Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa

Muito leitor sarcástico e gozador, senão intelectualóide e amargurado, deve estar pensando que o título deste texto, pela seu tamanho quilométrico, deve ser maior que o próprio. Entretanto, umas trinta e seis horas depois de escrevê-lo, ainda meio bêbado, a bordo de uma tartaruga que atende pelo nome de Viação Ouro e Prata, não encontrei outro melhor para o soneto “heterodoxo” que segue:

Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa:

Eu venho da noite profunda das eras
Que o tempo escondeu entre névoas eternas.

Eu venho do azul quase negro gravado
No fogo confuso das lutas inglórias.

Eu venho da curva onde o vento perdeu-se.
Venho do oculto pulsante sem nome,
Da força infinita que vibra, tão ínfima,
Desde o velho “sempre”.

Venho do escuro, do nada, do pouco,
Do velho, o esquecido, do sem importância.

Sou o canto do beco sem rumo onde o Diabo
Nem perdeu as botas, porque não as tinha,
E deixou à brisa, flanando, sem cor,
O rastro rasgado de um pensamento.

Rio Grande do Sul, 21 de fevereiro de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/02/2009 at 1:19 pm Deixe um comentário

ATOS

Desde o sábado o tédio me invadiu de tal modo, que não me sobrou a mínima gota de inspiração. Mas, para que os leitores não fiquem a seco, publico o último poema constante do “Paixões, Asneiras e Tristezas”, que nem sei por aqui não o cortei do livro, tão empolado (e até meio moralista) é. Seja como for, representava, na época em que foi escrito, o mais aproximado possível dos meus sentimentos. Vamos a ele.

ATOS

Não é preciso que de nossas vidas
Façamos um infindo mar de glórias
Ou uma constelação imensa de vitórias.
Não é preciso que ao público olhar brilhe
A fulgurante luz de nossos triunfos,
Nem que ela ofusque os grandes feitos de outrora.
Só é preciso que os nossos atos
Ao nosso íntimo,
À racional, profunda consciência satisfaçam.

Gravataí, 8 de outubro de 1990

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/07/2007 at 11:44 pm Deixe um comentário

ILUSÕES DA PIÇA

O que não faz uma tarde de tédio? Depois de dormir até o meio-dia, apanhar alguns limões-bergamota no pé e almoçar, pobre solteirão desventurado que não sabe cozinhar, uma lasanha pré-fabricada com pepino, vieram-me à cabeça os versos dramáticos e filosóficos de Francisco Otaviano, poeta romântico carioca nascido em 1825 e morto em 1884, que fizeram o maior sucesso até a geração dos nosso avós (1920, 1930, por aí): “Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem – não foi homem,/ Só passou pela vida – não viveu”.

Como se percebe, o tom é dos maiores sérios e pessimistas possíveis. Mas o poemeto me veio à cabeça justamente na forma de uma paródia cretina, impagável, e nada original (centenas de poetas de buteco, quem sabe algum obscuro escritor do século XIX ou da primeira geração do modernismo brasileiro, e, com certeza, milhares de estudantes da velha guarda devem ter escrito coisa semelhante), que, após o primeiro verso surgido espontaneamente, redigi com as “Ilusões da Vida” em punho, e aqui publico na intenção da edificação moral de nossas crianças e jovens – com as quais tanto se preocupa o ditador fascista Inácio dos nove dedos, que até reviveu, de forma (mal) disfarçada, a velha censura do regime militar, obrigando as emissoras da TV aberta (com exceção dos intervalos comerciais, é claro, que o faturamento da burguesia não é digno de censura) a passar só depois da meia-noite os programas considerados indecentes por meia dúzia de classificadores (os novos censores) auxiliares do zeloso ministro Tarso Genro, a cujos éticos olhares a portaria ministerial recomenda sejam encaminhados os programas antes de sua exibição (a velha censura prévia).

Mas, como dizia Odorico Paraguaçu (protagonista de “O Bem Amado”, de Dias Gomes), deixemos os entretantos e vamos aos finalmentes. Pois este post já está virando panfleto político e a questão da nova censura (que é tão “democrática”, que a função de tesoura não será exercida diretamente pelo executivo, cabendo a honra ao judiciário, a quem os amigos do Inácio encaminharão os “causos”, para punir as emissoras rebeldes, tudo no mais puro espírito da “Constituição-Cidadã”) merece uma crônica a parte. Vamos ao poema:

Ilusões da Piça

Quem passou sua piça em brancas vulvas
E rápido, de gozo, adormeceu;
Quem não sentiu o gosto da cachaça,
Quem brincou com a prima e não fudeu,
Foi esperto só de nome – não foi homem,
Só passou pela foda – não fudeu.

Gravataí, 30 de junho de 2007

Ubirajara Passos

BAR NAVAL

Por mais que tente me animar, hoje é uma daquelas noites em que a chatice emburrecedora nos toma completamente e só nos resta reproduzir as besteiras de sempre.

Assim, procurando entre os poemas que não fazem parte do impublicado livro “Paixões, Asneiras e Tristezas”, o único que encontrei em condições de publicar neste blog foi o “Bar Naval”. Que foi escrito no próprio estabelecimento, em uma tarde de porre enlouquecida com minha companheira de trabalho, pândega e luta sindical , Gilmara, em homenagem ao pequeno bar do Mercado Público de Porto Alegre, onde já tomei vários pifões e muito viajei em elocubrações filosóficas, políticas e etílicas, principalmente com o companheiro Jorge Dantas (que, aliás, foi quem me mostrou o lado boêmio do Mercado Público). Além, é claro, das longas conversas com a companheira Carin, quando voltávamos, nos sábados de manhã, de um curso de inglês que paguei inteiro, mas acabei freqüentando somente umas quatro aulas (a Carin foi a umas duas…)

O texto foi escrito, a moda dos velhos sambistas e poetas populares (Lupicínio Rodrigues, por exemplo, tinha sua mesa e cadeira fixas no Bar Naval), em um guardanapo de papel e afixado no mural que toma toda a parede oposta ao balcão, repleto de poemas do mais antigo garçom, o “Paulo Naval”, bem como dos textos e poemas dos mais diversos freqüentadores que nele se alimentaram ou tomaram sua birita nos últimos anos (há fotos e recortes de jornal de figuras que vão de Leonel Brizola a Olívio Dutra, até hoje um assíduo freguês, e ao companheiro Moah – o jornalista mais genial e pirado que já conheci).

Mas, infelizmente, o meu pequeno panegírico ao centenário bar não esquentou banco e foi retirado da parede. De qualquer forma, resgatado da minha própria gaveta, aí vai publicado o meu louvor ao mais antigo e típico buteco da capital gaúcha. E, antes que me esqueça, fica aqui o registro: a primeira vez que botei o pé (e levei o copo à boca) no Bar Naval foi com o companheiro Carlos Augusto (o Carlão da crônica “O Vinho do Carlão”, publicada neste blog). Se não o menciono, o colega de judiciário e ex-marinheiro é capaz de ter um ataque lá em Garibaldi (comarca onde atualmente trabalha, e reside – casualmente em frente a uma cooperativa vinícola).

Bar Naval
(ou da “Navalha”?)

Quando a noite da vida nos invade,
Quando o escritório, a fábrica enlouquece-nos,
Quando a chatice patronal nos submete
É no “Naval” que a vida se refaz!

Quanto “exu”ou fantasma de outras eras
Se manifesta na hora do buteco!
Aqui se bebe, aqui se goza,
Aqui se vai
Ao paraíso pândego dos livres!

Porto Alegre, 7 de outubro de 2005

Ubirajara Passos

Publicado em: on 21/06/2007 at 1:12 am Deixe um comentário

DOIS POEMAS BESTAS

Em 1991, aos vinte e cinco anos, após meses de pânico quase permanente no ano anterior, e curtindo a primeira grande depressão da minha vida, eu mal imaginava que, em menos de um ano, eu seria líder sindical e, em menos de dois anos, estaria irreversivelmente ligado às grandes batalhas do Sindjus-RS. Os poemas que seguem dão conta da minha incapacidade de tornar ação, então, os ideais em que cria, e a minha impossibilidade de voltar a escrever algo válido, quando eu não supunha que pouco havia até então escrito e o que viria depois.

 

POEMETO DO ARREPENDIMENTO

Não. Não é possível que a vida se me esvaia
Sem ter jamais ao campo de batalha
Arrojado-me, sequer, a perseguir ideais;
E, derrotado sem luta e sem vontade,
Veja cair-me uma a uma as máscaras
De que cobri, em atroz engano, a face,
Vivendo a iludir-me e ao mundo
Na promessa vã, hipócrita, infinda
De principiar a grandiosa jornada;
A transformar-me a vida em imensa farsa.

Gravataí, 11 de maio de 1991

Ubirajara Passos

 

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ENLEVO FUGAZ

Ao iniciar da longa madrugada
Cantam os sapos nos longínquos banhadais,
Trazendo-nos à nostálgica memória
Velhas histórias e pungentes ais.

Sob a gélida e nívea cerração
Na invernal noite, melancólicos
Entoam velhos temas ancestrais,

A mergulhar-nos em vagos devaneios,
Fazendo-nos sonhar com tênues sentimentos
Que perderam-se na noite azul dos tempos

Gravataí, 26 de maio de 1991

Ubirajara Passos

MELANCOLIA

O meu estado de ânimo desde a surpreendente derrota nas eleições do Sindjus-RS tem sido de um marasmo e uma falta de entusiasmo total e completa, o que me impede de escrever qualquer coisa. Logo, para que os leitores não fiquem igualmente entediados com este blog, publico abaixo um velho poema que casa com as emoções deste dias de ressaca política e existencial.

MELANCOLIA

Sentar frente ao papel, na escrivaninha,
Para escrever,
Mas escrever o quê?
Se a alma minha
Nestes momentos em vazio se encontra;
Pegar a pena e imprimir os signos
Dos sentimentos presentes,
Estéreis, vagos,
Este o tormento porque passo agora,
Pois já não tenho os sonhos de outrora,
Já não vislumbro lá longe a vitória;
Já não expresso, sequer, de minh’alma
Os pensamentos hodiernos;
Reflito
Neste poema
Idéias e expressões passadas,
Nada de novo nasce desta pena,
Só a mim mesmo estranhamente imito.

Gravataí, 2 de dezembro de 1987

Ubirajara Passos

TRISTEZAS

A depressão em minha vida tem sido uma constante desde muito cedo. O poema seguinte, embora impregnado de um certo tom retórico e farsesco, expressa, no entanto, um dos meus momentos de falta de sentido, aos vinte e cinco anos de idade.

TRISTEZAS

Quando não resta mais que lamentar
Da vida os infortúnios
E o passado torna-se o refúgio
De antigos sonhos que o destino,
Nas suas vagas de redemoinho,
De louca tempestade a galopar,
Cobriu do pó eterno dos caminhos
E sepulto-os sob a lájea fria
Do desengano atroz;

Quando do dia a luz e a alvorada
Perderam o sentido de beleza
E não exaltam mais do homem
Os anseios,
Quando os ímpetos rebeldes
E inconformados de revolução,
De luta incessante e indomável
Pela transformação da sociedade
(Que, falida, na própria lama imerge,
Sobre a maior parte de seus membros
O sacrifício sem compensação,
O peso do suplício a arremessar)
Não mais alentam a alma do poeta;

Quando os amores murcharam e apagaram-se,
No caminho da rejeição eterna,
E o coração de gelo e cinzas recobriu-se,
À alma humana é possível
O renascer no vigor de uma quimera,
Da fênix o mito
Em vibrante realidade transformar?

Gravataí, 4 de julho de 1990

Ubirajara Passos

DOIS POEMAS SAFADOS E FILOSOFANTES

Estive desde domingo até hoje em campanha eleitoral para a escolha da próxima direção do SINDJUS – RS em 14 de maio, percorrendo as comarcas do interior do Estado nas regiões do Alto Uruguai, Noroeste, Missões e Planalto Médio, em razão do que foi impossível publicar novos posts no blog. Hoje, entretanto, deixo para o deleite dos leitores os dois poeminhas cretinos que seguem.

De intimidades…

No momento do gozo supremo
Haveremos de encontrar,
Em meio à explosão do “Big Bang”
(Que o universo é produto de um orgasmo)
A mesma besta e gratuita alegria
De uma pilhéria casual ao pé do fogo,
A intimidade e a descontração
Daqueles que primeiro riem juntos
E na corrente entusiástica do humor
Forjam a torrente incoercível do amor!

 

Vila Palmeira, 12 de março de 2004

Ubirajara Passos

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Anima Mater

Vem a mim, deusa loira da meiguice,
Vem a mim, mãe terna, louca amante,
Vem-me ninho de aconchego e doçura,
Ciclone de prazer forte e profundo!
Vem raiz de toda vida, seio
Fértil do mundo,
Mulher-mãe-de-tudo!

 

Gravataí, 14 de novembro de 2004

Ubirajara Passos

O SONHO DO PEÃO

E assim, perdido pelos campos,
Ele não sabia,
No meio da vida,
O que era a vida,
Nem o que seria.

Ainda levava
Na melena rala
A memória velha
Das brisas de outonos,

Ainda sonhava
Com mulheres-onças,
Tesudas panteras,
Gatas enroscadas
Ronronando doce.

E em sonhos
Ele se perdia
Pelas madrugadas,
Ínsone teatino, troteando no céu,
Procurando estrelas
Perdidas, sem rumo,
Brilhantes pedaços de beleza e gozo.

Ele se extraviava
Na paixão da lua,
Misteriosa fêmea
Que o hipnotizava.

Ele se entregava
A estranhas auroras
Que rubras bucetas
Da cor de corais
Não igualariam
Nos gozos dos corpos
Ao orgasmo da mente,
Ao prazer do olhar!

Ele imaginava
Um mundo sem beiras,
Um tempo parado,
Uma gente sem peias,
E diziam-lhe “os sérios”,
Os “bem-comportados”:

Tu estás louco, homem,
Nunca houve esta coisa
De animais humanos
Soltos pelo mundo
Mandando em si mesmos.

A regra é diversa
E dela é preciso
Que obedeçamos
Todos os preceitos.

Há chefes e donos,
Barões, baronetes,
Há grão-sacerdotes,
Há os camaradas
Aconselhadores,
O velho partido
Da ciência revolucionária.

Conforme as formigas,
Viva, tchê, conforme.
Sejas, coletiva,
Ferramenta informe,
Que a ti não importam
Quem sejam teus chefes.

Tu foste parido,
Ser ínfimo e pobre,
Incapaz de ti,
Para nos servir.

Ontem fomos reis,
Senhores feudais,
Escravistas novos,
Fascistas vermelhos.

Nós fomos filósofos,
Cientistas políticos,
Fomos psicológos,
Até antropológos!

E de ti entendemos
Tudo o que nos dais:
A reverência burra,
A crença sem crítica,
O desamparo ávido
De instintos filiais
E a ambição das bestas
De maior ração
E menos relhadas
No lombo fodido!

Hoje somos, próximos,
Tua própria “consciência”
Que entra todos dias
Em tua mente vadia,
Na tela de vidro
(A tal de TV)!

E o qüera sem rumo,
Um sepé de hoje em dia,
Índio e europeu,
Não sabia mais
O que responder
Às gralhas do mundo,
Nem o que escolher
Entre tantos senhores!

Tão perdido estava
Que na noite achou-se:
Depois da erva-mate
Veio-lhe a cachaça.
Sonhou como os índios,
Tornou-se um xamã.
Entrou nos delírios
De druidas e bruxos

E à mente lhe veio
Uma incerta resposta,
Tão incerto é tudo,
Mas que o satisfez:

Velho companheiro,
De eternas jornadas,
Tu és só mais um
Que sofre teu século.

Logo a terra bruta
Levará tua carne
E mais uma vez
Tu renascerás
Na pedra, na árvore,
Homem ou animal!

Breve é tua estada
No mundo consciente,
Breve é tua vida.
Como em ti, não existe
Perpetuidade nos teus elementos!

O que hoje te forma,
Até os calos do pé,
Amanhã serão
Os olhos castanhos
Da fêmea mais linda
Ou a bosta gigante
De um elefante!

Vive a “tua” vida
E não deixes que os outros
Te imponham deveres,
Limites, recalques,
Sê tu, só tu mesmo,
Que é “única” a vez que vens ao universo!

Gravataí, 20 de abril de 2007

Ubirajara Passos

DESENCANTO

Embora algumas idéias para postar no blog me passem raspando pelos cornos, a verdade é que não tenho o menor saco de parir algo novo. Assim, publico o poema abaixo que, além de exonerar da obrigação de escrever, é um espelho fiel do meu humor nas últimas semanas.

DESENCANTO

De que me vale o canto revolucionário,
O lírico encantamento
Das coisas e dos seres?

De que me vale o sentido íntimo e profundo
Da beleza e do mistério
De um campo solitário e desolado,
De verdes prados em tarde enuviada,
Da ventania que, gélida e arisca,
Na sua infinda jornada,
Cavalga os campos, tudo a arrastar?

De que me vale o enlevo do universo
Na solidão das noites
Estreladas ou de luar?

De que me vale conhecer da Humanidade
Profundas as mazelas em que imerge-se,
Nos turbilhões dos temporais da vida,
Perdida, sem farol, a navegar?

De que me valem os ímpetos
De rebeldia, buscando levantar
Do insólito sono crepuscular
As consciências desde muito adormecidas?

Se sou “uma voz que clama no deserto”?
Se não ouvem meus gritos, até fatigar?
Se a tempestade avassaladora da inconsciência,
Da falta da Razão, de Liberdade,
A tudo envolve e teima em arrastar?

Se a própria vida, em suas terríveis roscas,
Tudo esmaga e a mim mesmo
Envolve nas vagas frustradoras
De seu imenso mar?

Gravataí, 10 de junho de 1990

Ubirajara Passos