Submergindo na Inciência

Após quase dois anos sem escrever uma única palavra neste livro eletrônico, embalado neste renascer de primavera (que continua insistindo em ser inverno, os termômetros registram 14º C neste momento), resolvi dar seqüência, hoje, à fábula Erótilia. Segue aí mais um pequeno capítulo:

Submergindo na Inciência

Nos dias que se seguiram, mestre e discípulo imergiram totalmente nas brumas alcoólicas, e, porre após porre, ressaca, após ressaca, Pancius foi instruindo Epicuro nas artes do desapego absoluto e do desprendimento dos hábitos de comportamento automáticos e auto-limitantes. Todas as rotinas imóveis e encarceradoras de postura, todas as etiquetas, do falar, do comer, as dissimulações hipócritas do modo de olhar e de falar, as regras da rigidez nos gestos íntimos ou públicos foram colocadas em questão e demolidas. Não pelo discurso racionalista. Nem pelas exortações panfletárias e milenaristas dos místicos revolucionários. Mas justamente pelo descontrole pessoal das situações, o deixar-se levar e o rompimento fisicamente obrigatório com os “bons modos” e a autodisciplina.

Jogado num turbilhão incontrolável de vinhos, cervejas e destilados de ervas amargas e aromáticas, o noviço pagão perdeu completamente a vontade própria, conduzido pelo cansaço físico e a confusão de estados d’alma. E o gordo mestre tratou de ensinar-lhe então o prazer ou a simples satisfação de vomitar-se todo, no auge da bebedeira. De mijar na toga, cagar em qualquer canto de floresta, rolar-se no chão e sujar-se, caminhar pelado na chuva, comer qualquer fruta achada pelo caminho, com as mãos embarradas da terra mãe, e simplesmente respirar, comer e viver segundo as pressões imediatas do corpo, da luz solar e da escuridão, dos ventos, do calor tórrido e das neblinas.

No nono dia de “loucura mansa”, quando Epicuro se encontrava absolutamente envolto nas ondas do inconsciente, e preparava-se, extenuado, para dormir uns bons três dias sem intervalo, Pancius o acordou, seis horas enjoadas de uma madrugada de outubro e o conduziu para um banho gelado no lago local, o fez vestir-se impecavelmente e pôr-se em marcha por uma trilha pedregosa e completamente cerrada de mato, enormes troncos e cipós de ambos os lados.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/10/2009 at 1:43 am Comentários (1)

Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa

Muito leitor sarcástico e gozador, senão intelectualóide e amargurado, deve estar pensando que o título deste texto, pela seu tamanho quilométrico, deve ser maior que o próprio. Entretanto, umas trinta e seis horas depois de escrevê-lo, ainda meio bêbado, a bordo de uma tartaruga que atende pelo nome de Viação Ouro e Prata, não encontrei outro melhor para o soneto “heterodoxo” que segue:

Auto-Definição de um Bêbado Megalomaníaco em Viagem de Ônibus (iniciada à meia-noite) entre Porto Alegre e Santa Rosa:

Eu venho da noite profunda das eras
Que o tempo escondeu entre névoas eternas.

Eu venho do azul quase negro gravado
No fogo confuso das lutas inglórias.

Eu venho da curva onde o vento perdeu-se.
Venho do oculto pulsante sem nome,
Da força infinita que vibra, tão ínfima,
Desde o velho “sempre”.

Venho do escuro, do nada, do pouco,
Do velho, o esquecido, do sem importância.

Sou o canto do beco sem rumo onde o Diabo
Nem perdeu as botas, porque não as tinha,
E deixou à brisa, flanando, sem cor,
O rastro rasgado de um pensamento.

Rio Grande do Sul, 21 de fevereiro de 2009

Ubirajara Passos

Publicado em: on 22/02/2009 at 1:19 pm Deixe um comentário

O Mestre Pancius de Goró e Línguas

A total falta de saco me impediu de escrever, hoje, qualquer texto teórico ou as pauladas, necessárias e adiadas, sobre o projeto federal de quebra da estabilidade dos servidores públicos e a cretinice da diretoria pelega do Sindjus-RS frente ao autoritarismo do Tribunal de Justiça – que, aliás, bloqueou o acesso dos servidores, no local de trabalho, a este blog, – o que se constitui em censura, por óbvias razões políticas – e, estranhamente, a sites listados no “blogroll” sem nenhuma relação com as questões da instituição, como o Blog d’Arkan Simaan (ilustre físico libanês radicado no Brasil desde os dois anos de idade – ou seja, brasileiro nascido no Líbano -, professor universitário, com livros publicados, na França desde os anos 1970!). Parece que seu passado revolucionário, em decorrência do qual, durante a ditadura gorila de 1964, teve de se exilar na Europa, se tornou algo explosivo e inadmissível para a justiça gaúcha… a partir do momento em que viu seu nome associado – por mera listagem no “Bira e as Safadezas…” – ao pobre “subversivo” que sou! (e, ao que parece, cometi um crime não previsto na “Constituição Cidadã” de 1988, e rechaçado pela Declaração dos Direitos Humanos da ONU: o crime de opinião!)

Mas, questões políticas a parte, somente a inspiração da “fada verde” possibilitou-me escrever mais um capítulo da fábula Erótilia, que vai a seguir transcrito:

 

O Mestre Pancius de Goró e Línguas

A gorducha criatura rodopiava enlouquecida (parecia um buda cocainado) e, quando viu o “noviço” desperto, se pôs a bater palmas e gritar entusiasmado:

- Queres fuder? Queres fuder? Queres fuder? Queres fuder? Queres fuder?…

- Zeloso mestre, que história é esta? Com vosso mantra estás é a me fuder a paciência! Podeis dizer-me onde me encontro? E o que é da minha túnica?

- Vamos fazer uma festa? Vamos fazer uma festa? Vamos fazer uma festa?

- Só se for com vossa genitora, guru ensandecido! (Epicuro começava a irritar-se e mal continha a xaroposa formalidade de neófito dogmático)

Pancius estacou de chofre, e com os olhos esbugalhados, encarou o discípulo, resfolegando como um touro, negaceando a cabeça como um doido furioso e, à vista do piá, que correu aos tropeços para trás de uma coluna granítica, quase se cagando, num gesto brusco levou a mão ao bolso e sacou de um bornal de vinho!

Vamos chamar umas putas? – E, entornando vinho pela barba grisalha, começou a berrar aos quatro ventos, enquanto dançava saltitando:

-Buuuundaaaaaaaaaaaaaaa!Tetinha,tetinha,tetinha!Buuuundaaaaaaaaaaaaaaaa!!!…

Dançarinas semi-nuas (vestidas apenas com um tapa-sexo) de todas as “pelagens” (loiras, ruivas, morenas, negras e amarelas) despencaram de trás das árvores, saltitando ao som de flauta, e se puseram a rodar com o pirado monge ao centro, que se atirava sôfrego aos seus seios e, entre uma mamada e outra, enquanto apalpava as doces fêmeas, disparava:

- Buuundaaaaaaaaaaaaaa!!! Tetinha, tetinha, tetinha!!!

Epicuro, entusiasmado, empertigou-se, e já ia metendo a mão em uma tigresa negra, as outras lhe apalpando o “cetro” enorme com gritinhos de que “coisinha lindinha e fofinha!”, quando foi detido por dois enormes guardas com cara de mongóis, pelados e de falo em riste, que lhe suspenderam pelos braços, enquanto Pancius dispensava as raparigas.

- Podeis lançá-lo ao solo agora! – E Epicuro, num tombo estrondoso, esparramou-se no chão, erguendo-se com dificuldade, enquanto os gigantes se afastavam e o gordo mestre, descobrindo o capuz, se apresentava:

- Sou Pancius, teu instrutor nos primeiros passos para a iniciação à nossa crença. Comigo aprenderás, estabanado “noviço”, as artes do goró e das línguas…  do nosso idioma ao bom uso que faz o teu degustador órgão do paladar na doce xana de uma fêmea da espécie humana! Antes de qualquer prática mística, terás de apreender os mistérios do teu corpo e da tua mente, e antes de usares a dura vara digna do futuro Príapo, terás de aprender como propiciar ao rubro coral mulheril o que muitas vezes não consegue o teu “cajado”, usando a mole e escamosa “cobra” que te roça o céu da boca!

- Excusai-me, mestre, sou um mancebo ignorante de mulheres e sério amante da sabedoria, e até há pouco nunca hei visto semelhantes maravilhas! Mas creio que ao calor de vossa excitante música libertei-me de minhas amarras racionalistas e xaroposas e junto a vós hei recebido a luz! Deixai voltar as linda pombas-rolas da verdade e vos demonstrarei o quanto já me inclino a aprofundar-me nos insondáveis e intensos mistérios da Deusa!

- Ouvi-me, ó imberbe e estouvado noviço! Fostes achado junto à Cascata Plenilúnica, com metro e meio de língua para fora, a babar-se e interferir no equilíbrio da montanha. Nossos guardas vos trouxeram através de um túnel incógnito, a que só tereis permissão de percorrer de volta quando estiverdes devidamente liberto de vossas justificações conscientes. A deusa e seus segredos estão mergulhados no mais profundo da espontaneidade e só após, pelo cansaço da atenção que julga, teres perdido todo cálculo mental pré-meditado, podereis atingir o âmago da energia que é vossa essência e a mãe do movimento de todos os seres! Mas para isto é necessário aprender paciência! Não desejar, nem tomar decisões pensadas e pesadas, mas agir por pura inércia e inspiração sensível. Antes de provardes dos prazeres do supremo gozo e da transmutação recíproca é necessário o desapego e o mergulho na torrente sem encilhas do universo! Assim, te dou a primeira lição do vosso aprendizado: Vamos tomar um goró! Vamos tomar um goró! Vamos tomar um goró! Vamos tomar um goóóóóóóóóóóó!!!

E, fazendo-o sentar-se na relva, Pancius serviu-se, e ao iniciado, do tinto líquido, até desmaiarem ambos de tanta beberagem, e mergulharem nos misteriosos caminhos do princípio eterno e inominado de tudo!

Ubirajara Passos

Publicado em: on 10/11/2007 at 1:27 am Deixe um comentário

O JARDIM DOS VENTOS PERDIDOS

Aí vai mais um capítulo de “Erótilia”, em seguimento à série publicada em janeiro. Aos que não leram os capítulos anteriores ou, obviamente já esqueceram-se em que pé se enconttrava a “trama”, recomendo dar uma conferida no livro eletrônico na barra lateral deste blog, à direita. Mil perdões, mas só agora a “inspiração” me permitiu escrever mais um capítulo:

O Jardim dos Ventos Perdidos

“Bem vindo sejas, filho da buceta!
Desde o longínquo pólo, das alturas
Do gelo eterno, dos desertos te saúdam
Os murmurantes rios subterrâneos.

Corre em tuas veias a sabedoria
Que habita as águas abaixo do solo,
Em teus ouvidos vibram os cantares
De ígneas rochas, do calor primevo
De cujas cinzas és filho.

Te chamamos
Do mais profundo do teu peito.
Abre os olhos
Para o prazer ondulante que fundiu-se
E se fez carne ambulante,
Fez-te o que és!

Do sono profundo das amarras,
Do sofrimento que encarcera e imobiliza,
Desperta filho do auto-flagelo.

Recém tocou-te a beleza e é preciso
Que, só e nu, inerme tu mergulhes
Na luz que cega o ruidoso pensamento,
Na sensação pura dos caminhos
Que traçam a si próprios cavalgando
O hálito eterno e onisciente da volúpia”


A voz líquida, que parecia a de uma fonte, foi-se alterando num sussuro, cada vez mais rápido e gemente, até fazer-se confusão de ventos, que se cruzavam para todo lado, e de redomoinhos lamentosos que eriçaram-lhe a pele e despertaram o aprendiz do sono profundo. Completamente pelado, Epicuro viu-se deitado numa cama fofa de relva, junto à margem da clareira. À sua frente se erguia uma trilha curva margeada por pés de cinamomo, agitados pela ventania, que desembocava num rústico jardim com toscos bancos de pau falquejado. A cabeça atordoada ainda girava e, quando tentou erguer-se, deu um rodopio e estatelou-se ao chão.

Ainda lembrava do estranho vulto branco, do mármore vivo e pulsante, resplandecente, do oceano de carne e dourados cabelos que se precipitara sobre ele em sonho, envolvendo-o numa sensação desconhecida e quente… (mesmo com os cornos pulsando de dor o “pernóstico” rapaz se enfronhava na poesia barata)… num formigamento arrebatador que lhe fez convulsionar-se cada músculo e fibra nervosa, numa volúpia estranha e surpreendente, enquanto a misteriosa voz recitava, cada vez mais imperceptível, a estranha oração – de que agora só se lembrava de trechos.

Aos poucos foi dando por si e lembrou da criatura deliciosa que espiava na cachoeira, quando uma pancada o nocauteou por trás, enviando-o ao “reino de morfeu”. Puto da vida e zonzo, não tendo com quem reinar, pôs-se a clamar contra a própria babaquice, quando ouviu a estranha gargalhada (que parecia mais uma cascata ou o barulho de seixos se chocando na correnteza de uma sanga). Foi aí que deu com a figura encapuçada que o encarava, a sacudir-se.

Ubirajara Passos

Publicado em: on 21/08/2007 at 1:31 am Deixe um comentário

ATOS

Desde o sábado o tédio me invadiu de tal modo, que não me sobrou a mínima gota de inspiração. Mas, para que os leitores não fiquem a seco, publico o último poema constante do “Paixões, Asneiras e Tristezas”, que nem sei por aqui não o cortei do livro, tão empolado (e até meio moralista) é. Seja como for, representava, na época em que foi escrito, o mais aproximado possível dos meus sentimentos. Vamos a ele.

ATOS

Não é preciso que de nossas vidas
Façamos um infindo mar de glórias
Ou uma constelação imensa de vitórias.
Não é preciso que ao público olhar brilhe
A fulgurante luz de nossos triunfos,
Nem que ela ofusque os grandes feitos de outrora.
Só é preciso que os nossos atos
Ao nosso íntimo,
À racional, profunda consciência satisfaçam.

Gravataí, 8 de outubro de 1990

Ubirajara Passos

Publicado em: on 16/07/2007 at 11:44 pm Deixe um comentário

ILUSÕES DA PIÇA

O que não faz uma tarde de tédio? Depois de dormir até o meio-dia, apanhar alguns limões-bergamota no pé e almoçar, pobre solteirão desventurado que não sabe cozinhar, uma lasanha pré-fabricada com pepino, vieram-me à cabeça os versos dramáticos e filosóficos de Francisco Otaviano, poeta romântico carioca nascido em 1825 e morto em 1884, que fizeram o maior sucesso até a geração dos nosso avós (1920, 1930, por aí): “Quem passou pela vida em branca nuvem/ E em plácido repouso adormeceu;/ Quem não sentiu o frio da desgraça,/ Quem passou pela vida e não sofreu,/ Foi espectro de homem – não foi homem,/ Só passou pela vida – não viveu”.

Como se percebe, o tom é dos maiores sérios e pessimistas possíveis. Mas o poemeto me veio à cabeça justamente na forma de uma paródia cretina, impagável, e nada original (centenas de poetas de buteco, quem sabe algum obscuro escritor do século XIX ou da primeira geração do modernismo brasileiro, e, com certeza, milhares de estudantes da velha guarda devem ter escrito coisa semelhante), que, após o primeiro verso surgido espontaneamente, redigi com as “Ilusões da Vida” em punho, e aqui publico na intenção da edificação moral de nossas crianças e jovens – com as quais tanto se preocupa o ditador fascista Inácio dos nove dedos, que até reviveu, de forma (mal) disfarçada, a velha censura do regime militar, obrigando as emissoras da TV aberta (com exceção dos intervalos comerciais, é claro, que o faturamento da burguesia não é digno de censura) a passar só depois da meia-noite os programas considerados indecentes por meia dúzia de classificadores (os novos censores) auxiliares do zeloso ministro Tarso Genro, a cujos éticos olhares a portaria ministerial recomenda sejam encaminhados os programas antes de sua exibição (a velha censura prévia).

Mas, como dizia Odorico Paraguaçu (protagonista de “O Bem Amado”, de Dias Gomes), deixemos os entretantos e vamos aos finalmentes. Pois este post já está virando panfleto político e a questão da nova censura (que é tão “democrática”, que a função de tesoura não será exercida diretamente pelo executivo, cabendo a honra ao judiciário, a quem os amigos do Inácio encaminharão os “causos”, para punir as emissoras rebeldes, tudo no mais puro espírito da “Constituição-Cidadã”) merece uma crônica a parte. Vamos ao poema:

Ilusões da Piça

Quem passou sua piça em brancas vulvas
E rápido, de gozo, adormeceu;
Quem não sentiu o gosto da cachaça,
Quem brincou com a prima e não fudeu,
Foi esperto só de nome – não foi homem,
Só passou pela foda – não fudeu.

Gravataí, 30 de junho de 2007

Ubirajara Passos

DA MANSIDÃO E O EXERCÍCIO DO DOMÍNIO

Não há imagem mais representativa da meiguice do que um gato siamês ronronando, enroscado no seu colo. Mas lhe dê um forte beliscão e verá do que é capaz a fera em que se transformará a “doçura”! Entretanto, ao menos que tenha se tornado neurótico, devido ao convívio humano, o bichano jamais será visto mordendo ou arranhando alguém sem que tenha sido agredido, esteja em situação de perigo ou caçando a presa de que necessita para se alimentar (e aí, azar é do rato!).

A mais pura das verdades é que a agressividade é uma disposição de espírito plenamente natural e normal, desenvolvida ao longo da evolução natural, justamente com o intuito de preservar nossa vida e integridade física.

Entretanto, vivemos em uma sociedade onde a menor manifestação de desagrado, discordância, crítica e oposição a qualquer coisa ou a outrem são interpretados como um grave crime que deve ser punido com toda severidade. Especialmente se, no caso da agressividade verbal, esta não estiver revestida da hipocrisia sofisticada da linguagem polida (uma coisa é bradar “seu mentiroso” e outra afirmar, suavemente, “o senhor está faltando com a verdade”) e se manifestar na plenitude saudável da espontaneidade (não há coisa mais imperdoável para a ideologia do “bom comportamento” do que um sonoro e explosivo “vai tomar no cu” ou “vai à puta que pariu” – que, coitada não tem nada a ver com o caso).

Basta mesmo que o tom de voz se eleve algumas oitavas, ao defendermos um ponto de vista lógico, com convicção, diante de um interlocutor, para que caiam sobre nós as maiores reprimendas, dignas do mais odiado assassino apontado pela mídia!

O que normalmente é esperado (e está introjetado na mente da grande maioria dominada) é que sejamos mais dóceis e “obedientes” que o gato siamês! Não é por acaso que a ideologia que forjou a mentalidade profunda do Ocidente (o Cristianismo) recomenda nas palavras de seu “fundador” que se ofereça a outra face, caso levemos um tapão no rosto. E menos ainda é casual que, no primeiro livro da Bíblia (o Genêsis), o “pecado original” cometido pelo primeiro homem (cuja culpa teríamos herdado) seja a “desobediência”.

E o que ninguém se dá por conta é que a repressão da agressividade, e o louvor à mansidão, é justamente um dos pilares necessários à dominação dos que desfrutam o produto do suor de nosso trabalho! A primeira condição para que alguém se deixe escravizar, e para que se mantenha, sem qualquer risco, o sistema que permite aos parasitas dominadores uma vida de requintado e permanente ócio, é a disposição de conformismo dos dominados (pois o simples medo ainda resguarda uma possibilidade de reação).

Somente nos transformando em bem “educadas” ovelhas cumpridoras do “dever”, atormentadas pela culpa de qualquer transgressão às regras impostas, e obcecadas com a própria “compostura”, é que nossos donos podem usufruir seus privilégios à custa do rebanho humano, e exercer sua índole sádica sobre nossos lombos! Sem a colaboração do nosso conformismo e do nosso empenho em vigiar e reprimir os companheiros próximos que ousem não submeter-se (“a desobediência”) seria impossível a existência da exploração e da sociedade de classes!

E esse amestramento só se manteve, milênios a fora, na medida em que assimilamos e reproduzimos, geração após geração, a noção de que a agressividade não só é reprovável, mas doentia (o que nos faz padecer o auto-flagelo mental cada vez em que desejamos ser “rebeldes” e “mal-educados” frente aos senhores, seus chefetes, e a ordem vigente).

Quando, na verdade, nos tornamos animais pela metade, enfermos da auto-violentação, da interdição de um mais naturais e benfazejos instintos, sem cuja manifestação permitimos que nos seja impingida o permanente ataque ao nosso ser (mente e organismo) em prol da sacanagem refinada de uns poucos patrões e altos puxa-sacos de todo quilate (os chefes e chefetes pequeno-burgueses encarregados da função de feitores de escravos, delicadamente designada “gerência”).

Ubirajara Passos

BAR NAVAL

Por mais que tente me animar, hoje é uma daquelas noites em que a chatice emburrecedora nos toma completamente e só nos resta reproduzir as besteiras de sempre.

Assim, procurando entre os poemas que não fazem parte do impublicado livro “Paixões, Asneiras e Tristezas”, o único que encontrei em condições de publicar neste blog foi o “Bar Naval”. Que foi escrito no próprio estabelecimento, em uma tarde de porre enlouquecida com minha companheira de trabalho, pândega e luta sindical , Gilmara, em homenagem ao pequeno bar do Mercado Público de Porto Alegre, onde já tomei vários pifões e muito viajei em elocubrações filosóficas, políticas e etílicas, principalmente com o companheiro Jorge Dantas (que, aliás, foi quem me mostrou o lado boêmio do Mercado Público). Além, é claro, das longas conversas com a companheira Carin, quando voltávamos, nos sábados de manhã, de um curso de inglês que paguei inteiro, mas acabei freqüentando somente umas quatro aulas (a Carin foi a umas duas…)

O texto foi escrito, a moda dos velhos sambistas e poetas populares (Lupicínio Rodrigues, por exemplo, tinha sua mesa e cadeira fixas no Bar Naval), em um guardanapo de papel e afixado no mural que toma toda a parede oposta ao balcão, repleto de poemas do mais antigo garçom, o “Paulo Naval”, bem como dos textos e poemas dos mais diversos freqüentadores que nele se alimentaram ou tomaram sua birita nos últimos anos (há fotos e recortes de jornal de figuras que vão de Leonel Brizola a Olívio Dutra, até hoje um assíduo freguês, e ao companheiro Moah – o jornalista mais genial e pirado que já conheci).

Mas, infelizmente, o meu pequeno panegírico ao centenário bar não esquentou banco e foi retirado da parede. De qualquer forma, resgatado da minha própria gaveta, aí vai publicado o meu louvor ao mais antigo e típico buteco da capital gaúcha. E, antes que me esqueça, fica aqui o registro: a primeira vez que botei o pé (e levei o copo à boca) no Bar Naval foi com o companheiro Carlos Augusto (o Carlão da crônica “O Vinho do Carlão”, publicada neste blog). Se não o menciono, o colega de judiciário e ex-marinheiro é capaz de ter um ataque lá em Garibaldi (comarca onde atualmente trabalha, e reside – casualmente em frente a uma cooperativa vinícola).

Bar Naval
(ou da “Navalha”?)

Quando a noite da vida nos invade,
Quando o escritório, a fábrica enlouquece-nos,
Quando a chatice patronal nos submete
É no “Naval” que a vida se refaz!

Quanto “exu”ou fantasma de outras eras
Se manifesta na hora do buteco!
Aqui se bebe, aqui se goza,
Aqui se vai
Ao paraíso pândego dos livres!

Porto Alegre, 7 de outubro de 2005

Ubirajara Passos

Publicado em: on 21/06/2007 at 1:12 am Deixe um comentário

DA CERTEZA METAFÍSICA DOS SENTIMENTOS

Vivemos em mundo dominado pela supremacia e infalibilidade do racionalismo formal, da lógica distintiva (e, portanto, o mais matemática, no sentido euclidiano e hermético, possível), que se amoldam perfeitamente às necessidades da produção e manutenção de máquinas e sistemas mecânicos e automatizados (e, conseqüentemente aos interesses dos dominadores), mas em nada atende à nossa natureza de seres sensíveis, surgidos da evolução de simples moléculas de carbono que um dia resolveram transgredir a velha inércia e aprenderam a se duplicar, a partir de reações com o meio circundante. Aliás, se nos aprofundarmos até o nível das partículas quânticas (os menores constituintes das partículas sub-atômicas, que se ora se comportam como matéria, ora como onda), tudo que encontraremos de certo é uma espécie de vontade expontânea e indeterminada, formando com as demais tudo quanto há no universo.

A mentalidade não-verbalizada, mas subjacente no quotidiano, pensamentos e decisões do menos adestrado na “cultura formal” de nós é de que a lógica consciente e organizada por princípios e operações materiais tipicamente algébricos (verdadeiras equações “qualitativas”) é absoluta e, a única ferramenta mental capaz de produzir conhecimento válido. A própria noção de “verdade” (embora assim não o deva supor necessariamente a razão matemática) aparece como o resultado mecânico de aferições “científicas” universais, inquestionáveis e acima dos raciocínios particulares de cada ser pensante.

As demais formas de consciência e conhecimento, como a intuição, a “ciência” empírica derivada da experiência subjetiva integrada ao longo de gerações (como a medicina fitoterápica tradicional, herdada da prática ancestral, a “meterologia caipira”, os sistemas filosóficos e cosmogônicos orientais) são relegadas à categoria de curiosidades “primitivas”, quando não totalmente invalidadas .

Nos embasbacamos, e celebramos na nossa escravidão mental auto-impingida, com o produto da ciência especializada (hermética para maioria) e matematizada, mas não percebemos o quanto nos tornamos, nas mãos dos donos que dominam não apenas a tecnologia do produzir e desvendar, mas principalmente a de nos induzir a tanto, meras peças da engrenagem automatizada (“mecanizada” seria um termo por demais desatualizado na civilização da informática onipresente) no jogo que produz a vadiagem e o luxo refinado e sádico dos patrões!

Não é casual que a expressão “cálculo” (e seu operador, o “calculista”) seja sinônimo de ação e reação “precavida”, propositalmente pensada para atingir os próprios interesses através da manipulação da crença alheia. O que exclui, como “prejudicial” e contrário à nossa sobrevivência, no mundo da competição, a manifestação autêntica e saudável das nossas emoções mais profundas e genuínas (os sentimentos).

No entanto, muito maior do que nossa capacidade intelectiva (desenvolvida ao longo de centenas de gerações desde o primeiro primata que se soube diferente do resto do mundo e teve consciência da própria existência e condição mortal) – que muitas vezes nos atira ao mar da perplexidade diante da vida concreta – são os sentimentos os mais genuínos faróis dos rumos que devemos seguir em nossas vidas.

Se é que há algo inquestionável sobre a face da Terra (o que é muito duvidoso) são as emoções vindas do âmago inconsciente de nossos cérebros e da memória, não condicionada propositalmente, de nossas células.

Quando nossas intuições e reações puramente emocionais (interações físicas e químicas internas do corpo frente às sensações e à consciência dos fatos externos) gritam de forma candente, ainda que inverbalizada e, muitas vezes, contrárias ao mais livre dos nossos raciocínios, poderemos até nos estrepar seguindo-as, porém, em noventa e nove por cento das vezes elas representam o que há de mais legítimo e benfazejo a nós, animais dotados da capacidade auto-organizativa tornada consciente. Mas sobretudo feitos de pura energia imanente, presente em cada par de genes da dupla hélice de DNA , desenvolvida e sofisticada ao longo de milhões de anos, não de forma ossificada e inalterável, porém, treinada nas mais diversas e infinitas circunstâncias, segundo o caráter de cada uma delas, e, por não estar sujeita à censura das ideologias alheias, capaz de reagir a cada novo fato sem o apego a velhas formas pré-organizadas.

A mente humana é muito maior do que os simples silogismos e estes são apenas a forma sistematizada de percepções e diálogos internos, em que interagem desde os sentidos comuns do corpo até os padrões emocionais e de concepções mais básicos ou decorrentes da atividade psíquica deliberada.

Não somos meras máquinas de raciocínio (caso em que um super-computador seria bem mais eficiente), nem simples organismos de sentir, sem nenhuma capacidade de elaboração e combinação de realidades concretas e fantasias (caso em que um asno no suplantaria). Mais do que aos questionamentos mais profundos e livres, portanto, dê poder à sua imaginação!

Ubirajara Passos

DOIS POEMAS BESTAS

Em 1991, aos vinte e cinco anos, após meses de pânico quase permanente no ano anterior, e curtindo a primeira grande depressão da minha vida, eu mal imaginava que, em menos de um ano, eu seria líder sindical e, em menos de dois anos, estaria irreversivelmente ligado às grandes batalhas do Sindjus-RS. Os poemas que seguem dão conta da minha incapacidade de tornar ação, então, os ideais em que cria, e a minha impossibilidade de voltar a escrever algo válido, quando eu não supunha que pouco havia até então escrito e o que viria depois.

 

POEMETO DO ARREPENDIMENTO

Não. Não é possível que a vida se me esvaia
Sem ter jamais ao campo de batalha
Arrojado-me, sequer, a perseguir ideais;
E, derrotado sem luta e sem vontade,
Veja cair-me uma a uma as máscaras
De que cobri, em atroz engano, a face,
Vivendo a iludir-me e ao mundo
Na promessa vã, hipócrita, infinda
De principiar a grandiosa jornada;
A transformar-me a vida em imensa farsa.

Gravataí, 11 de maio de 1991

Ubirajara Passos

 

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ENLEVO FUGAZ

Ao iniciar da longa madrugada
Cantam os sapos nos longínquos banhadais,
Trazendo-nos à nostálgica memória
Velhas histórias e pungentes ais.

Sob a gélida e nívea cerração
Na invernal noite, melancólicos
Entoam velhos temas ancestrais,

A mergulhar-nos em vagos devaneios,
Fazendo-nos sonhar com tênues sentimentos
Que perderam-se na noite azul dos tempos

Gravataí, 26 de maio de 1991

Ubirajara Passos