualquer coincidência com a trajetória de algum dirigente petista é mera semelhança. Vamos às “quadrinhas”:

João Velhaco

Dizem uns, foi em Pelotas,
Outros em Arroio Grande -
Lá pelas bandas do sul,
Nasceu há uns bons trint’anos
O bebezinho João!

Joãozinho, lindo moço,
Tão simpático e envolvente,
Rechonchudinha criança
Desde cedo revelou-se
Um primor de rebeldia!

Na festa de formatura,
Orador, do pré-primário,
Encantou toda assistência
Com um discurso veemente:
Cola tenaz (não havia
Ainda a super bonder)
Jogar aos cabelos da “tia”
Era um tremendo protesto
Contra os maus-tratos à infância!

Já jovenzinho, criado
Na escola forense da vida,
De pai Oficial de Justiça,
João, embora panfletário,
Da pompa dos gabinetes
Tanto viu-se fascinado
Que integrou-se ao Judiciário.

Mas ao pai que era o exemplo
Joãozinho não suplantou!
Fez-se apenas escrevente
E, rebelde novamente,
Resolveu ser o momento
De fazer algo medonho:
Tornou-se sindicalista
Pra balançar toda gente!

Greve, passeata, discursos -
Discursos e mais discursos -
João era um temporal!
E da sua boca saia
Não o inconformismo apenas!
Seu palavrório era belo,
Tão lógico, tão perfeito!
João, bonachão gordinho,
Homenzinho sem defeito,
Era a estrela do dia!

Mas, como isso não rendia
Nem um tostão, nem trazia
Fama maior, iracundo,
“Don Juan”, gay enrustido,
Na comarca, furibundo,
Frustrou-se e se foi ao mundo.

Como quando piá havia
Na primeira vez levado
Um tarugo na sua bunda,
Nosso caro Don Juanzito,
“Trespassado” de entusiasmo,
Finalmente descobrira
Como ser “alguém”,
Sem ser profundo!

Tornou-se mais contudente,
Relinchou, deu coice, fez-se
Tão intenso e Presidente
Já era do sindicato!
No cargo, traiu, roubou,
Praticou todos conchavos
Que a arte da vigarice
Supõe e, sempre irado,
Aos traídos encantou.
Enrustiu, como enrustido,
Veado ele sempre fora!

porcos

Até que, em recompensa,
De um bode velho e safado,
Demagogo deputado,
Nos braços foi elevado
Ao gabinete. Assessor,
Hoje a João todos conhecem
E proclamam, com estrondo,
“Um roliço burguês redondo!”

Entre Vila Palmeira e Santa Rosa, 18/19 de setembro de 2004

Ubirajara Passos & Valdir Bergmann

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Nossas reverências ao poeta e político Ramiro Barcelos, cujo poema Antônio Chimango transmitiu o seu espírito, inconscientemente, ao nosso João Velhaco, na época em que o escrevemos.

 

Publicado em:  on 22/07/2008 at 10:41 pm Deixe um comentário