DA MANSIDÃO E O EXERCÍCIO DO DOMÍNIO

Não há imagem mais representativa da meiguice do que um gato siamês ronronando, enroscado no seu colo. Mas lhe dê um forte beliscão e verá do que é capaz a fera em que se transformará a “doçura”! Entretanto, ao menos que tenha se tornado neurótico, devido ao convívio humano, o bichano jamais será visto mordendo ou arranhando alguém sem que tenha sido agredido, esteja em situação de perigo ou caçando a presa de que necessita para se alimentar (e aí, azar é do rato!).

A mais pura das verdades é que a agressividade é uma disposição de espírito plenamente natural e normal, desenvolvida ao longo da evolução natural, justamente com o intuito de preservar nossa vida e integridade física.

Entretanto, vivemos em uma sociedade onde a menor manifestação de desagrado, discordância, crítica e oposição a qualquer coisa ou a outrem são interpretados como um grave crime que deve ser punido com toda severidade. Especialmente se, no caso da agressividade verbal, esta não estiver revestida da hipocrisia sofisticada da linguagem polida (uma coisa é bradar “seu mentiroso” e outra afirmar, suavemente, “o senhor está faltando com a verdade”) e se manifestar na plenitude saudável da espontaneidade (não há coisa mais imperdoável para a ideologia do “bom comportamento” do que um sonoro e explosivo “vai tomar no cu” ou “vai à puta que pariu” – que, coitada não tem nada a ver com o caso).

Basta mesmo que o tom de voz se eleve algumas oitavas, ao defendermos um ponto de vista lógico, com convicção, diante de um interlocutor, para que caiam sobre nós as maiores reprimendas, dignas do mais odiado assassino apontado pela mídia!

O que normalmente é esperado (e está introjetado na mente da grande maioria dominada) é que sejamos mais dóceis e “obedientes” que o gato siamês! Não é por acaso que a ideologia que forjou a mentalidade profunda do Ocidente (o Cristianismo) recomenda nas palavras de seu “fundador” que se ofereça a outra face, caso levemos um tapão no rosto. E menos ainda é casual que, no primeiro livro da Bíblia (o Genêsis), o “pecado original” cometido pelo primeiro homem (cuja culpa teríamos herdado) seja a “desobediência”.

E o que ninguém se dá por conta é que a repressão da agressividade, e o louvor à mansidão, é justamente um dos pilares necessários à dominação dos que desfrutam o produto do suor de nosso trabalho! A primeira condição para que alguém se deixe escravizar, e para que se mantenha, sem qualquer risco, o sistema que permite aos parasitas dominadores uma vida de requintado e permanente ócio, é a disposição de conformismo dos dominados (pois o simples medo ainda resguarda uma possibilidade de reação).

Somente nos transformando em bem “educadas” ovelhas cumpridoras do “dever”, atormentadas pela culpa de qualquer transgressão às regras impostas, e obcecadas com a própria “compostura”, é que nossos donos podem usufruir seus privilégios à custa do rebanho humano, e exercer sua índole sádica sobre nossos lombos! Sem a colaboração do nosso conformismo e do nosso empenho em vigiar e reprimir os companheiros próximos que ousem não submeter-se (“a desobediência”) seria impossível a existência da exploração e da sociedade de classes!

E esse amestramento só se manteve, milênios a fora, na medida em que assimilamos e reproduzimos, geração após geração, a noção de que a agressividade não só é reprovável, mas doentia (o que nos faz padecer o auto-flagelo mental cada vez em que desejamos ser “rebeldes” e “mal-educados” frente aos senhores, seus chefetes, e a ordem vigente).

Quando, na verdade, nos tornamos animais pela metade, enfermos da auto-violentação, da interdição de um mais naturais e benfazejos instintos, sem cuja manifestação permitimos que nos seja impingida o permanente ataque ao nosso ser (mente e organismo) em prol da sacanagem refinada de uns poucos patrões e altos puxa-sacos de todo quilate (os chefes e chefetes pequeno-burgueses encarregados da função de feitores de escravos, delicadamente designada “gerência”).

Ubirajara Passos

DA CERTEZA METAFÍSICA DOS SENTIMENTOS

Vivemos em mundo dominado pela supremacia e infalibilidade do racionalismo formal, da lógica distintiva (e, portanto, o mais matemática, no sentido euclidiano e hermético, possível), que se amoldam perfeitamente às necessidades da produção e manutenção de máquinas e sistemas mecânicos e automatizados (e, conseqüentemente aos interesses dos dominadores), mas em nada atende à nossa natureza de seres sensíveis, surgidos da evolução de simples moléculas de carbono que um dia resolveram transgredir a velha inércia e aprenderam a se duplicar, a partir de reações com o meio circundante. Aliás, se nos aprofundarmos até o nível das partículas quânticas (os menores constituintes das partículas sub-atômicas, que se ora se comportam como matéria, ora como onda), tudo que encontraremos de certo é uma espécie de vontade expontânea e indeterminada, formando com as demais tudo quanto há no universo.

A mentalidade não-verbalizada, mas subjacente no quotidiano, pensamentos e decisões do menos adestrado na “cultura formal” de nós é de que a lógica consciente e organizada por princípios e operações materiais tipicamente algébricos (verdadeiras equações “qualitativas”) é absoluta e, a única ferramenta mental capaz de produzir conhecimento válido. A própria noção de “verdade” (embora assim não o deva supor necessariamente a razão matemática) aparece como o resultado mecânico de aferições “científicas” universais, inquestionáveis e acima dos raciocínios particulares de cada ser pensante.

As demais formas de consciência e conhecimento, como a intuição, a “ciência” empírica derivada da experiência subjetiva integrada ao longo de gerações (como a medicina fitoterápica tradicional, herdada da prática ancestral, a “meterologia caipira”, os sistemas filosóficos e cosmogônicos orientais) são relegadas à categoria de curiosidades “primitivas”, quando não totalmente invalidadas .

Nos embasbacamos, e celebramos na nossa escravidão mental auto-impingida, com o produto da ciência especializada (hermética para maioria) e matematizada, mas não percebemos o quanto nos tornamos, nas mãos dos donos que dominam não apenas a tecnologia do produzir e desvendar, mas principalmente a de nos induzir a tanto, meras peças da engrenagem automatizada (“mecanizada” seria um termo por demais desatualizado na civilização da informática onipresente) no jogo que produz a vadiagem e o luxo refinado e sádico dos patrões!

Não é casual que a expressão “cálculo” (e seu operador, o “calculista”) seja sinônimo de ação e reação “precavida”, propositalmente pensada para atingir os próprios interesses através da manipulação da crença alheia. O que exclui, como “prejudicial” e contrário à nossa sobrevivência, no mundo da competição, a manifestação autêntica e saudável das nossas emoções mais profundas e genuínas (os sentimentos).

No entanto, muito maior do que nossa capacidade intelectiva (desenvolvida ao longo de centenas de gerações desde o primeiro primata que se soube diferente do resto do mundo e teve consciência da própria existência e condição mortal) – que muitas vezes nos atira ao mar da perplexidade diante da vida concreta – são os sentimentos os mais genuínos faróis dos rumos que devemos seguir em nossas vidas.

Se é que há algo inquestionável sobre a face da Terra (o que é muito duvidoso) são as emoções vindas do âmago inconsciente de nossos cérebros e da memória, não condicionada propositalmente, de nossas células.

Quando nossas intuições e reações puramente emocionais (interações físicas e químicas internas do corpo frente às sensações e à consciência dos fatos externos) gritam de forma candente, ainda que inverbalizada e, muitas vezes, contrárias ao mais livre dos nossos raciocínios, poderemos até nos estrepar seguindo-as, porém, em noventa e nove por cento das vezes elas representam o que há de mais legítimo e benfazejo a nós, animais dotados da capacidade auto-organizativa tornada consciente. Mas sobretudo feitos de pura energia imanente, presente em cada par de genes da dupla hélice de DNA , desenvolvida e sofisticada ao longo de milhões de anos, não de forma ossificada e inalterável, porém, treinada nas mais diversas e infinitas circunstâncias, segundo o caráter de cada uma delas, e, por não estar sujeita à censura das ideologias alheias, capaz de reagir a cada novo fato sem o apego a velhas formas pré-organizadas.

A mente humana é muito maior do que os simples silogismos e estes são apenas a forma sistematizada de percepções e diálogos internos, em que interagem desde os sentidos comuns do corpo até os padrões emocionais e de concepções mais básicos ou decorrentes da atividade psíquica deliberada.

Não somos meras máquinas de raciocínio (caso em que um super-computador seria bem mais eficiente), nem simples organismos de sentir, sem nenhuma capacidade de elaboração e combinação de realidades concretas e fantasias (caso em que um asno no suplantaria). Mais do que aos questionamentos mais profundos e livres, portanto, dê poder à sua imaginação!

Ubirajara Passos

O CHAMADO DO DEMÔNIO

Embora tenha publicado neste blog todos os “sermões na igreja de satanás” até agora escritos, deixei de fora a introdução do livro, que não só lhe dará um panorama como é, a moda do poema do primeiro post publicado, uma profissão de fé do meu pensamento. Aí vai, portanto, em comemoração ao centésimo post, publicado ontem, o texto. Divirtam-se.

Eis que, um belo dia, Aníbal ouviu o chamado do Diabo e este lhe disse: “Vai, meu filhinho, por aí, e prega aos teus irmãozinhos a verdadeira religião – a da liberdade. Pois eis que estão muito assoberbados por regras, obrigações e temores e quanto mais ouvem seus padres e pastores e bons revolucionários institucionalizados (ah, como é bom sonhar com a revolução na fofa cadeira de um gabinete na Câmara dos Deputados!), tanto mais se enchem de culpa (culpa até de viver) e se condenam a si próprios à danação eterna, de tal forma que o meu Inferno está inflacionado de condenados e já não há verba no orçamento para manter acesa a fogueira!

“Devolve-os à pura e santa verdade de que o sublime é a existência livre, malcriada e desobediente, mas cheia de prazer e sem o fardo de viver e trabalhar, de madrugada a madrugada, como bicho (ainda que bicho sofisticado), para gandaia dos patrões e dominadores, esquecendo de si mesmos.

“Que o sexo desvinculado da procriação e das pulsões econômicas é um dos mais refinados e profundos prazeres desta vida.

“Que a própria condição mortal e a diária necessidade de sobrevivência já são sofrimentos e “punições” suficientes para lhes azedar bem a vida e que, portanto, deixem de bater no próprio peito e recitar o mea culpa (antes usem a mão pra bater uma punheta) e reservem aos seus hipócritas gurus, “líderes sábios” e pastores as penas do inferno, que as merecem pelo supremo pecado de injetar boca a baixo da humanidade a ladainha moralista e falsa que exige aos homens mil deveres em troca de pó, enquanto engordam os seus fofos bolsos e satisfazem sua vaidade de dominação!”

E Aníbal, transfigurado nas infernais chamas do Capeta, viu a luz e, por ser mais fácil e atender à sua preguiça, ao invés de sair de porta em porta a pregar e virar mundo, alugou um belo salão na periferia de uma metrópole do extremo sul do Brasil e pôs-se a pregar! Eis aqui a coleção dos seus sermões mais memoráveis.

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 08/01/2007 at 10:34 pm Comentários (9)

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM

Transcrevo abaixo mais um dos “Sermões na Igreja de Satanás” (completando com ele o total de sermões até o momento redigidos):

DAS VIRTUDES DA VADIAGEM

Não fôssemos animais infelicitados por um cérebro capaz de ir muito além do conhecimento imediato e imergir nos mais refinados recantos do univero da possibilidade e da emoção, e o trabalho poderia justificar-se como uma “razão de viver” e não a tortura inevitável que a necessidade física da sobrevivência, e da existência em um mundo feito de matéria, nos impõe. Muito ao contrário da pregação hipócrita de seus maiores defensores (bons burgueses seríssimos, de veias túrgidas de gordura, que construíram suas vidas no árduo e austero “trabalho” de amealhar fortuna à custa do trabalho alheio, ou recalcados líderes de “esquerda”, contaminados pelo moralismo das sacristias), o embrutecedor e massacrante labor nada possui de virtuoso, dignificante ou realizador! É antes um entrave a seres forjados, pela condição que lhes deu a evolução biológica, para o prazer e a aventura e não para a insípida e tediosa rotina de autômatos de carne e osso.

Seja, porém, pela necessidade de fugir ao suplício da faina diária e recuperar, ainda que abstardado, o paraíso do prazer (só alcançável no mais genuíno e absoluto ócio), seja pelo deleite especial que lhes proporciona o exercício do sadismo, os mais aguerridos e astutos dentre nós arrojaram-nos, historicamente, a obrigação de não apenas mourejar contínua e dolorosamente por nossa própria vida, mas também pela deles, sob cuja prioridade passamos a existir.

Não bastasse, portanto, o séquito natural de incômodos decorrentes da atividade necessária, rotineira e, intelectual e emocionalmente, limitada e aborrecida (como o afã doméstico) que nos inflige a nossa própria condição mortal individual, o advento da dominação (na forma das correntes físicas da escravidão ou institucionais e ideológicas da servidão e do emprego) transformou o que era um purgatório inarredável no mais completo e exasperante inferno! Se o trabalho “livre” guarda ainda alguma possibilidade de prazer, conforme a solicitação intelectual e estética nele envolvida (um artesão de marcenaria ou oleiro poderá apaixonar-se pelas “obras de arte” que produz no seu torno), o exercido sob as patas do patrão elimina qualquer possibilidade de manifestação autêntica da personalidade e acaba por condicionar todo o restante de nossas vidas.

O mais dramático, no entanto, não é o embrutecimento inevitável presente na lida, mas o fato de que, não trabalhando, colocamos em risco a nossa própria sobrevivência física. Deitar-se permanentemente à rede, meditando sob os insondáveis desígnios e mistérios da alma humana e da vida, e apreciar o instigante desfile da luz, da brisa e do luar, pode se constituir num convite certo à morte… ao menos que pertençamos à classe daqueles que obrigam os demais a não um único momento para contemplar o encanto de quadris bamboleantges, absortos na severa “diversão” de se esbodegar pelo patrão.

É este caráter categoricamente indispensável do trabalho que cria a possibilidade (mesmo numa sociedade em que a tecnologia avançadíssima poderia nos aproximar a todos do Éden – reduzindo ao mínimo necessário o tempo e a natureza penosa da ocupação) de submetermo-nos à incessante rotina de humihação, cansaço, imbelecilidade e obediência cega e reverente diante dos mais vaidosos e burros feitores que executam a vontade dos nossos “senhores”.

A divisão do trabalho, o irracionalismo “lógico” da produção em série, ou a “necessidade” de atendimento eficaz e célere das demandas de serviços, nos transformam em zumbis, mais inconscientes do que as próprias máquinas operadas ou as rotinas formais dos procedimentos de escritório. Mas, muito além da inerente despersonalização pofr eles imposta, é a disciplina, fria e regulamentadora, da”ética laboral” a causa mais profunda, e onipresente nos vários ramos da atividade humana considerada “útil”, das tormentas na luta pelo pão que o diabo (ou Deus) amassou de cada dia.

Não há maior infelicidade para um ser pensante e sensível do que, além de ter negado o prazer e o mínimo de condições materiais de existência em nome do luxo e do capricho alheio, ser submetido, durante a maior parte de sua vida desperta, a atuar não segundo as inspirações e motivações da inteligência e da emoção próprias, mas ter de jungir-se à formalidade e à vigilâncias contínuas de regras o mais da vezes irracionais e profundamente impregnadas do maior carrancismo e moralismo autoritário, digno dos mais inverterados mestres-escolas, de palmatória em punho, dos tempos dos nossos avós.

Se a exigência de “bom comportamento” e austera seriedade está presente, ainda que oculta sob a tênue capa da tolerância “informal” da modernidade, em cada instância de nossas vidas (do trânsito ao leito, passando pela escola e até pelo bordel) é no trabalho que ela, pela necessidade de submissão total que a dominação pressupõe, atinge o seu ápice

O desconforto, o sofrimento físico e psicológico do homem transmutado em coisa, aferrado a ações automáticas, repetitivas (e, portanto, cansativas), fasditiosas e obnubilantes não são apenas uma conseqüência lógica das modernas formas e “imperativos” da produção, num mundo de complexidade tecnológica crescente, mas um componente ideológico necessário ao exercício do domínio. Não é possível obrigar um indivíduo a todo este sacrifício e degradação voluntários, senão imbuindo-lhe até a menor molécula do senso absurdo de auto-imolação, do dever de “ser útil” ou, pelo menos, do temor (reforçado pelo comportamento delatório e oportunista dos demais membros do rebanho) da autoridade e suas imposições de estrita e sisuda dedicação ao serviço (um cigarro ou uma gargalhada são um tempo “subtraído” imoralmente ao amo que alugou-lhe os braços ou a mente, assim como a menor satisfação pode trazer à tona o desejo de jogo, prazer e liberdade sepultados).

A exploração e domínio carecem da sujeição do animal humano a cangas, encilhas e bretes tão violentadores, que esta se faz, forçosamente, presente não apenas no espaço exclusivo do lavor, sob p0ena de se esfacelar. Assim, a alimentação, o sexo, o lazer (a vadiagem institucionalizada), os mínimos momentos, peripécias e detalhes que formam o estofo dos nosso dias passam, imperceptivelmente, a ter “horários”, conteúdo, e mesmo formas de exercício, regrados e definidos não segundo as necessidades biológicas naturais ou as inspirações emocionais e decisões do nosso arbítrio individual, mas conforme as contingências do lucro que propicia a vida faustosa e sem sobressaltos de nossos amos.

Outro não é o cenário no qual o que sobra das horas dedicadas aos afazeres mal se presta às rotineiras atividades necessárias à manutenção da existência do rebanho de trabalhadores. Se examinarmos atentamente o tempo “livre” de que dispomos, constataremos que (quando o parco salário nos permite e a fadiga da jornada não nos converte em abúlicos adoradores dos deuses eletrônicos – rádio e televisão) nele nos resta uma atabalhoada luta contra o tempo limitado, destinado às compras, ao estudo, ao cumprimento protocolar e frio dos papéis familiares e sociais e, quando muito, ao divertimento insulso dos fins-de-semana periódicos. Uma existência mecanizada, em que se destina um tempo e um local obrigatórios para cada atividade, ainda que em flagrante contradição com as condições emocionais ou físicas do momento. Em que os sentimentos e interesses mais caros e profundos não podem, nem devem, segundo a ética vigente, manifestar-se a qualquer instante, mas subordinam-se e são sacrificados aos sagrados reclamos do trabalho. A própria folga da trabalhadora grávida, sob o título de licença-maternidade, caracteriza-se como uma exceção que a produção econômica, assumindo a primazia, concede à natureza para continuar a perpetuar a vida!

Não é, entretanto, por não haver fuga possível (sem prejuízo da vida ou de mínimo de dignidade humana) ao trabalho, que devemos nos sujeitar ao controle inelutável e doloroso da atividade assalariada, nem à interdição constante, em seu nome, dos deleites proporcionáveis por nossos corpos, emoções e intelecto. Não é, em suma, por ser um mal necessário, que devemos organizar, e permitir que organizem, nossas vidas no interesse do trabalho, ao invés de trabalhar, o mínimo necessário e com a máxima liberdade e satisifação própria de seres dotados de razão e sensibilidade, para vivermos de forma válida e agradável.

Ubirajara Passos

DAS VANTAGENS DA IGNORÂNCIA

Mais um porre, mais um texto antigo que, talvez, seja tão atual quanto o anterior. Peço a devida paciência aos leitores. Por enquanto me aturem com mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DAS VANTAGENS DA IGNORÂNCIA

Num mundo em que a maioria dos indivíduos vive imersa na mórbida necessidade de se esforçar o máximo possível para ser um bom membro do rebanho e agradar seu dono, a consciência do que realmente fazemos de nossas vidas, a capacidade de questionamento e o amor da liberdade são nefastos à tranqüilidade e bem-estar emocional da desventurada criatura que for por eles tocada.

O imbecil vítima de tal desgraça padecerá, enquanto a menor fibra de seu ser agitar-se viva, o drama da solidão e da incompreensão de seus companheiros ante a sua mania de “complicar a vida” e querer subverter a “ordem natural das coisas” em nome de verdades que – admita-se – podem atingir o cerne dos incômodos de suas vidas bovinas, “mas não trazem vantagem nenhuma a ninguém”!

O gado humano, devidamente amestrado, desde a mais tenra idade, ao servilismo, poderá revoltar-se contra a miséria material em que vive, mas tão arraigado está em sua alma o temor do caos e o culto da disciplina , que sua pobreza lhe parecerá, no máximo, o resultado de sua condição natural ou, quando muito, da sua falência (ou incapacidade) pessoal. Para o comum dos indivíduos, se o proprietário da fábrica, do campo, do escritório detém o poder – porque, afinal, é proprietário – de dispor as coisas segundo o interesse “próprio” (mesmo que disso resulte a frustração até das mais básicas necessidades biológicas de seus empregados – ou antes “utilizados” – ferramentas sem nome e sem vontade) é porque seus méritos – que ninguém sabe quais são ou donde vieram – o permitem. De tal forma que, assim supõe, não se deve rebelar contra o domínio destes “virtuosos senhores” (ainda que a sua virtude seja a vigarice), pois, como tais, são eles os fiadores da “ordem”: sem a imponente autoridade destes grandes pais o mundo se obumbraria na desorganização mortal e fatídica.

Quem quer lhes atire à face a atroz exploração de que são vítimas e, o que é pior, o fato de serem os maiores responsáveis por ela, amargará a pior repressão histérica por ferir seus brios de otários orgulhosos e tentar mudar um mundo que, segundo pensam, está estruturado desde sempre para evitar que a “libertinagem assassina” coloque em risco a própria vida de cada um. Os donos podem ficar com o grosso da riqueza produzida, podem ser petulantes e sádicos, mas a sua suserania é, na visão do ignorante, necessária: sem a disciplina, a moral, e a representação viva que delas se faz no padre (ou pai…), no pastor, no político, no juiz… o mundo submergiria num mar de sangue e de luxúria! “E se cada um pensar por si, der vazão às suas inclinações sem freios, fatalmente ruirá na violência selvagem toda a humanidade”.

Enfim, o quadro de dominação e coisificação em que vivemos há milênios pode ser cruel, pode ser o responsável pelos nossos mais íntimos desgostos, mas parecerá, ainda assim, para o ignorante, o melhor dos mundos possíveis, uma vez que tem inculcada em si a imagem de que a liberdade, pela falta de direção absoluta que supõe, é obrigatoriamente a condição da qual derivaria a fantasiosa destruição de tudo. Para ele, o poder, com todo seu cortejo irracional de imposições infelicitantes, é, ainda assim, a garantia de um bem-estar e uma segurança precários, mas reconfortantes.

Tamanho é o grau de tortura, de envilecimento a que é submetido, desde os primeiros instantes fora do útero materno, pelo mundo da imposição (aceita sem dúvidas: pode ficar perplexo eventualmente, mas, se olhar para seus parceiros de desgraça, tudo o que verá será, como ele, ovelhas amedrontadas) que, doentiamente, tudo o que lhe propiciar um mínimo de imutabilidade lhe parecerá bom. Diante do que se lhe afigura como as excêntricas exigências dos amos de seus avós, um explorador que lhe permita uma vida miserável, mas estável, será um benfeitor.

Assim, o confronto com a incerteza, decorrente da descoberta de que vive em anestesia, o tornará infeliz! O indivíduo submetido às piores sevícias físicas se julgará feliz se estiver devidamente dopado. Mas se lhe retire a morfina benfazeja e se retorcerá de dor. Tal é a natureza da grandissíssima maioria de nós: eliminada a anestesia moral, poderia saltar, fulminante, sobre o seu algoz, mas, à menor dor decorrente de sua privação, chora, berra e suplica por mais morfina!

Ubirajara Passos

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

Nestes dias de desilução pós-eleição, em que nos resta, pelo caminho da política formal e institucional, escolher entre os canastrões da direita tradicional (os “Geraldos” da vida) e os fascistas vermelhos enrustidos (Inácio e seus corruptos amestrados), cai bem uma reflexão mais geral sobre as formas políticas de transformação do mundo (ainda que tenhamos de estar atentos para evitar o prejuízo maior de dar mais um mandato ao fascismo).

Assim, para desenfado dos leitores, enquanto concerto o meu “aparelho de pensar” (que está se recuperando de uma farra regada à cerveja praticada ontem), lá vai um dos primeiros “SERMÕES NA IGREJA DE SATANÁS”, parido originalmente sem o plano de ser um sermão (4 anos antes d’O Falatório Histérico em Política) e que adaptei após ter escrito os três primeiros

DA ESSÊNCIA CULTURAL DA REVOLUÇÃO

O Socialismo, o Projeto Revolucionário de Emancipação da Humanidade, deve levar, muito mais do que ao estabelecimento de uma realidade material igualitária, justa e digna da condição humana, à possibilidade de que a vida de cada homem seja uma aventura plena de encanto, de jogo, prazer e liberdade. Muito além, portanto, do utilitarismo economicista e do frio racionalismo do finalismo universal.

Assim, o livre pensamento, o questionamento, a postura do homem em encarar-se como válido em si mesmo são uma pré-condição do projeto revolucionário. O mental e o material se condicionam mutuamente e a emancipação econômica dos trabalhadores, da maioria da sociedade, será uma mera conseqüência de sua autoconscientização, da rebeldia e desafio às regras que lhes são externamente impostas.

Não será operando nos moldes tradicionais, na disciplina absoluta e obrigatória, na autoviolentação diária dos indivíduos que se alcançará uma realidade de plena liberdade, de consciência e realização do homem. O “dever” é uma invenção autoritária e destroçante da intuição e espontaneidade humanas, plasmada por aqueles que julgam-se “no direito” de impor sua vontade sem limites aos demais, em benefício dos seus exclusivos apetites materiais e totalitários.

O mal da praga que são as sociedades de classe, das sociedades exploratórias de todo tipo (capitalistas, feudais ou escravistas), ao contrário do apregoado por um certo “socialismo” vulgar, superficial e hipócrita defendido por pretensos setores políticos de esquerda, não está no “individualismo”, mas num esquema concreto de relações que só permite a plena realização individual – mesmo assim limitada por regras externas preconceituosas e heterônomas – a alguns indivíduos, barrando este caminho aos demais.

O altruísmo cristão extremado, por sua vez, tanto pode justificar uma sociedade solidária, justa e igualitária, quanto servir de suporte à entrega da maioria dos indivíduos – na condição de sacrificados voluntários – aos apetites de poucos, como “servos” convictos.

Não estamos no mundo “para servir uns aos outros” merda nenhuma!

Primeiro porque não há regra, forjada em uma instância abstrata qualquer acima dos homens, que possa determinar-nos a finalidade de nossas vidas. Cabe a cada um de nós construir, na interação com os demais, nossa realidade.

Segundo porque o homem, essa consciência concreta, só pode se realizar em si mesmo. Não sucedendo daí que a realização, a “felicidade” (para usar um termo universalmente compreendido) de uns possa, legitimamente, se fazer sobre o sacrifício da dos demais – o que é válido não somente no campo econômico, mas em todas as áreas da vida e das relações entre os homens.

A condição para o exercício desta violência, para a exploração dos trabalhadores, não está, porém, determinantemente na vontade do explorador, mas no consentimento semiconsciente do explorado.

O que constitui realmente a “propriedade” (uma abstração jurídica, uma regra de coexistência socialmente aceita) em elemento determinante do poder, da “dominação” de uma classe sobre a outra, senão a transformação em realidade concreta, mediante a submissão inquestionada, desta ficção de que alguém possa ser “dono” do trabalho alheio e dos bens materiais por outrem produzidos e, como tal, determinar as condições deste trabalho e da distribuição e gozo de seus frutos porque “tem direito”?

Nem mesmo a força física da minoria privilegiada tem condições de se impor efetivamente sobre a maioria explorada (pois esta, como tal, suplantaria qualquer tentativa de constrangimento) sem o seu consentimento.

A condição para a libertação da humanidade está, portanto, na conscientização (entendida como processo de autoconstrução de visão de mundo, de realidade mental individual), no questionamento, no exercício radical da liberdade pela maioria dos indivíduos.

Liberdade, consciência, questionamento, o auto-dispor de cada um sobre a “sua” vida, eis o “o princípio, o fim e o meio” da emancipação filosófica e política da humanidade. O prazer, o jogo, a realização lúdica da riqueza interior e multifacetária do Homem será sua conseqüência.

Quem disse que só o drama e o sofrimento dão graça, sal e cor à existência?

Ubirajara Passos

OBRIGAÇÃO DE SER FELIZ

Quero agradecer aos comentários postados ontem pelo meu irmão de fé e cachaça, o Nego Dantas do Sindjus-RS, da periferia porto-alegrense e dos incríveis butecos do Mercado Público (quem não conhece o mercado, gaúcho ou não, não sabe o que está perdendo). Muito me emocionaram e me convenceram que o companheiro Jorge Dantas tem bom potencial pra escrever. Basta seguir a sua receita para a vida: dizer as coisas com emoção e tesão, da forma como vêm das entranhas, grávidas de vida e disposição de luta. Escrevo apenas o que a vida me ensinou. Antes eu precisava de mil sistemas e teorias para justificar a existência humana. Hoje sei que a maior ventura é apenas viver, buscar e gozar de prazer e liberdade e, sobretudo, não permitir que nos usem e escravizem impunemente. Em homenagem a tão ilustre admirador segue mais um “sermão na Igreja de Satanás:

Da Obrigação de ser Feliz

Mais infausta ainda que a “infelicidade” objetiva é a felicidade obrigatória e pré-concebida do breviário revolucionário organizado (os partidos e grupos políticos “socialistas” institucionalizados – com autorização, ou alvará de funcionamento – da democracia burguesa ocidental ou do fascismo de esquerda remanescente).

Enquanto o infeliz (no sentido banal e aceito do termo) pode viver seu tormento, e identificar-se como tal, exclusivamente pela noção subjetiva de sua situação (derivada, muitas vezes, dos ideais de felicidade introjetados dos catecismos religiosos, doutrinário-filosóficos, e das prescrições implícitas da moda ou mídia burguesas), o indivíduo submetido aos reclamos iluminados e intelectualóides dos modernos profetas redentores (os ideólogos do bem-estar e conforto produzido em série) estará tanto mais afastado do prazer genuíno e benfazejo, quanto mais se esforçar em atender-lhes as exigências e padrões impostos.

Além de estar fatalmente condenado à desgraça, não terá qualquer oportunidade de alcançar o “paraíso” justamente por tê-lo congelado e normatizado dentro de si. Sua tão almejada ventura, na medida em que corresponder aos planos alheios, abstrusos e “objetivos” dos messias da “salvação” proletária, estará reduzida à frieza dos silogismos e “padrões” pré-determinados, que podem ter toda intimidade com critérios matemáticos e abstratos de excelência e insuficiência, à semelhança dos parâmetros de classificação de um cão ou gato de exposição, mas nada em comum possuem com a realidade e necessidades efetivas de seres feitos de carne e osso, com emoções e percepções próprias, cuja validade se justifique na sua íntima experiência e não em planos etéreos e cartilhas “deduzidas lógica e objetivamente”.

O ideal religioso, explicitamente autoritário e opressor, da salvação da alma justificava a submissão, e o conseqüente sofrimento, da maioria coisificada sob o argumento implacável do julgamento divino – que premiaria ou condenaria os indivíduos em uma pretensa vida futura, conforme estes se resignassem ou não à dominação e à “morte em vida” . Já o imaginário laico da “felicidade coletiva” (mesmo nos raros casos em que não está a serviço do domínio e da exploração velada, típica do fascismo “vermelho”) encobre o desejo de domínio absoluto sobre os mínimos detalhes da vida alheia sob o argumento do altruísmo de seus gurus.

Os “apóstolos” agnósticos da revolução autoritária (que hoje são, em sua maioria, inofensivos e devotados “socialistas democráticos” – e não “comunistas totalitários”) não pretendem manter as multidões oprimidas acorrentadas à uma existência inexoravelmente degradante, sob a desculpa da determinação extra-humana de deuses e princípios. Ao contrário, proclamam, aos brados histéricos e altissonantes, sua total devoção à “felicidade” humana! E, para que ela seja plena e infalivelmente assegurada, planejam, na solidão e aridez de seus gabinetes (modernos ermitões ateus), cada atitude e condição íntima do quotidiano de seus “beneficiários” para que estes não “se percam do reto caminho” rumo à realização programada.

Querem ardentemente um paraíso na Terra, e não num falso Além, mas um “paraíso” não “caótico” e “anárquico” (sujeito ao ao arbítrio das suscetibilidades individuais) que ponha em risco a perfeição de seu programa; um “paraíso” racional e “responsavelmente” determinado por suas brilhantes mentes, longe do qual não há qualquer possibilidade de “realização do ser humano”. Assim, como caudatários racionalistas do velho totalitarismo da sociedade de classes (“purificado” de irracionais e “preconceituosos” ideários monárquicos, religiosos e metafísicos) os nossos novos salvadores da humanidade “mensurarão” a “felicidade” de povos e grupos segundo índices “objetivos” de “desenvolvimento humano” – tais como o percentual de alfabetização, mortalidade infantil ou a “renda per capta” de determinada sociedade – e providenciarão para que seus “governados” se encaixem nas melhores estatísticas fixadas, pouco lhes importando o íntimo grau de satisfação e liberdade dos milhares e milhões de pessoas a eles submetidos.

Para nossos beneméritos novos “pais da humanidade” o acesso às mínimas condições materiais (como energia elétrica e água encanada) e culturais (o domínio do be-a-bá e da matemática), ou a “regalia” de possuir na residência um moderno aparelho de DVD, justificam a servidão humana, seja através da escravidão assalariada capitalista, ou – na melhor e mais remota das hipóteses – de um socialismo “coletivista” onde cada um, mesmo garantido o maior e mais justo bem-estar a todos, esteja submetido a interdições e prescrições de pensamento e comportamento. Esteja jungido a modos de sentir, raciocinar, gozar e agir pré-determinados e heterônomos – sem qualquer direito ao questionamento e originalidade na construção de sua biografia – sob a pretensa “necessidade” inapelável de regramento da vida (cerceamento e “fossilização” de todo movimento mental e emocional expontâneo) para a mais perfeita “harmonia” e “felicidade dos homens”.

Estas normas se apresentam como a encarnação mais perfeita e irrefutável da lógica, totalmente alheias a crenças e preconceitos irracionais. Mas sua pretensa raiz científica e especializada é justamente a face visível de seu estranhamento do raciocínio livre e isento de arbitrariedades derivadas da vontade de domínio.

Tal utopia de felicidade outorgada pretende validar o jugo de nossas vidas ao conhecimento de Psicologias, Sociologias, Economias, Éticas etc. gestadas segundo o ponto de vista totalitário e “não-envolvido” de seus “iniciados”, mas sem qualquer intimidade e participação efetiva de nossas emoções, percepções e pensamentos individuais. Sua transformação em realidade nos reserva a alegre e espetacular condição de autômatos infalivelmente programados.

Ubirajara Passos

DA REBELDIA SAGRADA

Mil perdões aos leitores pela preguiça dos últimos dois dias. Logo em breve estarei publicando uma série de crônicas, contos e comentários sobre o Luís Inácio (Lulinha, “o eruditchio”) e mais algumas “safadezas”. Por enquanto, saboreiem mais um ”SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”:

DA REBELDIA SAGRADA

A liberdade, a autonomia de pensamento e ação, a consciência (tanto a derivada da reflexão racional, quanto a verbalização dos sentimentos e emoções mais autênticos e profundos) não nos garantem o prazer, a ausência da dor e a felicidade. Mas sem elas não há qualquer possibilidade!

Quando os acontecimentos e questões que nos dizem respeito são decididos por qualquer outro que não nós mesmos, ou porque qualquer instituição na qual não temos a menor ingerência prática (ou agimos sob tais influências), a única certeza que podemos ter é de que viveremos segundo as inspirações, humores, apetites e interesses alheios e que, salvo um imponderável lance de sorte, 99,99% das vezes estes não coincidirão com os nossos e não levarão a outro caminho que o da infelicidade e do sofrimento.

Nem mesmo o mais desinteressado amor de mãe poderá nos conduzir ao conforto ou ao deleite de uma vida válida e instigante se impuser os seus critérios e sonhos ao nosso roteiro pessoal, pelo simples fato de que eles são o produto de suas vivências e não possuem qualquer intimidade com os nossos processos subjetivos de sentir e pensar, por mais universais que possam ser!

Infelizmente, embora a experiência incontestável demonstre uma unidade nos modos de raciocínio e conhecimento imediato, comum a todos os seres humanos, pela mera contingência de sermos criaturas individuais (corpos limitados, separados uns dos outros, nos quais toda experiência mental se dá “dentro” do cérebro e dos nervos de cada um), as mais indubitáveis “verdades universais” (mesmo aquelas sem as quais nem mesmo poderíamos nos comunicar) só existem como realidade à medida em que se tornam “verdades para nós”, pela construção interna que as impregne de algum sentido além da aceitação frouxa e acomodada da tradição ou do “costume” inquestionado.

Isto é suficiente para renunciarmos a toda passividade de comportamento, por mais prazeroso que seja o deixar-se conduzir, imóvel e cômodo, no fluxo inerte dos dias e das noites, do vento e da chuva, das fofocas de esquina ou dos escândalos e maravilhas do imaginário jornalístico.

E, desde o momento em que resolvemos seguir nossos insights e asneiras auto-inferidas, só podemos realmente ser livres e tentar escapar à fatalidade de nossa condição animal (ainda que só possamos ultrapassar as barreiras da existência material e da morte no íntimo de nossas mentes) se nos colocarmos numa posição de permanente luta e vigilância, em um mundo que está organizado para que sejamos membros do rebanho, sem direito à mais mesquinha individualidade.

Numa sociedade em que a maioria é submetida (com a própria colaboração de seu conformismo) a existir segundo os padrões definidos pelos dominadores (no proveito destes), o exercício do livre arbítrio só é possível como rebelião, pois, a todo momento, estará chocando-se com as regras de comportamento exigidas pela dominação.

Onde há senhores que precisam de autômatos humanos para executar por eles todo o trabalho intolerável e penoso, quem quer se arrogue o direito à própria singularidade jamais o poderá fazer na ingênua crença de ter como justificar sua vida por si, e para si mesmo (uma vez que, como toda gente, é um ser que pensa e sente). Tal disposição é contrária à ordem que nos é imposta e a realização concreta da liberdade só poderá dar-se na forma da rebeldia, já que, permanentemente, os mais diversos condicionamentos e exigências, as mais sutis punições e chantagens, as mais explícitas seduções e sabotagens cairão sobre o indivíduo livre para reconduzi-lo à procissão do fatalismo ou até mesmo ao próprio desaparecimento da Terra, se necessário à manutenção desta ordem.

A cada instante da existência, ou nos opomos às ondas construídas pela sociedade hierarquizada e pela opressão de todo tipo (principalmente a das idéias, crenças e condicionamentos jogados sobre nós em prol das mórbidas necessidades de prazer de nosso amos), ou nadamos ferozmente contra a correnteza do poder e da inércia dos subjugados, ou contestamos tudo o que não seja genuíno e são (que não nasça do âmago de nossos corpos e mentes e a eles não se manifeste como satisfação e gozo), ou nos tornamos rebeldes, transgressores de toda ética vinda dos poderosos e seus adoradores, ou só nos restará o doloroso, e ainda assim inconformável, papel de bufões da inteligência e da liberdade! Mais valeria, não nos rebelando, fôssemos pedras e não houvesse a natureza viva evoluído até nos dotar de consciência.

Ubirajara Passos

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA

Embora dirigente partidário, como já escrevi neste blog, sempre mantive a independência mental e a capacidade crítica suficiente para constatar as asneiras dos políticos, até mesmo dos mais autênticos “socialistas”. Certas práticas a que a necessidade do voto, numa sociedade majoritariamente imbuída da mentalidade burguesa e dos preconceitos próprios da cultura autoritária (como “honra”, “honestidade”, “simpatia”, “status”, etc.), acaba por submeter o mais radical revolucionário vermelho (as demagogias “marketeiras” de todo tipo) são simplesmente inaceitáveis.

Não por contrariarem ideais puristas de “verdade”, “realidade” e “conscientização das massas”, mas por jogar na vala comum do lixo geral as oportunidades de indignação concreta dos trabalhadores e igualar, na prática dos palanques (de praça ou eletrônicos) o velho discurso do clientelismo e dos pretensos defensores do povo. Por mais bem intencionado que seja, o político que se arroga a missão de “salvador”, “mártir” ou “protetor das massas”, está (pela simples atitude) colaborando para a manutenção da sociedade autoritária (ainda que seu autoritarismo se faça de forma disfarçada), hierarquizada e opressora.

Não há como escapar, ao ceder às demagogias comuns à cultura da mídia capitalista, à óbvia conseqüência da manutenção da “escravidão assalariada”. Pois muito mais do que no exercício concreto da “força” é nos hábitos e crenças mentais das multidões que se sustenta sua opressão. Assim, toda prática que não apostar no questionamento e na rebeldia aos modos de pensar pré-determinados e condicionados às pencas na TV nossa-de-cada-dia (só para citar o principal instrumento de “adestramento” das nossas mentes) só pode conduzir, NECESSARIAMENTE, à manutenção da sacanagem vigente.

Toda esta elocubração intelectualóide é para, safadamente contextualizado por este escritor cretino, reproduzir abaixo o primeiro “SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”, por mim parido nos idos de outubro de 1999:

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA

Não adianta namorar a revolução com intenções explicitamente utópicas, como não resolve flertar com uma mulher de forma manifestamente luxuriosa. O encanto de ambas as coisas está justamente na intimidade secreta, fruída pelos amantes de maneira natural, vale dizer semiconsciente, sem protocolos, nem compromissos formalmente estabelecidos.

É a fascinação daquela afinidade e prazer recíprocos, simplesmente intuídos (captados no relance de um olhar carregado de cumplicidade e tesão), que dá o sabor do sobressalto e valoriza um amor.

Assim é que – quando um líder precisa clamar veementemente às “massas” suas intenções redentoras e engajadas – sua credibilidade, ainda que formalmente íntegra, se encontra simplesmente rota e sua liderança, esboroada.

Previnamo-nos, caros amigos, dos loquazes e verborrágicos representantes da ira divina, dos despreendidos defensores do povo, tempestuosos instrumentos da justiça! A sua verborragia oca e vertiginosa guarda nada mais do que a própria essência do olho do furacão: de nada se compõe e a nada levará, senão à satisfação inconfessável de seus mais elitistas e abjetos interesses.

Ubirajara Passos

DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS

Enquanto me curo da ressaca de champanhe (ando um bêbado chique ultimamente, ainda que o “espumante” seja daquele baratinho de R$ 5,00), deixo com os leitores mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DA NATUREZA POLÍTICA
DAS SOCIEDADES
EXPLORATÓRIAS

Embora os nossos ilustrados revolucionários igrejeiros creiam piamente que todo drama do capitalismo consiste na “má distribuição de renda”, a mais banal e oculta (para os seus compassivos olhinhos) verdade é que, como todas as outras formas de sociedade de classes, a atual nada mais é do que o exercício da velha e boa pecuária aplicada à manada humana. Concentrar toda luta social na reivindicação de salários dignos supõe implicitamente a possibilidade da existência de patrões bonzinhos e reduz a revolução à expectativa infantil de uma oração ao Senhor para que nos dê uma boa burguesia, que nos faça felizes e não nos deixe passar fome”.

Ainda que o capitalismo esteja impregnado da psicologia da classe que, historicamente, lhe deu origem (cuja fé concentra no deus-dinheiro toda devoção), a sua essência em nada difere do escravismo ou da servidão feudal, a não ser na ausência dos pés acorrentados (a qual é mais produto da rebeldia parcial dos “explorados” que da vontade burguesa) e do título formal de vassalagem.

A mentalidade burguesa, filha das incertezas materiais de indivíduos que no Ocidente medieval encontravam-se à margem do sistema produtivo predominante, dá à atual sociedade de classes a cor da marcha ferozmente competitiva e ávida pelo progresso da riqueza (ou melhor, do butim)… do capitalista! (o senhor de escravos ou de feudos já se contentava em ter à sua disposição uma horda de rezes falantes que realizasse por ele todo o trabalho e lhe permitisse integral dedicação ao ofício da vadiagem). Não é, entretanto, o simples exercício da “esperteza”, e a vigarice herdada dos velhos mercadores (cuja sofisticação das técnicas se constitui na moderna gestão econômica), que permite aos ladrões protegidos por lei (com registro na Junta Comercial) sua posição sócio-econômica.

Como seus antecessores de outras eras, eles não possuem poder porque nos roubam, mas nos roubam porque se fazem poderosos. E sua pilhagem se mantém intocável através dos tempos porque não se resume à expropriação do que produzimos com nosso trabalho, mas porque nos roubam a própria vida, o tempo, os braços, a mente, convertendo-nos em sua propriedade!

Pouco importa se o “contrato de emprego” se constitui em compra, troca de serviços por “proteção”, ou aluguel, porque seu objeto não é apenas os braços, o cérebro, a buceta (ou tudo isto, no caso de uma santa esposa e “dona de casa”), mas todo o nosso ser e (ainda que não o percebamos) pelo tempo integral de nossa existência quotidiana.

Esta é a realidade num mundo em que a maioria de nós não possui tempo, dinheiro ou disposição para o prazer, o amor, o sexo, a doce e instigante gandaia de noites bêbadas e boêmias, ou mesmo a mole ternura familiar e a descontração satisfeita de uma conversa à toa, pelo simples fato de que a rotina exaustiva e obrigatória de trabalho que nos impõem os nossos senhores e as migalhas da riqueza que produzimos, e nos é devolvida em forma de “salário”, não o permitem, e não por nossa opção.

Bem observada, a nossa existência se resume a trabalhar e prover os meios de nos manter em pé e preparados para produzir, enquanto a classe que se arrogou o direito de organizar, e carrear em seu proveito, a produção econômica necessária pode viver, dentro das limitações que lhe impõe o próprio exercício do domínio, todas as possibilidades que a aventura da vida consciente de si mesma lhe permite.

Ou seja, não apenas na vontade e concepção de nossos dominadores, mas em nossas próprias atitudes habituais, em momento algum justificamos nossas vidas além da simples sobrevivência, vivendo não para nós mesmos e em vista de nossas necessidades e desejos de animais sensíveis e conscientes. Mas, da mesma forma que os “animais de criação”, toda nossa rotina está voltada para os interesses e necessidades de nossos “donos” e são eles que a definem em detalhes, seja quanto ao ritmo (condicionado pelos horários e dias de trabalho e descanso), quanto às possibilidades biológicas, materiais e mentais (rigorosamente fixadas pela escala de salários, que preenche, no caso humano, as funções da seleção e adestramento de raças destinadas a trabalhos específicos ou exposição: não por acaso um engenheiro ou uma “modelo” de moda têm remunerações diferenciadas das de um lixeiro ou peão de obra), e mesmo quanto às próprias idéias que fazemos do mundo e de nós mesmos (pela via do condicionamento ideológico profundo).

Somos, em suma, os apêndices, as ferramentas necessárias “empregadas” pela burguesia para a geração e perpetuação de seu requintado, vadio e, perfidamente, colorido quotidiano, verdadeiro carnaval de 365 dias por ano, a contrastar com a feiúra e melancolia gris de nossos farrapos e carrancas. Para que a minoria de salteadores prepotentes e maquiavélicos possa gozar permanentemente uma plenitude de deuses do Olimpo nos é imposta, em essência, a mesma e velha condição dos escravos (com a única diferença que, pelas necessidades e interesses decorrentes da moderna tecnologia, nos é dada uma maior mobilidade e uma aparente liberdade), cujas cadeias são ainda mais difíceis de romper que as das correntes físicas, porque disfarçada e fortemente introjetadas na própria alma e com a própria colaboração de nossas crenças.

Já não nos separam em compartimentos para machos e fêmeas, e nem nos retiram nossas crias para a educação impessoal de amas de leite e o adestramento de feitores. Nos permitem ter nossas próprias choças e viver nossas próprias ilusões domésticas, à semelhança das famílias burguesas, e temos liberdade, ao menos teoricamente, para definir a que profissão nos dedicaremos (se seremos cães pastores ou de caça) e em que empresa trabalharemos (a quem nos venderemos). Mas não temos liberdade, em momento algum, para trabalhar o mínimo necessário à manutenção de nossas vidas, nem para decidir qual o grau de sofisticação e prazer físicos e mentais que lhes pretendemos imprimir; se viveremos, dentro das possibilidades naturais, num mundo de alegre e satisfeito jogo, ou nos sacrificaremos em nome de qualquer ilusão grandiloqüente! São os nossos amos quem o decidem, no próprio proveito, e é o poder (calcado nos nossos mais recônditos condicionamentos de obediência servil) de mando (político, portanto) que mantém a vigente tortura universal e inevitável da escravidão assalariada, e não a sua pretensa maior habilidade na negociação de um “contrato” de trabalho entre partes pretensamente iguais.

Enquanto houver patrões, enquanto alguns impuserem na prática, e sob as mais abstrusas fantasias – como as noções de Direito e Estado, aos demais as regras e condições de comportamento e, por via disso, apropriarem-se do produto do trabalho alheio, haverá a miséria, a vida subumana e indigna da condição do mais vil vira-lata, ou, no máximo, a de “touro de exposição agropecuária” (que nem por bem alimentado e tratado, como é o caso da pequena-burguesia , deixa de ser touro e viver nos limites do curral e da mangueira). Ninguém funda uma empresa privada com intenções altruístas e é da própria natureza da propriedade burguesa (que é “propriedade” dos bens alheios, portanto expropriação dissimulada) o desejo de domínio e a conseqüente opressão da humanidade.

Ubirajara Passos