A Multa do Law Pirâmide da 59

Law Pirâmide é um primo do Franja (Gílson Pirâmide) que caiu no conto da “Dinastia”, induzido pelo parente, e, depois de perder todos os tostões investidos e ainda ficar devendo o equivalente inverso em raiz geométrica proporcional (o fatorial de quatro elevado ao número de brasileiros componentes do mercado de trabalho formal), enlouqueceu e acabou se associando ao Dente Hugo num novo negócio espetacular: exportação de fio de cobre para o Paraguai.

O apelido foi justamente o resultado do logro e do novo ramo adotado, o que lhe rendeu uma ciumeira danada do Franja, que volta e meia é confundido com o primo, assim como ocorria com o Peruca e o Kadu, antes de se consagrar seu apelido no estágio forense (e neste blog).

Por incrível que pareça, o tal comércio exterior de metal recilado acabou por lhe render alguns cobres que lhe permitiram uma bizarra vida dupla.

Durante o dia circula na Várzea do Gravataí com aquela impecável camisa de seda branca, enfeitada com uma tradicional gravata borboleta preta de elástico (que não sabe fazer nó e muito menos tem grana para comprar uma legítima), cumprimentando educadamente todos os vizinhos, e não deixa de atender a um único “pedido” (isto é, ordem, dada aos trambolhões) da namorada gostosa, mas manhosa e autoritária que só lhe dá a cada trinta dias (isto se o Law apresentar o boletim da Ulbra sem nenhuma nota “vermelha”).

Mas basta tomar uma simples dose de absinto depois da meia-noite que, como um “Gremlin humano”, o sujeito se transforma totalmente. Veste uma camisa floreada, chapéu panamá branco fabricado em Santa Catarina, aquela indefectível calça jeans cheia de bolsos nas pernas, um par de mocassins brancos, e sai por aí, com seu sócio, dando saltos sobre os telhados como um cabrito e correndo, até amanhecer, a mais desclassificada zona do “baixo meretrício”, na qual sua predileção é pelas putas pobres que se escondem, na madrugada, intermediadas por seu chapado cafetão de bermuda e camiseta, na entrada da Igreja da parada 59, na divisa entre os municípios gaúchos de Gravataí e Cachoeirinha.

Pois foi como resultado de uma destas investidas que o doido levou uma pesada multa por excesso de velocidade e me enviou, mais pirado do que nunca, o e-mail abaixo reproduzido, que me autorizou a publicar no blog depois que lhe disse que podia interorpor, tranqüilamente, o recurso administrativo, na forma redigida, pois além de adaptado jurídica e factualmente de forma irretocável aos fatos e à natureza da demanda, era digno de figurar nos “anais” do Anarquismo heterodoxo. Segue, para o deleite dos leitores, que devem andar enjoados com o “bom comportamento” deste blogueiro, o texto:

“lustríssimo Senhor Diretor do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN:

RECURSO Auto de Infração nº 6435987-9
Notificação nº 34536782998

Eu, Law Pirâmide da 59, brasileiro, solteiro , portador da cédula de identidade R.G. nº 69432471, do CPF nº69666171-18 e da carteira nacional de habilitação nº1716661824 domiciliado no Município de Gravataí Rio Grande do Sul, venho, por meio deste, requerer digne-se este respeitável Departamento Estadual de Trânsito de determinar a nulidade da multa em questão.

1. Trata-se de multa emitida no dia 02 de novembro de 2009,no Município de Cachoeirinha, em virtude de alegado excesso de velocidade (superior a 20% da velocidade permitida), com o veículo da marca FIAT, modelo Palio, de placa VTC6966, constatado na Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira – Flores da Cunha, altura da parada 59, às 4:35 horas desse dia.

2. Este recurso não tem por fim demonstrar a não ocorrência da infração em si considerada, mas apenas demonstrar os motivos que deram ensejo a essa, e, consequentemente, eximir-se das penalidades que dela decorrem.

3Sou assíduo freqüentador das boates e casas noturnas da região, trafegando diversas noites por semana nas vias deste bairro, sendo portanto profundo conhecedor da localização dos malditos radares que se escondem com o intuito de subtrair desavergonhadamente o tão arduamente dinheiro dos bons motoristas como eu.

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5Assim, não haveria por que exceder a velocidade exatamente no ponto onde se localiza o radar. Isto posto, segue uma breve narrativa do ocorrido na madrugada do dia 02 de novembro de 2009:

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6Alguns minutos antes da constatação da infração, estava sozinho no automóvel trafegando pela mencionada avenida , retornando alcoolizado de uma inglória tentativa de obter sexo oral gratuito com as moças que por ali exerciam suas profissões.

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8Revoltado com minha má performance social, decidi por bem esvair minha cólera através da velocidade nas vias públicas, ciente de estar arriscando minha vida e as de outrem. Ao me aproximar do ponto onde foi constatada a infração, não diminuí a velocidade de meu veículo como de costume, pois na semana anterior havia disparado contra o instrumento de aferição de velocidade e fotografia conhecido popularmente como “radar” diversos tiros, sendo bem sucedido na tentativa de destruir o objeto pertencente ao município.

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10Entretanto, com a visão parcialmente inabilitada graças a ingestão irresponsável e desmedida (porém proposital e gratificante) de álcool etílico potável, não pude ver que o instrumento já havia sido prontamente reparado, vindo a ter ciência disso somente com o “flash” da fotografia, que, ao ser disparado me causou distração, fazendo com que eu derrubasse meu uísque e perdesse de vista uma gostosa que dirigia um Vectra a qual eu estava perseguindo.

8. Esse breve relato demonstra a inexistência de culpa na prática do mencionado ato, uma vez que esse se deu pelos seguintes motivos:

A) Incompetência do município em comunicar aos motoristas que o aparelho já se encontrava em funcionamento.

B) Má-fé do da administração municipal que providenciou o reparo do instrumento em um prazo infinitamente inferior ao padrão vigente no serviço público com o intuito de prejudicar deliberadamente os motoristas alcoolizados.

Assim sendo, peço que seja declarada a nulidade da infração, a desativação dos radares fotográficos e que os pontos sejam retirados de meu prontuário.

Ainda, exijo a reposição do uísque derrubado e a identificação e telefone da motorista do Vectra Prata, placa PQP2469, cujo flash do instrumento público me fez perder de vista.

Demonstro minha total insatisfação e desaprovação ao código de trânsito vigente, que impede que bons motoristas se valham de suas habilidades de pilotagem na via pública.

Termos em que,
Peço Deferimento.

Gravataí, 5 de novembro de 2009”

Almanaque do Peruca – 5

Algumas anedotas ocorridas com a turma do Peruca nas últimas semanas, que me foram recentemente transmitidas pelo Kadu:

  • Após ficar 3 anos sem quitar seus débitos com o Múnicipio (que queria lhe cobrar ISSQN pela atividade de “reciclador de fio de cobre”, Dente Hugo recebe uma intimação, referente a um processo de execução. Dirige-se, borrado de medo que seja alguma ação criminal, à Distribuição e Contadoria do Foro de Gravataí, e pede, tremendo, para falar com o tal Fiscal.

    O balconista, Nandinho Andarola, depois de lhe fazer um extenso interrogatório (que começou, afetado, com aquela perguntinha cretina: mas qual é o objetivo, meu senhor?), informa-lhe que ali não havia nenhum fiscal, se não o local não seria o Foro, mas a  Secretaria da Fazenda do Estado.
    O Dente, a esta altura mais puto da vida que amedrontado, responde, gaguejando aos saltos:

    - Não Ganja, é aqui mesmo que me mandaram. Diz que é para falar com o seu Anésio, ele é fiscal por aqui. Olha, meu: tá aqui escrito com todas as letras- e mostra um pedaço de papel que tem na mão.
    Nandinho pede para ver o papel e, após lê-lo, desata a rir, como um cavalo emaconhado, enquanto comenta:

    - Ô Vítor Hugo, não é Anésio Fiscal, não.  Isto aí é o “Anexo Fiscal” e fica no terceiro andar!

     

  • Um homem se separou da mulher e foi morar com uma amante. Passados alguns anos, já brocha e sem um tostão furado no bolso, voltou para a cornuda titular, morrendo pouco tempo depois.A esposa, chorosa e compadecido providenciou com todo o primor e devoção o velório do safadarna falecido. Se prestou, mesmo, a convidar seus companheiros de boemia e providenciar cachaça e cavaquinho para a homenagem póstuma. Mas impediu, entretanto, a entrada da amante no recinto, que isto já era uma indignidade.Diante deste impasse, o Dr.  Nênio Gambá, ilustre e etílico advogado indicado pelo Peruca para patrocinar os interesses da “outra”, ajuizou ação requerendo que o falecido “fosse desenterrado para relização de outro funeral, desta vez com a presença de sua cliente”.

    Ubirajara Passos


Publicado em: on 04/11/2009 at 12:10 am Deixe um comentário

Almanaque do Peruca – 4

 

Recebido diretamente da central de fofocas do Kadu, pois o estágio do Peruca terminou e não temos mais acesso direto ao personagem e suas aventuras, seguem abaixo as últimas façanhas do estudante mais brilhante de Gravataí na Ulbra local:

Em uma prova oral de Direito Civil , indagado se o cego possui capacidade jurídica,  o Peruca respondeu, convicto como um jegue diplomado: “Sim,  possui plena capacidade,visto que consegue entender a língua dos SINAIS e também, ler em HEBRAICO!!!”

Definição de Edital, segundo o Peruca, em uma avaliação dissertativa de Direito Processual:  “é uma forma de fazer uma pessoa saber o que ela não sabe. O único problema é que ,
muitas vezes, porque não lê o jornal, ela não vai mesmo ficar sabendo".

Em um teste aplicado  ao Peruca no final do ano de 2001, quando já cursava por 6 longos anos o curso de  Direito, foi lançada a seguinte questão: "Cite um exemplo de crime formal."
A resposta, inspirada pelo atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América, foi: explosão mediante sequestro.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 21/10/2009 at 12:55 am Deixe um comentário

Submergindo na Inciência

Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/10/2009 at 1:43 am Comentários (1)

50 dias de silêncio

Segundo a Bíblia, Cristo, no início de sua carreira, passou quarenta dias no deserto, reinando consigo mesmo e batendo boca com o Capeta.

Ninguém sabe ao certo, até hoje, se o duelo verbal entre o profeta hippie e o bajulador chifrudo foi o resultado mental da privação de água e do calor desértico, ou se o piá divino havia se recolhido aos sertões da Palestina justamente para fumar sossegado aquela ervinha diferente.

O fato é que a besta idéia resultou num dos mais equívocos e irônicos embates de personalidades da História imaginária. Um subordinado do “Todo Poderoso” que oferece reinos ao seu próprio procurador humano plenipotenciário, como se este precisasse do puxa-saco para conquistá-los, em troca da sua adoração é, no mínimo, imbecil ou irremediavelmente vaidoso. O que destoa, por completo, da idéia do diabo malandro e  perspicaz que aprendemos.

Isto sem falar, é claro, na contradição entre um temido capeta perigoso e violento e os laivos gays de uma proposta do tipo: “por que não te atiras deste precipício para que aqueles anjos loiros e sarados venham te amparar nos braços”?

Mas o pior de tudo, mesmo, é o tal Deus vivo encarnado em homem se deixar levar na conversa inábil do tinhoso petulante e hesitar a ponto de quase cair no infernal golpe do bilhete!

Seja como for, duvido muito que o divino exílio tenha tido os percalços por que passei nestes cinqüenta dias sem escrever um ó neste meu site. Chegado aos quarenta e quatro (conjunto de algarismos etários que duplica a infelicidade desta ambígua fase da vida que atende pelo pouco casual nome de “meia idade”), em 30 de agosto, fui,  de um sobressalto a outro, me encolhendo e tornando  a me jogar, pretensamente audaz, ao seu enfrentamento.

A verdade é que a pindaíba crônica se viu agravada, neste dias, pela necessidade  de realizar uma festa decente de 1.º aniversário (completado em 1.º de setembro e comemorado no sábado seguinte, dia 5) à coisinha mais linda do  mundo, a minha filha Isadora. E quaduplicada não só pela ameaça de corte da URV do meu salário (bem como de todos os funcionários da justiça do Rio Grande do Sul), mas também pelas conseqüências salariais da suspensão a que fui condenado em razão das retaliações políticas que me move o patrão judiciário há mais de um ano – que resultou, com o desconto de metade do salário bruto, somado aos normais do contracheque, em nenhum centavo sequer para um gole de cachaça.

Neste meio tempo fui do entusiasmo de sindicalista ameaçado de perder direitos salariais garantidos à perplexidade e o medo covarde de funcionário acossado, sem recursos com que sobreviver e sustentar família senão aqueles que a solidariedade paterna, de parentes da minha mulher e de companheiros de luta e beberagem permitiu-me. Fica aqui a minha gratidão e homenagem a estas criaturas, que saberão quem são, sem necessitar nominá-las.

E, se escrevi e produzi alguma coisa intelectualmente, foi completamente absorvido pelos fatos, de modo que este blog viu-se relegado ao milionésimo plano frente ao seu irmão, o do Movimento Indignação, e aos discursos sindicais e providências materiais necessárias ao drible da secura salarial, que quase me faz delirar como a secura de água do Cristo no deserto.

E assim é que cheguei aqui, três horas da madrugada fria de uma primavera sulina que teima em se esconder e travestir de inverno, para simplesmente dar uma satisfação aos leitores, e, com a linguagem empolada de que volta e meia se reveste a minha dupla personalidade (já que o malandro, nestes tempos, correu em disparada) dizer que ainda estou vivo. E que, apesar de todo o temporal, e da sacanagem, me pego embevecido e terrivelmente feliz e fascinado com um simples sorriso franco, espontâneo, entusiasmado e gostoso da minha filhinha. Isadora, que a vida te seja mais doce e menos pesada do que tem sido comigo, mas, sobretudo, que não seja tediosa, nem tenha menos peripécias do que as que este teu pai louco quarentão tem experimentado.

Isadora no colo de seu avô octagenário, meu pai, Almiro dos Passos, ladeados por mim e minha mulher Janaina

Ubirajara Passos

Publicado em: on 15/10/2009 at 3:23 am Deixe um comentário

A MORTE DO “DENTE HUGO”

 Dente Hugo é um amigo do Peruca, especializado desde tenra idade em tudo quanto é atividade que envolva um grau mínimo de transgressão ou gaiatice, especialmente aquelas que tem um certo ar de falcatrua. Não por acaso vibrou quando lhe anunciei solenemente num buteco da “parada 79”, em plena conversa de bar, com o testemunho do “pastor” Kadu Macedo (tão embriagado quanto nós), que ao completar seus dezoito anos – o que se daria logo, logo – teria zerada sua extensa ficha no Juizado da Infância e Juventude. Que, a partir daí, ficaria limpinha como nova, prontinha para ser preenchida por contravenções dignas de gente grande.

E um belo dia, entediado com a nobre e profícua diversão humanitária de trocar, para seu avô Ramón (veterano de todas as guerras não havidas), amassadas notas de vinte reais por apenas uma nova e lisinha nota de dez, Victor Hugo (como foi registrado o dentuço gaiato e afoito, espécie de Peruca em couro de camelô), resolveu dedicar-se a um “labor” mais útil e aventuroso: o comércio de fios de cobre. Para cuja obtenção, evidentemente, tornou-se um “exímio” alpinista de postes de luz e telefone.

O negócio ía deslanchando mais que pulga em cachorro de rua, até que, não se sabe se por falta de postes ou delação de seu sócio, o Tibica, Dente Hugo teve de dar um tempo das ruas de Gravataí e procurar o auto-exílio no litoral gaúcho, especificamente nas praias de Tramandaí, para onde se mandou, oficialmente, para curtir um descanso de seu árduo trabalho. Em pleno inverno, bairros desertos, entretanto, era impossível resistir a todas aquelas linhas elétricas dando sopa pela praia e o cabrito Dente Hugo tratou logo de escalá-las para ganhar uns cobres com os fios de cobre. E, como não dispensava uma boa canjebrina, a décima escalada acabou resultando num tombo digno daquele acidente automobilístico do Peruca em Glorinha, o que deixou o nosso herói de molho uns  bons dois meses, em plena praia, sem poder exercitar seus dotes ecológicos de reciclador de metais.

É mais ou menos óbvio que a turma em Gravataí sentiu muito a sua ausência, especialmente o plantão da RGE e o Juizado da Infância e Juventude. Como a coisa andava de boca em boca, numa aflição sem fim (que a cidade, apesar dos seus 300 mil habitantes ainda tem hábitos de vilinha do interior, e a fofoca e a especulação sobre a vida alheia é o principal deles), o safado do Kadu, depois de tomar aquele porre com o “Dente”, em Tramandaí, por conta dos cobres amealhados antes da fatal queda, resolveu dar um incentivo ao principal esporte local. E espalhou na internet, mais precisamente no orkut, entre amigos, inimigos e desconhecidos, que o pobre Dente Hugo havia caído de um poste na praia, batido com a cabeça e expirado, nos  braços de um pescador que lhe contou tudo, de olhos e boca arregalados, não sem antes emitir as antológicas frases a la Peruca: “Diz pra todo mundo que o cobre mata, a gurizada que não siga o meu exemplo. Diz pro Tibica que tá perdoando por ter me ensinado este caminho. Manda o “Charuto” ficar com aquele tênis velho e fazer bom uso, que ele já me roubou mesmo. E não se preocupem: não quero ninguém chorando no meu enterro. É pra beber cachaça, cheirar cola e até descascar fio de cobre. Mas não vão chorar. Ah! Avisa pro pai daquela guria que ela me enganou. Eu só fiz sex…” E morreu com a frase incompleta, revirando os olhos.

Como fofoca por internet é bem mais potente, ainda mais na capital gaúcha do fuxico, o resultado é que o boato se espalhou, e tomou as próprias ruas, calçadas, bares, funerárias e a sala de estar das comadres fofoqueiras. Não havia quem não soubesse ou comentasse o imprevisto desenlace. A própria mãe do Kadu, senhora severa mas sentimental, que detestava a amizade de seu filho com o tal do “Dente”, entrou em casa, um certo dia, transformada em lágrimas, com cara de mater dolorosa, e foi interpelando o sem-vergonha: “Meu filho, tu sabia que morreu o Vítor Hugo? Morreu roubando cobre, na praia, o pobrezinho”.

E o nosso amigo Kadu não sabia, diante da barbaridade, o que fazer: se sumia (prevendo a sessão de xingamentos) ou se fazia de desentendido. Mas acabou não se agüentando: “Ô mãe, pára com isto aí. Fui eu mesmo que inventei esta história!”. Dizem as más línguas que a pobre senhora, após uns dez minutos de discussão se convenceu da falsidade do boato e que o Kadu passou umas quantas semanas desparecido também de barzinhos e rodas de amigos. Não por mera proibição, que aos dezenove anos isto pouco adianta, mas por falta absoluta de cobres no seu bolso, com a mesada morta e enterrada.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 24/08/2009 at 7:00 pm Deixe um comentário

Peruca e as Mil e uma Virgens

Entusiasmado, o professor de Direito Público Internacional do Peruca finalmente encontrou, após ler o dicionário jurídico do ilustre pupilo aqui publicado, algo sobre o que o bocaberta mais esperto de Gravataí  poderia discorrer, sem risco,  para ser aprovado no semestre, após dez anos grameando na mesma fase, e possibilitar ao iluminado mestre se ver livre da criatura. E assim, encarregou o nosso herói de elaborar e apresentar, em conjunto com uma turma de colegas tão “excepcionais” (no sentido que se aplica àqueles portadores da síndrome de down e congêneres) quanto ele, um trabalho sobre o terrorismo islâmico contemporâneo em vista das normas internacionais.

Juram acadêmicos do quilate de Camarguinho-chama-o-hugo que o Peruca elaborou tese profunda, de substanciosa e incontestável justificabilidade racional (Camarguinho não tem a menor idéia do que significa este fraseado bacharelístico todo, mas tem certeza de que se trata de coisa muito chique e importante), digna de figurar em discurso de embaixador da Gândia (paiz virtual em que se encontra exilado Gílson Pirâmide desde que perdeu os últimos tostões investido na “Dinastia”) na Assembléia Geral das Nações Unidas.

O problema, mesmo, foi,  o entusiasmo que o tomou na dissertação oral, em plena sala de aula, em que se encontrava presente o próprio reitor do campus da Universidade, convidado que fora pelo professor da cadeira (que andava necessitando montar a farsa necessária para provar sua competência como mestre, tão grande quanto a inteligência do Peruca). Para que a coisa não ficasse tão técnica e insossa, restrita à secura discursiva do Direito, resolveu adornar sua palestra com algumas informações eruditas, de poesia e rigor científico antropológico inigualávies, e foi dissertando, antes de aprofundar a parte técnica do tema, sobre as pretensas origens religiosas intrínsecas do terrorismo, dando conta dos primeiros atentados ocorridos na História, no meio da Idade Média (há cerca de mil anos), inspirados na promessa maometana de sete virgens gostosas e fogosas que se encontrariam no paraíso, esperando o mártir da guerra santa para a ele se entregar na maior putaria eterna, após sua morte a serviço de Alá.

O Peruca, neste trecho, ía “possuído” por um espírito barbosiano, dando relinchos de furor intelectual, quando sofreu a interferência de um encosto bêbado do velho poeta, matemático e astrônomo árabe-persa Omar Khayyám, e começou a conjecturar sobre as probabilidades do militante suicida ser realmente recompensando com tão doce prêmio.

E foi logo concluindo, com rigor algébrico absoluto, que, se na época havia sete virgens para cada doido muçulmano, passados mil anos, e milhares de terroristas suicidas pirados, dos simples soldados de frente de batalha ou assassinos a soldo do “velho da montanha” aos modernos homens-bomba, não era possível que, mantido o número fixo de virgens escaladas no plantão do éden maometano (que, sendo de puras vestais originárias do próprio paraíso, possuía a mesma quantidade desde a criação do universo, não podendo aumentar na proporção dos fiéis vindos do mundo dos vivos, submetida ao aumento geométrico da reprodução da espécie humana), houvesse por lá ainda virgens.

Ou esta tropa toda de terroristas suicidas era formada, em maioria, de brochas e veados, ou simplesmente as virgens de Alá eram todas, agora, experientes e espertas putas! E assim, caras como o tal de Bin Laden eram doido abestados ou simplesmente não escapavam do milenar sestro falcatrua de todo mascate turco, vendendo vestido de chita por cetim pupúreo.

Não se sabe como, mas se imagina, o Peruca foi promovido de semestre, e ainda foi agraciado com um prêmio inédito na faculdade: o “aproveitamento curricular integral automático” (qualquer coisa parecida com a antiga indulgência plenária concedida pelo Vaticano aos fiéis pré-reforma protestante que doassem vultosas quantias à Igreja). Com ele poderá permanecer mais cinco anos sem comparecer a uma única aula que seu diploma já se encontra desde já garantido. Já o professor parece que foi indicado para importante missão jurídica: nada mais que assessorar a equipe de defesa de Yeda e sua camarilha no processo escandaloso movido pelo Ministério Público Federal.

Ubirajara Passos

Almanaque do Peruca – 3

Os leitores não versados na linguagem jurídica (aos quais recomendo uma boa pesquisa nos sites especializados) que me perdoem, mas eu não podia deixar passar as últimas, fantásticas e brilhantes, tiradas do Peruca nas provas da faculdade de Direito (que, por incrível que pareça, cursa há mais de dez anos sem jamais deixar de fazer jus a sua genial natureza asnífera).

E aí vai, portanto (sem qualquer tentativa de plágio àquele quadro do programa do Jô Soares, por maior semelhança que haja), compilado diretamente dos testes e trabalhos de aula respondidos e elaborados por ele, o VOCABULÁRIO JURÍDICO DO PERUCA:

  • Esbulho possessório: ato de exorcizar aquele que se encontra sob possessão demoníaca;
  • Dação em pagamento: a forma pela qual os gays pagam suas dívidas;
  • Herdeiro universal: é exclusivamente o filho do bispo Edir Macedo;
  • Câmara dos deputados: não é das melhores, pois não possui flash automático, nem filma com áudio;
  • Pessoas de má-fé: aquelas que descrêem de Deus e acreditam no demônio;
  • Patrocínio: assassinato de patrão;
  • Processo concluso: aquela ação que se encontra cedida em carga com o Doutor Cluso;
  • Leis concretas: aquelas elaboradas por serventes e pedreiros.

    Listada esta profunda e barbosiana (do Rui) exposição conceitual só nos resta “parafrasear” o mestre Peruca e concluir que A vida processual é cheia de AUTOS e baixos”.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/06/2009 at 1:15 pm Deixe um comentário

José LOURIVAL Bergmann: uma vida a serviço do povo

Para satisfação dos leitores que tiveram sua curiosidade despertada pela crônica publicada no último domingo, segue aí uma rápida resenha da atuação do Lourival como padre e militante social e político, conforme as informações constantes de texto elaborado pelo padre Julio Cesar Werlang, da Congregação dos Missionários da Sagrada Família, publicado em 23 de março de 2009 na página do IFIBE na internet. O texto referido, assim como as fotos desta e da outra crônica, me foi enviado, hoje à noite, pelo irmão de Lourival, o meu amigo Valdir Antônio Bergmann (o Alemão Valdir das histórias deste blog).

O coloninho alemão José Lourival Lourival Bergmann nasceu em 15 de dezembro de 1953, no então município de Cerro Largo, interior do Rio Grande do Sul, filho de José Leopoldo Bergmann e de Elizabeth Bergmann.

Em 23 de fevereiro de 1967 ingressou na Escola Apostólica da Sagrada Família, concluindo o ensino médio em Rio Pardo – RS, em 1973. Entre 1976 e 1977 cursou Filosofia na Universidade de Passo Fundo, fazendo seu noviciado, em 1977, em Catuípe-RS, emitindo seus primeiros votos como sacerdote nesta cidade do Noroeste do Rio Grande do Sul em 12 de fevereiro de 1978,  e cursando, nos anos seguintes, Teologia na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, a PUC. É desde esta época, em 1979, que se destaca na militância política como defensor da causa popular, como um ferrenho defensor, então, da Anistia Ampla, Geral e Irrestrita (informação de seu irmão Valdir).

Fez seus votos perpétuos como religioso na cidade de Maravilha, no Estado vizinho de Santa Catarina, sendo ordenado Diácono por Dom José Gomes em 1.º de março de 1981, na Cidade de São Carlos, no mesmo Estado do sul do Brasil. Em 20 de dezembro do mesmo ano foi ordenado Presbítero pelo bispo Dom Estanislau Kreutz (autor de alguns livros sobre as Missões dos Sete Povos e o Martírio de Roque Gonzalez), na minha dileta cidade de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande, onde moram atualmente vários de seus irmãos, inclusive o Alemão Valdir.

Lourival no Jardim

Lourival, além da tradicional formação em Filosofia e Teologia, cursou também Especialização em Psicopedagia, em Viamão, na região metropolitana da Grande Porto Alegre, e em Sociologia, na PUC mineira.

Como noviço e padre católico exerceu as seguintes funções:

- auxiliar na formação em Santo Ângelo – RS, de 1979 a 1981;
- auxiliar de Mestre de Noviciado e Vigário Paroquial em Caibi – SC em 1982 a 1983;
- Vigário da Paróquia São Carlos Borromeu em 1983;
- Reitor do Escolasticado São José e professor do Instituto de Filosofia Berthier (IFIBE), em Passo Fundo (norte do Rio Grande do Sul) de 1984 a 1990;
- De 1990 a 1992 esteve liberado pelo Regional Sul III para atuar na Pastoral da Juventude e Pastoral Vocacional;
- formador do Juniorado de Teologia na Vila Ditz, e Vigário Paroquial da Paróquia Sagrada Família, em Santo Ângelo (região missioneira gaúcha) entre fevereiro de 1992 e 1995;
- Pároco em David Canabarro (região serrana do Rio Grande do Sul) entre 1995 e 1999 e novamente Pároco da Paróquia Sagrada Família em Santo Ângelo de 1999 a 2001;
- Ecônomo Provincial (tesoureiro) em Passo Fundo, de 2001 a 2004 (época em que o conheci em Porto Alegre),  nos Missionários da Sagrada Família e no Instituto da Sagrada Família – ISAFA (entidade mantenedora do IFIBE) e, finalmente
- Pároco da Paróquia São José Operário, no Rio de Janeiro, de 2004 a 2009 (época em que estivemos juntos em Misiones, norte da Argentina, numa viagem de dois dias, no verão de 2006).

O padre Lourival foi um destacado militante religioso, social e político, ligado à causa popular e de esquerda, atuando, quando de sua presença em Passo Fundo (onde foi fundador, diretor e professor do IFIBE, lecionando nele as disciplinas de História da Filosofia Moderna e Introdução à Sociologia – 1982 a 1997), na formação de Missionários da Sagrada Família e na organização da Pastoral da Terra e Pastoral da Juventude. Foi, igualmente, um dos fundadores do Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), atuante na educação popular, há mais de vinte anos, no sul do Brasil.

Lourival junto ao Pão de Açúcar

Conforme as palavras do padre Julio Werlang, na página que serviu de base a esta crônica, “Toda esta trajetória deixa conosco um testemunho gratuito de uma vida missionária marcada pelo amor a vida, o compromisso social, uma convivência fraterna, acolhedora, agradável e alegre e uma disposição de contribuir com o avanço da Província e da Igreja na perspectiva dos pequenos, pobres e os que estão longe conforme o legado do Fundador.”

Lourival morreu dia 16 de março de 2009, às 13h 18 min, no Hospital Quinta D’or, no Rio de Janeiro. No último domingo de páscoa, 12 de abril de 2009, foi celebrada missa pela passagem do 30.º dia de seu falecimento, na localidade rural de Lajeado Bonito, no interior de Porto Lucena – RS, onde Lourival e seus irmãos passaram a infância.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 15/04/2009 at 12:04 am Comentários (2)
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“Bernardinho” (o contestador galã de quatro patas) e Eu

Não se preocupem os leitores que não se trata de uma versão doméstica, pequeno-burguesa e sem graça do romance “Marley e Eu”, que ainda não li, mesmo tendo me tornado um “cidadão ‘sério”, casado e cumpridor dos seus deveres” (sem risos, por favor).

Fique claro, também, que não é nenhuma história infantil daquelas que éramos obrigados a ler nos manuais da quarta série primária, cujo caráter ingênuo e moralista já me foi sugerido para tornar este blog mais “decente” e evitar possíveis futuras retaliações caso continue a ser um espelho da “devassidão” ontológica deste arremedo de escritor (não é nenhum erro de digitação, não, me refiro exatamente à essência do ser e não ao caráter de anedótico ou digno de registro, “antológico”, portanto).

Seja como for, um dos efeitos colaterais do casamento foi a convivência com um cachorro mestiço, branco e preto, de nome “Bernardinho”, que mede atualmente seus 57 centímetros, aproximados, de comprimento, abstraído o saltitante rabo. Medida esta pra lá de aproximada, já que só é possível determinar sua posição exatamente da mesma forma que a de um elétron no acelerador de partículas, tantas são as constantes alterações na nuvem  de probalidade decorrentes de  seus saltos e correrias.

O bicho, se não fosse tão ágil, poderia ser o “Peruca” dos cachorros, pois é coisa quase totalmente impossível encontrar outro exemplar tão aloprado neste mundo. E a menor de suas façanhas foi me acompanhar, já uma meia dúzia de vezes, por mais de um quilômetro e meio, na caminhada diária que faço de casa até o serviço, pela manhã, e ficar me esperando, por meia hora, abanando o rabo em frente às portas de vidro, até desistir e voltar sozinho para casa.

flagrante inédito do elétron em ação

flagrante inédito do elétron em ação

 

Não fosse as portas, aliás, e certamente teria problemas com a segurança, já que Bernardinho seria capaz de fazer exatamente a mesma coisa que o feixe de elétrons disparado junto a dois buracos próximos, no efeito mais sensacional da física quântica, e seria visto quicando entre ambas as entradas do dectetor de metais, enlouquecendo os guardas.

Mas numa noite destas, no final do verão, entendiado com a impossibilidade de encher a cara com os amigos por infinitas madrugadas na noite de Gravataí ou Porto Alegre, resolvi ir à loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo de casa (e que fica vizinho à quadra da casa de meu octagenário pai) comprar umas latas de cerveja, para beber em casa mesmo e irritar um pouco a minha mulher, e evidentemente fui seguido pelo nada entediado cão. Que, além de não se entediar, impede qualquer espécie de monotonia a sua volta, e foi logo tratando de fazer, na loja de conveniência, umas sisudas e circunspectas senhoras avançadas na meia idade, de ar grave e xaroposo, saírem da sua inércia e exercitarem bastante suas cordas vocais, lambendo-lhes os pés.

Não é necessário mencionar que, no caminho, exerceu também o seu esporte favorito: provocar cada cachorro, de pit bull a reles e sarnento vira-lata esquelético, e deixar em histeria todo bairro pequeno-burguês do Jardim da Figueira (que fica entre a minha casa na rua Barbosa Filho e a Avenida Dorival de Oliveira, em cuja margem se situa o tal posto) com o ladrar enfurecido dos guardas de focinho e rabo da pomposa e amedrontada classe média.

O galã Bernardinho

O galã Bernardinho

Foi na volta para casa, entretanto, já no bairro São José, no lado oposto à casa do meu pai, em plena avenida, que o meu revolucionário Bernardinho resolveu unir aos seus pendores de cachorro anarquista e  baderneiro a qualidade detestável de conquistador e mulherengo, que causou-me uma inveja infinita (que mulherengo sempre fui, mas jamais tive o charme do galã canino). 

Íamos subindo a rua Ibirapuitã, na esquina da Dorival, junto a uma sólida e pequeno-burguesa casa de pedra que abriga uma loja de roupas para noivas e debutantes, quando uma poodlezinha saída do prédio se postou em plena calçada com aquele ar de poodle patricinha e safada (praticamente uma “putelzinha”) e ficou nos olhando e balançando, insinuante, o rabo.

Eu, que ando há meses um tanto afastado da putaria, em razão da coleira matrimonial, vendo a cachorrinha naquele estilo, tratei logo de alertar o meu companheiro de quatro patas, que até então não tinha o infortúnio de usar coleira (pois tive de providenciar, ultimamente, uma para evitar atropelamento ou seqüestro do maluco em suas investidas no asfalto), e lhe avisei: “ô Bernardinho, olha ali uma namoradinha pra ti”. O bicho safado não moveu, surpreendemente, um milímetro, mas a fogosa poodlezinha tratou de caminhar até ele e encostar, entusiasmada, os focinhos, o que não durou muito pois logo a cachorrada playboy, metida e arrogante da tal casa, partiu para o protesto, acoando fortemente, e correu o casal peludo para o outro lado da esquina.

fugindo do perigo

fugindo do perigo

Tratei de trazer o meu intrépido cachorro cadeleiro à ordem, chamando-o de volta ao caminho de casa, e a cachorra da poodlezinha branca, fatal e cretina, correu à sua frente, se refugiando de volta no pátio da casa de pedra. Foi aí que o meu clone de quatro patas quase perdeu o pescoço, pois foi se enfiando portão de grade abaixo, atrás da “putelzinha”, e, não mandasse às favas a sua revolucionária valentia de bravata, teria sido trucidado pela malta de meia-dúzia de pit buls e buldogues. Mas, como todo bom Don Juan “vermelho” e irreverente, diante do perigo iminente, Bernardinho esqueceu seus pendores de provocador verbal e tratou logo de disparar correndo atrás de mim.

Ubirajara Passos

Bernardinho e Totó de porre

Bernardinho e Totó de porre

 

 

 

Publicado em: on 07/04/2009 at 11:30 pm Deixe um comentário