A Multa do Law Pirâmide da 59

Law Pirâmide é um primo do Franja (Gílson Pirâmide) que caiu no conto da “Dinastia”, induzido pelo parente, e, depois de perder todos os tostões investidos e ainda ficar devendo o equivalente inverso em raiz geométrica proporcional (o fatorial de quatro elevado ao número de brasileiros componentes do mercado de trabalho formal), enlouqueceu e acabou se associando ao Dente Hugo num novo negócio espetacular: exportação de fio de cobre para o Paraguai.

O apelido foi justamente o resultado do logro e do novo ramo adotado, o que lhe rendeu uma ciumeira danada do Franja, que volta e meia é confundido com o primo, assim como ocorria com o Peruca e o Kadu, antes de se consagrar seu apelido no estágio forense (e neste blog).

Por incrível que pareça, o tal comércio exterior de metal recilado acabou por lhe render alguns cobres que lhe permitiram uma bizarra vida dupla.

Durante o dia circula na Várzea do Gravataí com aquela impecável camisa de seda branca, enfeitada com uma tradicional gravata borboleta preta de elástico (que não sabe fazer nó e muito menos tem grana para comprar uma legítima), cumprimentando educadamente todos os vizinhos, e não deixa de atender a um único “pedido” (isto é, ordem, dada aos trambolhões) da namorada gostosa, mas manhosa e autoritária que só lhe dá a cada trinta dias (isto se o Law apresentar o boletim da Ulbra sem nenhuma nota “vermelha”).

Mas basta tomar uma simples dose de absinto depois da meia-noite que, como um “Gremlin humano”, o sujeito se transforma totalmente. Veste uma camisa floreada, chapéu panamá branco fabricado em Santa Catarina, aquela indefectível calça jeans cheia de bolsos nas pernas, um par de mocassins brancos, e sai por aí, com seu sócio, dando saltos sobre os telhados como um cabrito e correndo, até amanhecer, a mais desclassificada zona do “baixo meretrício”, na qual sua predileção é pelas putas pobres que se escondem, na madrugada, intermediadas por seu chapado cafetão de bermuda e camiseta, na entrada da Igreja da parada 59, na divisa entre os municípios gaúchos de Gravataí e Cachoeirinha.

Pois foi como resultado de uma destas investidas que o doido levou uma pesada multa por excesso de velocidade e me enviou, mais pirado do que nunca, o e-mail abaixo reproduzido, que me autorizou a publicar no blog depois que lhe disse que podia interorpor, tranqüilamente, o recurso administrativo, na forma redigida, pois além de adaptado jurídica e factualmente de forma irretocável aos fatos e à natureza da demanda, era digno de figurar nos “anais” do Anarquismo heterodoxo. Segue, para o deleite dos leitores, que devem andar enjoados com o “bom comportamento” deste blogueiro, o texto:

“lustríssimo Senhor Diretor do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN:

RECURSO Auto de Infração nº 6435987-9
Notificação nº 34536782998

Eu, Law Pirâmide da 59, brasileiro, solteiro , portador da cédula de identidade R.G. nº 69432471, do CPF nº69666171-18 e da carteira nacional de habilitação nº1716661824 domiciliado no Município de Gravataí Rio Grande do Sul, venho, por meio deste, requerer digne-se este respeitável Departamento Estadual de Trânsito de determinar a nulidade da multa em questão.

1. Trata-se de multa emitida no dia 02 de novembro de 2009,no Município de Cachoeirinha, em virtude de alegado excesso de velocidade (superior a 20% da velocidade permitida), com o veículo da marca FIAT, modelo Palio, de placa VTC6966, constatado na Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira – Flores da Cunha, altura da parada 59, às 4:35 horas desse dia.

2. Este recurso não tem por fim demonstrar a não ocorrência da infração em si considerada, mas apenas demonstrar os motivos que deram ensejo a essa, e, consequentemente, eximir-se das penalidades que dela decorrem.

3Sou assíduo freqüentador das boates e casas noturnas da região, trafegando diversas noites por semana nas vias deste bairro, sendo portanto profundo conhecedor da localização dos malditos radares que se escondem com o intuito de subtrair desavergonhadamente o tão arduamente dinheiro dos bons motoristas como eu.

4

5Assim, não haveria por que exceder a velocidade exatamente no ponto onde se localiza o radar. Isto posto, segue uma breve narrativa do ocorrido na madrugada do dia 02 de novembro de 2009:

5

6Alguns minutos antes da constatação da infração, estava sozinho no automóvel trafegando pela mencionada avenida , retornando alcoolizado de uma inglória tentativa de obter sexo oral gratuito com as moças que por ali exerciam suas profissões.

7

8Revoltado com minha má performance social, decidi por bem esvair minha cólera através da velocidade nas vias públicas, ciente de estar arriscando minha vida e as de outrem. Ao me aproximar do ponto onde foi constatada a infração, não diminuí a velocidade de meu veículo como de costume, pois na semana anterior havia disparado contra o instrumento de aferição de velocidade e fotografia conhecido popularmente como “radar” diversos tiros, sendo bem sucedido na tentativa de destruir o objeto pertencente ao município.

9

10Entretanto, com a visão parcialmente inabilitada graças a ingestão irresponsável e desmedida (porém proposital e gratificante) de álcool etílico potável, não pude ver que o instrumento já havia sido prontamente reparado, vindo a ter ciência disso somente com o “flash” da fotografia, que, ao ser disparado me causou distração, fazendo com que eu derrubasse meu uísque e perdesse de vista uma gostosa que dirigia um Vectra a qual eu estava perseguindo.

8. Esse breve relato demonstra a inexistência de culpa na prática do mencionado ato, uma vez que esse se deu pelos seguintes motivos:

A) Incompetência do município em comunicar aos motoristas que o aparelho já se encontrava em funcionamento.

B) Má-fé do da administração municipal que providenciou o reparo do instrumento em um prazo infinitamente inferior ao padrão vigente no serviço público com o intuito de prejudicar deliberadamente os motoristas alcoolizados.

Assim sendo, peço que seja declarada a nulidade da infração, a desativação dos radares fotográficos e que os pontos sejam retirados de meu prontuário.

Ainda, exijo a reposição do uísque derrubado e a identificação e telefone da motorista do Vectra Prata, placa PQP2469, cujo flash do instrumento público me fez perder de vista.

Demonstro minha total insatisfação e desaprovação ao código de trânsito vigente, que impede que bons motoristas se valham de suas habilidades de pilotagem na via pública.

Termos em que,
Peço Deferimento.

Gravataí, 5 de novembro de 2009”

Almanaque do Peruca – 5

Algumas anedotas ocorridas com a turma do Peruca nas últimas semanas, que me foram recentemente transmitidas pelo Kadu:

  • Após ficar 3 anos sem quitar seus débitos com o Múnicipio (que queria lhe cobrar ISSQN pela atividade de “reciclador de fio de cobre”, Dente Hugo recebe uma intimação, referente a um processo de execução. Dirige-se, borrado de medo que seja alguma ação criminal, à Distribuição e Contadoria do Foro de Gravataí, e pede, tremendo, para falar com o tal Fiscal.

    O balconista, Nandinho Andarola, depois de lhe fazer um extenso interrogatório (que começou, afetado, com aquela perguntinha cretina: mas qual é o objetivo, meu senhor?), informa-lhe que ali não havia nenhum fiscal, se não o local não seria o Foro, mas a  Secretaria da Fazenda do Estado.
    O Dente, a esta altura mais puto da vida que amedrontado, responde, gaguejando aos saltos:

    - Não Ganja, é aqui mesmo que me mandaram. Diz que é para falar com o seu Anésio, ele é fiscal por aqui. Olha, meu: tá aqui escrito com todas as letras- e mostra um pedaço de papel que tem na mão.
    Nandinho pede para ver o papel e, após lê-lo, desata a rir, como um cavalo emaconhado, enquanto comenta:

    - Ô Vítor Hugo, não é Anésio Fiscal, não.  Isto aí é o “Anexo Fiscal” e fica no terceiro andar!

     

  • Um homem se separou da mulher e foi morar com uma amante. Passados alguns anos, já brocha e sem um tostão furado no bolso, voltou para a cornuda titular, morrendo pouco tempo depois.A esposa, chorosa e compadecido providenciou com todo o primor e devoção o velório do safadarna falecido. Se prestou, mesmo, a convidar seus companheiros de boemia e providenciar cachaça e cavaquinho para a homenagem póstuma. Mas impediu, entretanto, a entrada da amante no recinto, que isto já era uma indignidade.Diante deste impasse, o Dr.  Nênio Gambá, ilustre e etílico advogado indicado pelo Peruca para patrocinar os interesses da “outra”, ajuizou ação requerendo que o falecido “fosse desenterrado para relização de outro funeral, desta vez com a presença de sua cliente”.

    Ubirajara Passos


Publicado em: on 04/11/2009 at 12:10 am Deixe um comentário

Almanaque do Peruca – 4

 

Recebido diretamente da central de fofocas do Kadu, pois o estágio do Peruca terminou e não temos mais acesso direto ao personagem e suas aventuras, seguem abaixo as últimas façanhas do estudante mais brilhante de Gravataí na Ulbra local:

Em uma prova oral de Direito Civil , indagado se o cego possui capacidade jurídica,  o Peruca respondeu, convicto como um jegue diplomado: “Sim,  possui plena capacidade,visto que consegue entender a língua dos SINAIS e também, ler em HEBRAICO!!!”

Definição de Edital, segundo o Peruca, em uma avaliação dissertativa de Direito Processual:  “é uma forma de fazer uma pessoa saber o que ela não sabe. O único problema é que ,
muitas vezes, porque não lê o jornal, ela não vai mesmo ficar sabendo".

Em um teste aplicado  ao Peruca no final do ano de 2001, quando já cursava por 6 longos anos o curso de  Direito, foi lançada a seguinte questão: "Cite um exemplo de crime formal."
A resposta, inspirada pelo atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América, foi: explosão mediante sequestro.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 21/10/2009 at 12:55 am Deixe um comentário

A MORTE DO “DENTE HUGO”

 Dente Hugo é um amigo do Peruca, especializado desde tenra idade em tudo quanto é atividade que envolva um grau mínimo de transgressão ou gaiatice, especialmente aquelas que tem um certo ar de falcatrua. Não por acaso vibrou quando lhe anunciei solenemente num buteco da “parada 79”, em plena conversa de bar, com o testemunho do “pastor” Kadu Macedo (tão embriagado quanto nós), que ao completar seus dezoito anos – o que se daria logo, logo – teria zerada sua extensa ficha no Juizado da Infância e Juventude. Que, a partir daí, ficaria limpinha como nova, prontinha para ser preenchida por contravenções dignas de gente grande.

E um belo dia, entediado com a nobre e profícua diversão humanitária de trocar, para seu avô Ramón (veterano de todas as guerras não havidas), amassadas notas de vinte reais por apenas uma nova e lisinha nota de dez, Victor Hugo (como foi registrado o dentuço gaiato e afoito, espécie de Peruca em couro de camelô), resolveu dedicar-se a um “labor” mais útil e aventuroso: o comércio de fios de cobre. Para cuja obtenção, evidentemente, tornou-se um “exímio” alpinista de postes de luz e telefone.

O negócio ía deslanchando mais que pulga em cachorro de rua, até que, não se sabe se por falta de postes ou delação de seu sócio, o Tibica, Dente Hugo teve de dar um tempo das ruas de Gravataí e procurar o auto-exílio no litoral gaúcho, especificamente nas praias de Tramandaí, para onde se mandou, oficialmente, para curtir um descanso de seu árduo trabalho. Em pleno inverno, bairros desertos, entretanto, era impossível resistir a todas aquelas linhas elétricas dando sopa pela praia e o cabrito Dente Hugo tratou logo de escalá-las para ganhar uns cobres com os fios de cobre. E, como não dispensava uma boa canjebrina, a décima escalada acabou resultando num tombo digno daquele acidente automobilístico do Peruca em Glorinha, o que deixou o nosso herói de molho uns  bons dois meses, em plena praia, sem poder exercitar seus dotes ecológicos de reciclador de metais.

É mais ou menos óbvio que a turma em Gravataí sentiu muito a sua ausência, especialmente o plantão da RGE e o Juizado da Infância e Juventude. Como a coisa andava de boca em boca, numa aflição sem fim (que a cidade, apesar dos seus 300 mil habitantes ainda tem hábitos de vilinha do interior, e a fofoca e a especulação sobre a vida alheia é o principal deles), o safado do Kadu, depois de tomar aquele porre com o “Dente”, em Tramandaí, por conta dos cobres amealhados antes da fatal queda, resolveu dar um incentivo ao principal esporte local. E espalhou na internet, mais precisamente no orkut, entre amigos, inimigos e desconhecidos, que o pobre Dente Hugo havia caído de um poste na praia, batido com a cabeça e expirado, nos  braços de um pescador que lhe contou tudo, de olhos e boca arregalados, não sem antes emitir as antológicas frases a la Peruca: “Diz pra todo mundo que o cobre mata, a gurizada que não siga o meu exemplo. Diz pro Tibica que tá perdoando por ter me ensinado este caminho. Manda o “Charuto” ficar com aquele tênis velho e fazer bom uso, que ele já me roubou mesmo. E não se preocupem: não quero ninguém chorando no meu enterro. É pra beber cachaça, cheirar cola e até descascar fio de cobre. Mas não vão chorar. Ah! Avisa pro pai daquela guria que ela me enganou. Eu só fiz sex…” E morreu com a frase incompleta, revirando os olhos.

Como fofoca por internet é bem mais potente, ainda mais na capital gaúcha do fuxico, o resultado é que o boato se espalhou, e tomou as próprias ruas, calçadas, bares, funerárias e a sala de estar das comadres fofoqueiras. Não havia quem não soubesse ou comentasse o imprevisto desenlace. A própria mãe do Kadu, senhora severa mas sentimental, que detestava a amizade de seu filho com o tal do “Dente”, entrou em casa, um certo dia, transformada em lágrimas, com cara de mater dolorosa, e foi interpelando o sem-vergonha: “Meu filho, tu sabia que morreu o Vítor Hugo? Morreu roubando cobre, na praia, o pobrezinho”.

E o nosso amigo Kadu não sabia, diante da barbaridade, o que fazer: se sumia (prevendo a sessão de xingamentos) ou se fazia de desentendido. Mas acabou não se agüentando: “Ô mãe, pára com isto aí. Fui eu mesmo que inventei esta história!”. Dizem as más línguas que a pobre senhora, após uns dez minutos de discussão se convenceu da falsidade do boato e que o Kadu passou umas quantas semanas desparecido também de barzinhos e rodas de amigos. Não por mera proibição, que aos dezenove anos isto pouco adianta, mas por falta absoluta de cobres no seu bolso, com a mesada morta e enterrada.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 24/08/2009 at 7:00 pm Deixe um comentário

Peruca e as Mil e uma Virgens

Entusiasmado, o professor de Direito Público Internacional do Peruca finalmente encontrou, após ler o dicionário jurídico do ilustre pupilo aqui publicado, algo sobre o que o bocaberta mais esperto de Gravataí  poderia discorrer, sem risco,  para ser aprovado no semestre, após dez anos grameando na mesma fase, e possibilitar ao iluminado mestre se ver livre da criatura. E assim, encarregou o nosso herói de elaborar e apresentar, em conjunto com uma turma de colegas tão “excepcionais” (no sentido que se aplica àqueles portadores da síndrome de down e congêneres) quanto ele, um trabalho sobre o terrorismo islâmico contemporâneo em vista das normas internacionais.

Juram acadêmicos do quilate de Camarguinho-chama-o-hugo que o Peruca elaborou tese profunda, de substanciosa e incontestável justificabilidade racional (Camarguinho não tem a menor idéia do que significa este fraseado bacharelístico todo, mas tem certeza de que se trata de coisa muito chique e importante), digna de figurar em discurso de embaixador da Gândia (paiz virtual em que se encontra exilado Gílson Pirâmide desde que perdeu os últimos tostões investido na “Dinastia”) na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O problema, mesmo, foi,  o entusiasmo que o tomou na dissertação oral, em plena sala de aula, em que se encontrava presente o próprio reitor do campus da Universidade, convidado que fora pelo professor da cadeira (que andava necessitando montar a farsa necessária para provar sua competência como mestre, tão grande quanto a inteligência do Peruca). Para que a coisa não ficasse tão técnica e insossa, restrita à secura discursiva do Direito, resolveu adornar sua palestra com algumas informações eruditas, de poesia e rigor científico antropológico inigualávies, e foi dissertando, antes de aprofundar a parte técnica do tema, sobre as pretensas origens religiosas intrínsecas do terrorismo, dando conta dos primeiros atentados ocorridos na História, no meio da Idade Média (há cerca de mil anos), inspirados na promessa maometana de sete virgens gostosas e fogosas que se encontrariam no paraíso, esperando o mártir da guerra santa para a ele se entregar na maior putaria eterna, após sua morte a serviço de Alá.

O Peruca, neste trecho, ía “possuído” por um espírito barbosiano, dando relinchos de furor intelectual, quando sofreu a interferência de um encosto bêbado do velho poeta, matemático e astrônomo árabe-persa Omar Khayyám, e começou a conjecturar sobre as probabilidades do militante suicida ser realmente recompensando com tão doce prêmio.

E foi logo concluindo, com rigor algébrico absoluto, que, se na época havia sete virgens para cada doido muçulmano, passados mil anos, e milhares de terroristas suicidas pirados, dos simples soldados de frente de batalha ou assassinos a soldo do “velho da montanha” aos modernos homens-bomba, não era possível que, mantido o número fixo de virgens escaladas no plantão do éden maometano (que, sendo de puras vestais originárias do próprio paraíso, possuía a mesma quantidade desde a criação do universo, não podendo aumentar na proporção dos fiéis vindos do mundo dos vivos, submetida ao aumento geométrico da reprodução da espécie humana), houvesse por lá ainda virgens.

Ou esta tropa toda de terroristas suicidas era formada, em maioria, de brochas e veados, ou simplesmente as virgens de Alá eram todas, agora, experientes e espertas putas! E assim, caras como o tal de Bin Laden eram doido abestados ou simplesmente não escapavam do milenar sestro falcatrua de todo mascate turco, vendendo vestido de chita por cetim pupúreo.

Não se sabe como, mas se imagina, o Peruca foi promovido de semestre, e ainda foi agraciado com um prêmio inédito na faculdade: o “aproveitamento curricular integral automático” (qualquer coisa parecida com a antiga indulgência plenária concedida pelo Vaticano aos fiéis pré-reforma protestante que doassem vultosas quantias à Igreja). Com ele poderá permanecer mais cinco anos sem comparecer a uma única aula que seu diploma já se encontra desde já garantido. Já o professor parece que foi indicado para importante missão jurídica: nada mais que assessorar a equipe de defesa de Yeda e sua camarilha no processo escandaloso movido pelo Ministério Público Federal.

Ubirajara Passos

Almanaque do Peruca – 3

Os leitores não versados na linguagem jurídica (aos quais recomendo uma boa pesquisa nos sites especializados) que me perdoem, mas eu não podia deixar passar as últimas, fantásticas e brilhantes, tiradas do Peruca nas provas da faculdade de Direito (que, por incrível que pareça, cursa há mais de dez anos sem jamais deixar de fazer jus a sua genial natureza asnífera).

E aí vai, portanto (sem qualquer tentativa de plágio àquele quadro do programa do Jô Soares, por maior semelhança que haja), compilado diretamente dos testes e trabalhos de aula respondidos e elaborados por ele, o VOCABULÁRIO JURÍDICO DO PERUCA:

  • Esbulho possessório: ato de exorcizar aquele que se encontra sob possessão demoníaca;
  • Dação em pagamento: a forma pela qual os gays pagam suas dívidas;
  • Herdeiro universal: é exclusivamente o filho do bispo Edir Macedo;
  • Câmara dos deputados: não é das melhores, pois não possui flash automático, nem filma com áudio;
  • Pessoas de má-fé: aquelas que descrêem de Deus e acreditam no demônio;
  • Patrocínio: assassinato de patrão;
  • Processo concluso: aquela ação que se encontra cedida em carga com o Doutor Cluso;
  • Leis concretas: aquelas elaboradas por serventes e pedreiros.

    Listada esta profunda e barbosiana (do Rui) exposição conceitual só nos resta “parafrasear” o mestre Peruca e concluir que A vida processual é cheia de AUTOS e baixos”.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/06/2009 at 1:15 pm Deixe um comentário

ALMANAQUE DO PERUCA – 2

Se há algo que me deixou enlouquecido nos 60 dias em que estive afastado do trabalho, em razão da “suspensão preventiva” que me foi aplicada, foi a falta da convivência diária com o grande mestre da sabedoria asnífera da juventude gravataiense que atende pelo modesto nome de Peruca. Não sei, mesmo, como não me vi reduzido à burrice anêmica e desamparada!

Mas bastou uma semana de trabalho para que eu tivesse o privilégio de colher as mais exóticas, profundas e requintadas pérolas do florilégio filosófico do bocaberta mais ilustre de Gravataí, que aí vão publicadas:

  • SOMBRINHA PRA QUE TE QUERO?

Na primeira sexta-feira chuvosa do ano ía o Peruca empertigado estacionando seu flamante carro com a mais diligente agilidade possível (o que significa meia-dúzia de automóveis abalroados nas proximidades), quando a “Schuvaca Horripilis” (sua meiga esposa), preocupadíssima em não tomar um banho involuntário, alertou-o:

- Tu não pegou uma sombrinha, né Peruca?

- Ô mulher, deixa de ser implicante! Não tá vendo que não tem vaga debaixo do arvoredo! E além do mais, sombrinha pra quê? Hoje não vai fazer sol mesmo!

  • CASTELO PRA ALUGAR

Esta é foda e faz necessária uma erudita explicação, sem a qual os leitores que não forem habitantes de Gravataí não entenderão bulhufas. Assim, antes de referir o episódio, consigno que, para desgraça de seus moradores, há na cidade um antigo bairro (que foi a primeira “vila” popular construída pelo governo do Estado, especificamente pela CoHab – a Companhia de Habitação) chamado de “Castelo Branco” (“casualmente” o primeiro ditador gorila do regime entreguista inaugurado no Brasil no dia dos bobos de 1964).

Pois o fato é que o Peruca acompanhava sua excelentíssima esposa em uma visita a uma imobiliária, na intenção de alugar um ninho de amor mais confortável, quando o infeliz corretor lhes informou que tinha um imóvel pefeito para as pretensões do casal. Só restava saber se havia algum problema para eles em morar lá na “Castelo”.

E o Peruca, suando frio só de imaginar o preço absurdo de tão nobre prédio, saltou gritando como pivete em fuga:

- Não, moço, o senhor me desculpe! Isso aí é muito grande, eu até vou  me perder e nunca mais achar o caminho!  O que eu queria mesmo era uma casa!

  • O CORCUNDA DE NOSTRADAMUS

A coisa aconteceu comigo e juro que é real, apesar do tom farsesco!

Por incrível que pareça, o Peruca resolveu se preocupar comigo, afinal, depois de dois meses sem trabalho, era visível, segundo ele, que eu me encontrava tão abatido, cabisbaixo e desacostumado de levar sobre os ombros a carga diária enorme de cálculos judiciais, que apresentava um terrível problema de postura. Recomendou-me, mesmo, que fosse fazer uma musculação terapêutica (não é mentira, não, a criatura usou exatamente esta expressão) a fim de fortalecer os músculos das costas e corrigir a verdadeira sifose que eu havia adquirido.

Mas, como mandei-o à merda dizendo que não havia problema de postura algum, o meu zeloso amigo arremeteu:

-Pô Bira, deixa de ser besta! Vai dar um jeito nisto, que a coisa tá feia! Tu até tá parecendo aquele personagem de filme que se apaixonou pela cigana Esmeralda,  o “Corcunda de Nostradamus”!

É evidente que tentei explicar o engano. Mas o Nandinho Andarola (mais novo estagiário do setor, tão esperto quanto o Peruca, cujas façanhas serão, neste blog, em breve narradas), não deixou por menos e tratou de corrigir a nossa ignorância:

- Vão ser burros assim lá em Paris! Então vocês não sabem que este cara não era personagem de filme nem livro nenhum! O sujeito existiu sim, embora não seja muito mencionado pra não manchar a reputação sexual do profeta! Nostradamus era veado, gostava de sexo bizarro e tinha um corcunda que pegava ele! Quem é que vocês acham que anotava as previsões que o sábio recitava em transe?

Ubirajara Passos

… NEM TODO TONTO É PERUCA!

Eu ia saindo macambúzio do Foro, naquele final de expediente de sexta-feira, devido a uma discussão idiota, por telefone, com a minha gata preferida (que em breve se tornará minha mulher) quando fui cercado pela dupla Peruca e Kadu, que, com ar de moleque que cagou nas calças, entre a ansiedade e o deboche, foi me disparando:

— Ô Bira, olha o que colocaram no teu bolso! – vai, dizendo o Kadu, enquanto o Peruca sacode os cornos, concordando com o outro sem-vergonha.

Conhecedor da cretinice especializada dos dois safados (especialmente do Kadu, que dispensa comentários) fui logo abrindo aquele sorriso descrente:

— Gurizada, vamos deixar de frescura que não tô pra brincadeira. A criatura me deixou reinando!

— Ô Bira, nos tamos falando sério! Quando tu ía passando pela porta, passou um cara a mil e botou uma coisa no teu bolso. Olha aí! – arremata o Peruca.

Procuro nos mais diversos bolsos e nada! E já vou me mandando, quando o Kadu insiste:

— Cara, olha no bolso da jaqueta!

E o idiota aqui, convertido no mais novo membro da espécie burrus pateticum, apalpa o interior do bolso, estufado de papéis, dinheiro, um frasco de descongestionante nasal e outro de removedor de cera dos ouvidos (para debelar o resultado do vento minuano, que resolveu gelar o Rio Grande do Sul antes da entrada oficial do inverno), encontrando uma coisa cilíndrica e enrolada, com consistência suficiente para ser um filhote de cobra ou uma minhoca.

Fóbico que sou com este tipo de bicho, ainda que de brincadeira(como a cobra de plástico, com mola, que o Cabelinho, primo do Peruca, andava segurando, faz um ano, nos portões do foro), emputeci e intimei os dois aos gritos:

— Tira esta coisa daqui, tropa de safados filhos de uma puta!

E os dois cornos dispararam correndo, o que só confirmou o meu pânico. Cobra viva não devia ser, mas uma de borracha já seria suficiente para um ataque de fobia (reação que jamais me ocorreria se fosse um cabeluda aranha). E se fosse um punhado de minhocas, podiam começar a se mexer, no meu caminho a pé até em casa.

Não havia jeito: para confirmar e evitar um vexame na rua, maior do que já havia dado, eu teria de esvaziar o maldito bolso, o que era melhor fazer na sala da Distribuição e Contadoria, em que trabalho, longe dos olhos dos colegas dos demais cartórios, que saíam, já que os meus já deviam ter ido embora.

Mas lá chegando, dei com metade da equipe ainda se enrolando pra abandonar o serviço. Com exceção da dupla de veados (o Peruca e o Kadu, é claro), da chefe e de uma estagiária que encontrei no corredor, lá estavam todos os demais três oficiais escreventes (entre eles o Castello Branco) e a loirinha mais linda e gostosa do setor, que depois que largou o namorado (um gordo safado e metido a dominador machista) deixou de ser uma tímida puritana cuja frase preferida, a propósito de qualquer irreverência um pouco mais picante, era “que nojo”, e agora se tornou a mais animada e extrovertida gata do cartório, se bem que não a ponto de rir de uma piada cavalarmente explícita.

Pois foi justamente pra loirinha, que deu o azar de cruzar na minha frente antes de qualquer outro, que pedi:

— Fulana, tu é mulher, mas é mais valente do que eu. Tira tudo que tem no bolso da jaqueta pra mim. – E lhe dei o casaco de couro marrom, do qual ela foi tirando, pacientemente, papéis, remédios, notas e moedas, sem aparecer o troço roliço.

— Bira, só tem isso aí!

— Ô guria, não pode ser, tem mais alguma coisa. Os putos do Kadu e do Peruca me enfiaram um negócio aí e saíram correndo! Vai lá,mete a mão no fundo!

E foi então que saltou da sua mão, vinda das profundezas do bolso, uma camisinha aberta, cheia de uma substância branca (que a dupla de gozadores confessou , mais tarde, ser maisena), provocando o coro de risadas, inclusive da própria guria (vítima involuntária da palhaçada) e a minha estupefação furiosa. Pois eu supunha que a porra falsa fosse cola tenaz, o que me estragaria o casaco. Não fosse isso teria me mijado de rir na frente da própria gatinha gostosa, e não em casa, ao me lembrar do fato!

Com o que ficou provado, naquele modorrento final de dia, que, se nem tudo que há no bolso é grana, nem todo tonto (como eu) é Peruca!

Ubirajara Passos

NEM TUDO QUE HÁ NO BOLSO É GRANA…

Por mais óbvio que pareça o título deste post, ao menos para 98% dos brasileiros, que sabem muito bem o que é a tristeza infinita e sem consolo de possuir uma versão em miniatura e sem glamour dos famosos “buracos negros”da astrofísica em suas próprias calças, a coisa não era tão evidente assim para o Peruca!

Mesmo tendo sido assaltado por um traveco sado-masoquista, com o qual manteve “estreitas” relações durante meses, e, por esporte e necessidade financeira, tendo exercido todo seu ímpeto animalesco de jegue “no cio” sobre um proeminente, temperamental e respeitável “bambi” da pequena-burguesia pretensamente aristocrática de Gravataí, por diversas vezes, mediante o fornecimento de uns simples trocados, o nosso tonto predileto ainda acreditava que em bolsos masculinos só existiam notas de “dez reais” (vem com o “Tio Pedrinha” que ele te dá dezinho – já dizia o monitor pedófilo e taradão da creche que o Peruca freqüentava ainda piá), e, no máximo, aquele cigarrinho de maconha (coisa que conhece só de ver na mão do “Charuto” e outros parceiros do Dente Hugo).

Até que um dia, entorpecido de cerveja, foi abordado, em pleno posto da Avenida Centenário, pelo Camarguinho-chama-o-Hugo, completamente alcoolizado com meia dose de uísque batizado, que berrava desesperadamente e inconsolável: “Eu perdi! Puta que pariu, onde  foi parar? E agora, o que vai ser de mim sem isso? Eu prometi que ía dar pra ela, amanhã sem falta! E agora, meu Deus do céu? Ô Peruca, mete a mão aqui no meu bolso, que acho que tá furado, e ele já era!”

Nosso bocaberta e altruísta personagem, apesar da preguiça proverbial, que já o impediu até de usar o que possui entre as pernas com uma tarada prima minha (o que lhe valeu, além da tradicional e justa “galhada”, o título honorífico de irmão avantajado do pincel de paredes, a famosa broxa), bufou uns bons três minutos, entediado, e sem coragem de levantar a buzanfa da cadeira, mas a gritaria era tanta e tão histérica, que acabou acorrendo à insistência do amigo, cravando fundo a mão no seu bolso, e dando com aquela coisa mole, roliça e meio cabeluda – que ele realmente estava furado, mas dali não saíra nada. Antes entrara, não se sabe se por cálculo do dono, ou caso fortuito, uma piça “barroca” (igual a de anjo de igreja católica seiscentista) e desativada!

Dizem as mãos línguas do bairro da Várzea que foi depois do episódio, e não no Festival do chopp de Feliz, que o Camarguinho apareceu de nova maquiagem, com a falta de dois dentes e meio na linha frontal de sua boca!

Mas, desde então, o Peruca ficou mais esperto: agora, pra evitar tão inconveniente absurdo, quando vai beber, leva consigo um vistoso par de luvas cirúrgicas!

Ubirajara Passos

A BÍBLIA DO PERUCA: Adão peruca, a cobra e a banana

Deus Peruca, depois de 6 bilhões de anos, montando e esculhambando, e remontando, desastradamente, o Universo, finalmente havia terminado sua tarefa e, numa enjoativa tarde de sábado, curtindo uma ressaca “eterna”, resolveu descansar, dando aquela cochilada na rede da varanda. Mas como era Peruca, apesar de Deus, havia se esquecido de inventar a rede no jogo lego da Terra, o último pedaço fabricado do Universo. E, tomado por aquela preguiça divina, ficou por ali mesmo, pelo jardim do sítio do Itacolomi, que alguns milhares de anos depois seria o monte das revelações do Law-Moisés sem-pirâmide-com-dinastia, caminhando, va-ga-ro-sa-men-te… e babando sonolento!

E era tão lenta sua caminhada, e tão lerdos estavam seus neurônios, que o Universo inteirinho entrou em hibernação, reduzindo quase ao frio absoluto o movimento de suas moléculas, e a baba do Peruca Criador de Tudo se solidificou e surgiu um estranho boneco, com cara de bundão, que era a sua cara e semelhança. E Deus Peruca tropeçou no próprio clone e, após cem anos, viu que era o seu retrato e era “bom” e abobadão e deu-lhe o nome abreviado de “Adão”.

Mas a figura era muito sem graça. Não falava, não corria, nem (pecado supremo) abria a boca pra comer nuvens de galáxias, à semelhança de seu imenso pai supremo. E, então, o Deus Peruca, resolveu dar-lhe vida! E como tudo ainda andava, apesar da animação, muito gelado, peidou, com seu buzanfão infinito, sobre o Peruca Adão, que pôs-se em pé, lentamente, passando uns bons duzentos anos de quatro, e, logo avistou seu criador, abriu a boca num espanto infinito e começou a babar, enquanto uma ínfima comichão no cérebro lhe deu a noção de que 1+1 é 2 e daí por diante tudo é muito!!!

Tudo andava muito bem no jardim do Paraíso do Itacolomi, mas Deus Peruca percebeu que seu fiho predileto andava entediado, perdera o tesão de tentar contar os dedos dos pés e ultimamente andava tentando somar um mais cinco, num estranho movimento de socar mandioca! E Deus Peruca pensou: meu pobre filho precisa de uma companhia e de algo que o acorde deste sono quase eterno! E deu-lhe por parceira uma mula!

No princípio Adão Peruca achou tudo muito interessante, mas a mula era por demais semelhante a ele mesmo, convicta, impermeável à inteligência e teimosa! E quando resolvia enfiar o próprio rabo entre as pernas e escoicear o Adão tarado, que queria lhe plantar a mandioca, nem Deus Peruca conseguia dissuadi-la.

Adão Peruca e sua "Eva" Mula

Aí apareceu a cobra, que veio do nada, imprevista que estava no roteiro do vídeo universo Peruca, e foi logo mostrando pro Adão Peruca uma fruta enorme, colorida e chamativa denominada banana! E convenceu-o, apesar da teimosia (que era a maior semelhança com seu criador), a engolir a banana até o fundo, donde manou leite e mel! E o Adão Peruca ficou atordoado, maravilhado, endoidecido – até dançou um funk à velocidade da luz, lerdo que era – e resolveu que essa coisa de fêmea de jegue não tava com nada e que, dali por diante, só ia se divertir com a cobra e com a banana!

Foi então que Deus Peruca, que havia se esquecido, entre um cochilo e outro de proibir seu filho de não dar trela à cobra louca do deserto e não chegar perto da fruta de folha mole e quebrada, sacudido de seu sono eterno, por um relincho mais agudo de sua cria predileta, viu a pouca vergonha que se tornara a Terra, mandou a cobra curtir uma de coruja nas margens do Rio dos Gravatás junto à Anta Vaidosa, e expulsou o Adão Peruca pro deserto, mas não sem lhe deixar uma companhia de infortúnio, que era a culpada do desviadão: mandou junto a mula, amansada, e do “menage a trois” do Perucadão (que foi o novo nome que lhe deu o “Criador”), da mula e da banana, nasceu a “Dinastia” Delta-Rede, que gerou a grande raça dos bocabertas sobre a terra! Alguns milênios após, a lei de Deus Peruca seria novamente revelada aos puros descedentes, esquecidos da safadeza original, por Law Moisés, libertador dos trouxas!

Ubirajara Passos