O CAUSO DO EDIL QUADRÚPEDE

A História se passou lá pelas bandas do Planalto Médio, e quem contou jura que é verdade. O cara era um “véio abusentado”e “quereca”, destes que toma “iorgute” (será que é feito de leite coalhado vendido no Orkut?) e come “mortandela” (aquele fatiado de carne de cadela, cujo consumo leva à morte na certa!). Usa óculos “fofocais” (pra xeretar a vida dos vizinhos à distância, provavelmente) e já passou pelo “binsturiu” do “cerorgião” (deve ser especialista em técnica médica revolucionária: ao invés de usar lâmina, se abre a pele com “cera quente”) por causa de uma “peniscite aguda” (que deve ser doença braba: pelo que se conta teve de extrair o “apênis” – e creio que não fode mais!), além de falar “gúia” ao invés de agulha.

Mas a vocação de intrometido na vida alheia, o esmero do puxa-saquismo e a verve desbocada, furiosa e imbecil com que defendia o “perfeitio” nas plenárias do Orçamento Participativo acabaram lhe valendo (junto com as “pererecas” – dentaduras postiças – e ranchos doados na vila, à custa de recursos públicos) um mandato de vereador pelo partido do Inácio.

Uma vez eleito e empossado, entretanto, de um dia para o outro perdeu a lábia, como papagaio de padre pedófilo que foi forçado a substituir catecúmeno. E eis que – diante da magistral oratória de seus colegas parlamentares, bem mais instruídos que ele (alguns eram verdadeiros eruditos, como o poeta político que iniciou sua intervenção se congratulando por pastar com os demais edis nos “asníferos” campos da Câmara Municipal) – permaneceu mudo e calado durante dois longos anos. O máximo que se permitia eram apartes para declarar: “eu voto com o perfeitio”.

Até que um escândalo denunciado pelo jornaleco local (a descoberta de um antro de travecos juvenis num barzinho obscuro do centro da cidade, freqüentando por menores, e inclusive alguns figurões “tradicionais) levou-o, um belo dia, a proferir caudaloso e trepidante discurso contra o absurdo do “homossexulismo infantil” surgido na impoluta comuna. A cultíssima platéia entusiasmou-se, e por pouco o edifício do parlamento municipal não veio abaixo (literalmente), tamanho o estrondo de aplausos, brados e relinchos, que fizeram tremer as paredes do vetusto prédio.

Mas, no auge da coisa, se ergueu o líder da minoria, tido como o mais culto dos vereadores locais (justamente o da metáfora poética zurrante), e de revólver em punho, após derrubar umas três tábuas do teto, atirando para cima, dirigiu-se furibundo contra o nosso herói e lhe deu uma descompostura: “Onde se viu, meu senhor? Que safadeza é essa, seu anarfabético de pai e mãe? Só puderia mesmo sê coisa de vermeio bagaceiro e sovado na canha! Tudo bem que o bar funciona sem arvará da perfeitura, não paga IPTU e tá lotado de veados sem-vergonha, até uns do seu partido! Agora, esse negócio de “homossexulismo” já é demais! É uma afronta sem perdão pros varãos gaúchos aqui do munecípio! O que tem putão a vê com o nosso heróico “Sul”, meu preclário senhor ? Esse negócio de veadagem é lá coisa típica do centro do país ou dos Nordéstios! Que vossa inselença falasse em homossexudestismo ou homossexunordestinismo vá lá! Ou senhor retira o desaforo, ou passo bala!”

O infeliz saiu em disparada e até hoje ninguém sabe mais da criatura. Há, entretanto quem diga que – borrado de medo e humilhado – se mudou para Brasília, e tendo feito um curso intensivo de Gramática, foi visto assessorando o cerimonial do Ministro da Cultura.

Ubirajara Passos

PERFIL “FRONTAL” DE UM DOIDO EQUILIBRADO

O “Caiu-Sim-Mermão” (o amigo preferido do Peruca), após ler o post anterior, me enviou um candente recado: adorou a crônica, mas não gostou nem um pouco da difamação da vovozinha. A mãe de sua genitora não era nenhuma imoral irresponsável e não morreu fazendo racha. Ao invés de tal pouca vergonha, a “pura” verdade é que a inocente velhinha morreu no recente assalto ao banco Real, em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre.

E, antes que alguém pense que ela era uma covarde, o neto se apressou em avisar: ela não foi vítima dos bandidos, nem achada por uma bala perdida, mas foi dar uma mão para a quadrilha (que estava levando uma surra no tiroteio com a polícia) e acabou crivada de balas pela Brigada Militar! E me pediu, orgulhoso, que divulgasse o restante de seu perfil no Orkut – o que, diante de tão imperiosa solicitação deste ilibado e austero companheiro, faço com o maior prazer:

• relacionamento: solteiro(a)

• aniversário: Agosto, 2

• interesses no orkut: amigos

• quem sou eu: Os status abaixo estão organizados por ordem de freqüência.
[ ] Preso
[x]Foragido
[ ]Na condicional
[x]Bêbado
[ ]Coma Alcoólico
[ ]Furtando algo
[x] Envolvido com o crime organizado
[x] Planejando algo ilícito
[ ]Sóbrio
[ ]Em dia com a lei
[ ]Na igreja
[ ]Fazendo caridade
[ ]Trabalhando
[ ] Estudando
Só falo na presença de meus advogados!
auhauahuahauhuahau
Segundo a lei sou um meliante de alta periculosidade foragido do presídio de charqueadas.
Sou um cara que não tem vícios. Só fumo e bebo quando eu jogo!

•filhos: sim – moram comigo

•etnia: Ilhas do Oceano Pacífico

• religião: Hindu

•visão política: apolítico

• humor: extrovertido/extravagante, seco/sarcástico, inteligente/sagaz, simpático, pateta/palhaço, misterioso, rude

• orientação sexual: heterossexual

• estilo: alternativo, casual, uso roupas de estilistas famosos

• paixões: amigos,esportes,mulheres,dormir,pequenos furtos,entre outros

• atividades: Atualmente sou sócio da empresa Parque Hey, Lee! Cia. Ltda., uma empresa com foco principal na prestação de serviços, mas atualmente também introduzimos algumas atividades comerciais:
-fazemos rinhas de galo
-botamos caça-níqueis
-conserta-se gaitas
-desbloqueamos aparelhos eletrônicos
-fazemos jogo do bicho
-expulsamos inquilinos inadimplentes
-cobramos dívidas
-trocamos/raspamos n.º de chassis
-temos desmanche
-compramos cobre, ouro, urânio
-limpamos nome no SERASA e SPC
-falsificamos documentos
-demolição civil ilegal
-jogamos búzios e tarot
-fazemos consultas espirituais
- fazemos psicografias
-tiramos/botamos olho gordo
- Temos Arbitragem
- vendemos terreno no céu, na lua, e no fundo do mar, entre outros
Entrei também como sócio recentemente em uma boate em Gravataí: La Cucaracha Drink Bar.

• música: pólvora e chumbinho ( a dupla que é um tiro)

•programas de tv:
Chaves e chapolin
Siga bem Caminhoneiro
Globo rural
Telecurso 2000
Campo e Lavoura
Galpão Crioulo

•cozinhas: Gosto daquelas que têm fogão e geladeira!!

•ensino: Pós-doutorado

• profissão: Ginecologista

• setor: Cuidados Médicos e de Saúde

• descrição do trabalho: é um trabalho muito prazeroso!!!

• par perfeito: outra mulher

•cor dos olhos: verdes

• cor do cabelo: castanho claro

•do que mais gosto em mim: olhos

•que me atrai: piercing(s), luz de velas, dançar, material erótico, flertar, cabelos compridos, demonstrações públicas de afeto, nadar nu, tatuagens, aventura, riqueza material

• que não suporto: homens

• primeiro encontro ideal: que tenha sexo … e de preferencias com 2 lésbicas gostosas

• com os relacionamentos anteriores aprendi: nada

• cinco coisas sem as quais não consigo viver:
sexo
putaria
mulher
oxigênio
comida
• no meu quarto, você encontra: melhor dizer o que não encontrará.

Antes que algum leitor duvide, alerto novamente: os dados acima são absolutamente verídicos. Amanhã volto com o que me vier à telha.

Ubirajara Passos

UM ORKUT DO CARALHO

O amigo do Peruca, o Caiu-sim-mermão (aquele mesmo que me propôs a franquia pirata do perfume alemão “Vulva Original”), é a própria encarnação da ironia e do sarcasmo. E, com seus dezenove anos de safadeza verbal militante (que já nasceu tirando sarro do obstetra e da parteira), já fez tantas que nem sei como chegou a tão longeva idade.

Outro dia, tendo faltado à aula devido à morte da octagenária avó (que realmente havia morrido, a coitada), após receber os pesarosos cumprimentos hipócritas dos baba-ovos e falsos moralistas de sempre, questionado sobre a causa mortis da saudosa senhora (um câncer em órgão que agora não me lembro), respondeu, com o mais debochado sorriso, que havia sido de acidente automobilístico. E, quando os “preocupadíssimos” companheiros de faculdade lhe perguntaram se a anciã havia sido atropelada, rematou: que nada, a velha inventou de fazer um racha com o Zé Doidinho e se espatifou contra um muro, cantando o funk da Injeção!

Mas seu último e, até agora, maior feito foi esculhambar de vez o Orkut. Entre outras canalhices, publicou a seguinte lista de filmes preferidos (que é real, e não fabulação deste humilde cronista):

EMBOSCADA ANAL NA POLINÉSIA
Garganta Profunda, o Retorno
MALU – A RAINHA DO ANAL PISCANTE
O Playground do prazer
Orgias do Carnaval 2004
GOZANDO EM ALTO MAR
LILI MANIVELA
2 Filhas de Chico
A MÃO QUE BALANÇA O BRÁULIO
XEREQUITAS
ÂNUS DOURADOS
AULA PRÁTICA DE MERGULHO ANAL
DESBRAVAMENTO DE BUNDA
INTERCÂMBIO SEXUAL
JORRADA NAS ESTRELAS
KID BUNDA
O DIÁRIO PROIBIDO DE SILVIA SAINT
PASSANDO A VARA #4
PASSEIO ANAL DE BICICLETA
PEGANDO NO CIPÓ
PORNOCASSETADAS
TROMBADINHAS TESUDAS
SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO PENETRADA!
RODÍZIO DE POPOZUDAS! (EL MATADOR ABRE O APETITE!)
OLÉ! LIBEREI NO MÉXICO – 2
INDIANA XÃNA
“GANHEI NA LOTERIA E FUI GOZAR EM BORA-BORA 2″
CONFISSÕES ENTRE COXAS
“QUEM VAI FICAR COM AS POPOZUDAS DO CARIBE?”
EXPERIMENTO URANUS 3
OPERAÇÃO BLITZ ANAL

Como se vê é um saudável e romântico repertório erótico, digno de admiradores do longa-metragem de Marlon Brando, Don Juan de Marco. Muchísimas gracias, y hasta la vista.

Ubirajara Passos

A BÊBADA E O DESMEMORIADO BESTA

RecémTorre de TV em Bras�lia-chegado de Brasília, após uma exaustiva viagem de quatro dias na caravana de manifestantes que protestaram contra a Reforma Previdenciária do Inácio, no último dia 24, me joguei na cama, às oito horas da noite de sexta-feira. Desde a noite de segunda-feira estivera, na maior parte do tempo, parafusado a um banco de ônibus (com exceção da permanência de dez horas no Distrito Federal e das paradas para rápido lanche, banho e exercício da cagada, proibida no banheiro do coletivo), o que justifica a completa ausência de posts novos durante a semana.

Assim, curtido do trago necessário a suportar a viagem de ida e volta de Porto Alegre até o Planalto Central, dormi direto até a meia-noite, quando, ainda estonteado e, vítima da ressaca da bebedeira de retorno, me acordei com o celular berrando-me ao ouvido uma maldita rumba que atende pela qualificação de toque de chamada. Televisão ligada, com o volume a todo vapor (sintonizada no programa especial da TVE gaúcha sobre Nara Leão), mochila desfeita às pressas, com o quarto inundado de roupa, utensílios e papéis jogados pelo chão, após alguns percalços, acho o maldito telefone e, apesar de não reconhTelefone a milecer o número estampado no visor, o atendo na maior lerdeza.

Do outro lado da linha uma voz feminina, na maior euforia, me saúda aos gritos: “Grandeeeeeeeeeee Biraaaaaaaaaaaaaa!!! Tu não morre mais! Tu não morre mais!”

Completamente atordoado, vou logo perguntando quem fala, mas a criatura, ensandecida, continua:

— Quantas mulheres tu já comeu hoje?

— Hã… ah, comi só uma, mas quem é que tá falando?

— Tu não sabe, quem sou eu? Ô Bira! Tô te esperando aqui no nosso boteco pra gente conversar!

A esta altura imagino quem diabo pode ser a figura, cuja voz não me é estranha e demonstra tanta intimidade, mas não consigo atinar por sua dona: pela verve e o estilo espevitado, ou é alguma puta de que esqueci a identidade ou uma advogada de Gravataí, amiga minha, tão desbocada e irreverente quanto eu — e velha filha de santo de terreira de umbanda. Mas a última hipótese é praticamente impossível, não iria me ligar à meia-noite, e a primeira é um tanto incodizente com as circunstâncias: todas minhas companheiras de foda remunerada só me encontram no bordel, nunca cheguei a levar nenhuma para mesa de bar. E aí, a próxima tirada piora a minha dúvida:

— Por onde andas? Aposto que tu estás numa reunião do PDT , discutindo sobre o velho Brizola! (E agora, porra: a criatura me conhece mesmo, e bem!, que diabo é isto?)

— Não… eu não faço mais estas coisas… Mas quem tá falando?

O diabo “reinador”, com uma loucura fora do comum, responde com uma frase desconexa, que não entendo, e arremata:

— Tu tá aí ouvindo uma televisão… tu não sabe quem sou eu? Muito magoada vou te dizer… O que foi e poderia ter sido? (e, entre os risos e gritos audíveis do outro lado da linha, comenta a meu respeito: ele tá completamente bêbado!)

Pinga na linha

— Pô, bicho, tu podias se identificar?

— Eu, eu sou uma ex-presidenta tua, ou melhor “coordenadora”!

A esta altura, não estivesse ainda abestalhado de sono, e entontecido pela metralhadora verbal, facilmente saberia de quem se tratava. Mas cheguei ao absurdo de divagar na possibilidade de ser a velha ex-presidente do sindicato, apeada do cargo pelos pelegos em 1992, que mora há anos em Florianópolis. Mas não podia ser, nunca fomos tão próximos assim. Quem era aquela doida furiosa que me conhecia tão bem?

— Não reconheci quem fala ainda!

— É a Fulana*, taipa! Me lembrei de ti e resolvi te convidar pro buteco!

— Ah, a Fulana*! Mas tua voz tá tão diferente!

E antes que eu pudesse despertar do torpor, a ex-Coordenadora Geral do sindicato, que concorrera à reeleição na mesma chapa que eu, com que fizera campanha junto, comungava crenças políticas e confissões mútuas sobre as nossas vidas amorosas, e muita cerveja entornara desde o início de seu mandato, desliga, puta da vida, o telefone na minha cara.

Ubirajara Passos

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*: após tanto mistério, não revelarei seu nome sem autorização…

Publicado em:  on at 12:49 am Comentários (1)

A ARMA SECRETA DO PERUCA

É incrível a repercussão da crônica “Buceta Transgênica”. Os acessos a este blog pularam, em questão de dois dias, de 320 para 688 visitas diárias – atingindo o recorde neste ano e meio de existência. E muitos amigos me sugeriram vantagens e utilidades para o uso do tal “perfume de buceta” que eu sequer imaginara.

O Alemão Valdir, por exemplo, me garantiu que o líquido poderia ser utilizado como meio de dispersão de reuniões e marchas fascistas. Se já existisse em março de 1964, a famosa marcha das matronas recalcadas “com Deus, pela Família e a Liberdade”, realizada, em São Paulo contra o governo de Jango, para corroborar o golpe que instalaria a ditadura fascista (da qual o Inácio participou), poderia ter sido dispersada (sem sequer a necessidade de intervenção ostensiva e violenta, que não houve) simplesmente se jogando litros do aroma industrializado sobre os manifestantes, os quais, em razão de sua furibunda psicologia anti-prazer, patriarcal e autoritária, disparariam descabelados rua a fora. E quem sabe o golpe que deformou o Brasil até hoje poderia ter sido evitado…

Aliás, o velho revolucionário crê mesmo na capacidade transformadora da essência de perereca sobre as massas humanas. Bastaria uma meia dúzia de homens-buceta dispostos a dar vida na missão de borrifar toneladas dela sobre os exércitos de ocupação do Iraque ou Haiti, por exemplo, para tontear, embasbacar e colocar fora de combate soldados yankees e brasileiros!

O próprio Congresso Nacional, apodrecido na sacanagem dos mensalões e na impunidade dos Renan Caralhos da vida, poderia ser facilmente derrubado pela presença em plenário de algumas voluntárias embebidas do líquido. O que não seria diferente nos altos escalões do Judiciário. Parece que a única dificuldade de semelhante técnica seria utilizá-la contra o Inácio e seus ministros, que – de tanto meter no rabo do povo brasileiro – andam curiosos quanto à sensação de dar o cu e, para que ninguém diga que aplicam à nação um remédio que não dariam a si mesmos, já tomaram providências médicas para se tornarem imunes aos encantos femininos.

Um amigo do Peruca, quando soube do lançamento do miraculoso produto, através deste humilde blog, não dormiu uma noite inteira e veio (enjoado e cretino) me acordar de madrugada com a bombástica idéia: como o preço do troço não é tão caro assim (o que são meros R$ 50,00 para um frasco de tão precioso elixir quando a pequena-burguesia faz questão de gastar o mesmo valor para usufruir de uma simples “buchinha” de cocaína?), podíamos encomendar dezenas de vidros e estabelecer uma franquia “pirata” no Brasil. Não ía ter motel nem cabaré que não pagasse o triplo do preço para dispor do produto! Sem falar, é claro, na possibilidade de se fundar uma nova igreja redentora… dos bolsos de seus pastores: a “Igreja Inter-Galática da Putaria das Xoxotas das Últimas Fodas”, cujos cultos seriam realizados sob a influência hipnótica e catalisadora do “incenso de checheca” e irmanariam machões e lésbicas sob a mesma comunhão.

Mas a pior besteira (pra variar) foi a do Peruca. Cansado do assédio do Traveco, que acabou se “apaixonando” pelo bolso do estagiário e lhe extorque, sem dó nem piedade, noventa por cento do salário em troca de seus carinhos, o meu lerdo colega de trabalho resolveu tomar vergonha na cara e romper a anômala relação, não pelo auto-convencimento, mas afastando o “amorzinho”.

E, depois de mil peripécias para a aquisição, se banhou dos pés à cabeça de “Vulva Original” e, marcado o encontro, se dirigiu para o obscuro motel na estrada de Taquara.

Ia doidão, rindo como putinha nova que recebeu o primeiro presente do presidente do Senado, e entusiasmou-se tanto que nem lembrou de verificar o indicador de gasolina. Até que, de improviso, o carro resolveu negacear e, quem sabe já contaminado da febre gay do dono, se recusou a seguir diante do funesto cheiro!

No meio da madrugada, sem pai, nem mãe, nem vovozinha, o Peruca resolveu descer e procurar socorro no rancho mais próximo, sinalizado pela fraca luz de uma lâmpada incandescente. É bem verdade que entre ele e a casa de madeira havia uma dúzia de guampudos touros pastando. Mas estava tão senhor de si que nem titubeou. O que era aquele bando de “boizinhos brochas” pra ele que era “macho pra caralho” (porque “macho que é macho toma no cu e não reclama – e ainda rebola só pra tirar um sarro do inimigo!”)? E assim, roupa meio lanhada pelo arame farpado (que pra manter a honra de boca-aberta se enredou na cerca), teso e resoluto, o Peruca viu-se cercado pela tropa de gado assanhada, os touros resfolegando, olhos esbugalhados e brilhantes a iluminar a noite escura, os cascos arremessando ao longe tufos de capim, e, dizem as más línguas da cidade, depois de correr uns dois quilômetros, se deu por vencido e, desde então, está livre do Traveco. O único problema é que se viciou em zoofilia!

Ubirajara Passos

O PEIDO E O AQUECIMENTO GLOBAL

É inacreditável, mas a babaquice “ecologicamente correta” anda solta nas ondas rádio-televisivas da mídia burguesa e seu furor “hidrófobo” é tão forte que nem a carrocinha do deboche rebelde é capaz de detê-la.

As indústrias sediadas na nação yankee são responsáveis pelo grosso (45,8%!) das emissões mundiais de dióxido de carbono (o popular gás carbônico) e metano – os principais gases geradores do “efeito estufa”, que vem aumentando a temperatura média da Terra e poderá determinar tragédias como o derretimento das calotas polares, o conseqüente aumento do nível oceânico e a sumbersão de cidades litorâneas, como Rio de Janeiro e Nova York (só para citar duas das maiores aglomerações humanas à beira-mar).

Os processos industriais pesados envolvem fontes riquíssimas em emissões de carbono, como a combustão de petróleo, e sua concentração no território norte-americano torna os Estados Unidos o campeão do aquecimento global, ainda que o governo americano venha cagando e andando há dez anos para o “Protocolo de Kyoto” (o Tratado Internacional, firmado na cidade japonesa, em 1997, que prevê a limitação da emissão de gases poluentes nas grandes nações imperialistas e que, dentre elas, só não foi assinado pelos United States of America).

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A “inocente” mídia burguesa, entretanto, bate diariamente na nossa responsabilidade individual pelo drama ecológico presente e futuro, absolvendo o imperialismo econômico yankee, e nos jogando toda culpa pelo “pecado” da agressão criminosa da “mãe Terra”.

A diminuição da câmada de ozônio (a parte da atmosfera que filtra os raios ultra-violetas, nos protegendo de sua ação nociva), por exemplo, é apresentada como conseqüência do uso dos desodorantes aerosóis com que perfumamos o suvaco (e que lançam ao ar os gases “CFC”, destruidores da referida camada, e entre os quais figura, casualmente, o carbono).

E as dolorosas e meigas dondocas, profissionais liberais “emancipadas” e donas de casa da nossa pequena-burguesia (sem falar nas professorinhas e monitoras de creche) saem por aí reproduzindo a asneira e recomendando, com a boca aberta de espanto e os olhos esbugalhados, que as criancinhas fechem a torneira enquanto se ensaboam, ou um dia a água acabará (esta é outra falácia bem mais sacana, que envolve interesses mais escusos ainda, e que abordarei outra hora).

Neste passo, e dada a propensão do capitalismo “pós-moderno” (que é apenas uma entre tantas formas da sociedade autoritária) em controlar os menores aspectos da vida dos indivíduos, muito me admiro que os governos e a elite dominante não tenham regrado ainda a emissão de tais gases pelo ser humano.

Ninguém se espante se o governo fascista do Inácio (que é campeão mundial de intromissão na individualidade, tendo ressucitado a própria censura prévia aos programas de televisão), não tendo como impedir, por decreto, a maioria miserável dos 170 milhões de brasileiros de respirar (afinal é muita gente espirando COO peido criminoso do homem ²), venha a limitar, legalmente, a “emissão de peidos” (que são perigosíssima fonte não apenas de carbono, mas principalmente de metano).

E aí a farra vai ser grande! A Fazenda da União, de estados e municípios poderá estourar seus cofres com o produto da arrecadação de multa sobre a liberação da flatulência intestinal. As rendas deste possível tributo aumentarão vertiginosamente a arrecadação nos Estados do Sul do Brasil, onde há predominância do consumo de chucrute, a ponto de resolver a velha crise financeira de governos como o gaúcho (não sei até como Yeda ainda não teve a idéia de criar o imposto sobre o traque). E poderão, mesmo, desencadear uma nova “guerra fiscal” entre Sul, Sudeste e Nordeste (vai ter muito Estado importando pedorreiros do Rio Grande e Santa Catarina para incrementar suas rendas). A coisa pode vir a inflacionar até mesmo a taxa do mensalão.

Além, é claro, do grande efeito civilizador de tal tributo. Se a ventosidade for bem taxada, poderá resultar na adoção eficaz de “bons modos” por 90% da população (cujos minguados salários não permitirão pagar o imposto), restringindo o privilégio do nefando hábito à minoria rica e refinada, que sabe exercê-lo com a devida parcimônia.

Mas a penalização do peido poderá também servir de incentivo à indústria nacional de baixo custo. Quanto pequeno e médio empresário não poderia se estabelecer e prosperar se a lei obrigasse os pedorreiros a circularem na via pública munidos de um “catalisador de gases animais” acoplado ao cu?

O grande risco, entretanto, é a turma do Lula achar que tais medidas são insuficientes ao combate à criminosa atividade e resolver tornar o peido crime hediondo e infiançável – o que não beneficiará nem mesmo os advogados de porta de cadeia e pode gerar uma complexa jurisprudência para definir as formas atenuantes ou agravantes dos diversos tipos e fedores do novo crime ecológico.

Ubirajara Passos

BUCETA TRANSGÊNICA

O imperialismo capitalista, insatisfeito em alugar nossos corpos e mentes para a execução do trabalho penoso e geração da sua requintada vadiagem, acaba de se apropriar da própria biologia humana, para júbilo da vigarice institucionalizada das patentes e royalties!

Não se trata de nenhuma clonagem “industrial”, nem da fabricação genética do “homo hibridus braçalis ” (o ser humano condicionado geneticamente para trabalhar obrigatoriamente como operário, nascido, de berço, sem vontade ou tesão e com QI e capacidade emocional pré-programados para não ir além de suas tarefas laborais, não especular ou questionar sobre nada, nem revoltar-se, mas pronto para obedecer, sem pestanejar, as ordens de seu dono).

Mas, a moda do milho híbrido (que se impôs no mercado ao popefume de bucetanto de extinguir-se o milho nativo, criando a dependência da sua compra para obtenção de sementes do grão – que, por transmutadas, não reproduzem novo pé quando plantadas), da soja transgênica e da essência de ervas medicinais sintetizadas em laboratórios multinacionais (cuja utilização do princípio ativo só é possível mediante pagamento de “direitos” ao vigarista proprietário do laboratório farmacêutico), uma indústria alemã acaba de lançar nada além do que o “Perfume de Buceta”.

O produto, denominado sugestivamente de Vulva Original, foi desenvolvido, após um ano e meio de exaustivo trabalho, a partir de “substâncias orgânicas” (conforme entrevista do diretor de marketing da firma, Guido Lenssen, concedida à Playboy deste mês) e pode ser adquirido no site da empresa (www.vivaeros.com), mediante a módica quantia de € 19,90 (o equivalente, na cotação de hoje, a R$ 50,60, ou seja, um programa de uma hora na zona do baixo meretrício).

 

Assim os punheteiros de gosto requintado, fino trato e bolso fornido, poderão lotar de calos as suas macias mãos, sob a inspiração glamurosa e aromática de bucetas européias de boa procedência, sem ter de despender dinheiro e tempo em caros vôos internacionais. E as madames de alto coturno, fútil e delicada finesse (e robusta fortuna), tão desprovidas, porventura, de “encanto feminino” (e tão semelhantes a orangotangos), que nem a sofisticação fascinante de seu saldo bancário é capaz de seduzir o mais duro papeleiro ou o mais chapado bêbado, poderão se tornar lobas devoradoras de homens, irresistíveis fêmeas fatais, pela simples aplicação da miraculosa colônia em sua pele!

Mas a coisa vai muito além do que se imagina: com a sanha de lucro e dominação de que são dotados nossos ilustres burgueses internacionais (a alta rafuagem), qualquer dia uma pobre puta da rua Garibaldi, em Porto Alegre – ou uma laboriosa e sofrida colona do interior de Porto Lucena (destas que trabalha na lavoura de sol-a-sol, e bota no chinelo muito agricultor machão) – terá de tomar vinte banhos por dia ou ensopar a checheca de “Chanel n.º 5″ (o mais clássico e famoso perfume chique do mundo) para não ser condenada a pagar royalties para a “Vivaeros” pela exalação pública do cheiro de sua buceta.

                                                                                                                                                                                          E não tardarão a surgir movimentos nacionalistas e politicamente corretos destinados a defender a bio-diversidade vaginal brasileira. Os demagogos criadores de ONGs passarão a ter um campo fértil para se candidatar a uma vaguinha no parlamento federal, e, quem sabe, um deputado do Partido Verde, ou até um esperto parlamentar petista a serviço da “indústria nacional”, se não o próprio Inácio, não tratem de elaborar projeto-de-lei destinado à proteção legal da bio-diversidade das xoxotas nacionais, para as quais se emitirá o selo de certificação, e a reserva de mercado às empresas brasileiras, dos diversos tipos de odor de buceta – da índia, mulata, loira à nissei e polaca.

O “poder público” terá mesmo de regrar a competição neste novo e promissor mercado (cuja variedade de buquês é infinita: poderá se produzir essências como colônia de buceta mijada, odor virginal de perereca e perfume de “perseguida esporrada em êxtase”) e impedir, por lei, o monopólio do perfume de crica. Cuja cotação, aliás, tenderá a subir bem além do cachê das famosas da Playboy e beneficiará economicamente, pela diversidade, até mesmo as bucetas mais populares, usadas e carentes de embalagem sedutora. Quem sabe não será uma alternativa à prostituição formal (o cabaré e a zona) e informal (o casamento burguês)? Afinal renderá muito mais ceder os feromônios, e os líquidos da própria perereca, do que alugá-la como puta ou vendê-la como esposa.

Ubirajara Passos

DA GREVE GERAL REVOLUCIONÁRIA À GREVE PERMANENTE

Um dos grandes sonhos do anarco-sindicalismo era a derrubada do Estado, do Poder e do capitalismo pela Greve Geral da classe trabalhadora, que seria o único instrumento revolucionário libertário legítimo – já que a revolução armada (a única, até hoje, historicamente ocorrida) ou a eventual mudança de regime pela via eleitoral (da qual a eleição de Allende, no Chile, nos anos 1970 foi uma experiência inédita e não repetida, frustrada pelo golpe ditatorial que derrubou-o) constituem-se em assalto ao poder, preservando o Estado e o fundamento autoritário que mantém a sociedade de classes.

Tal greve, entretanto, parece, por princípio, algo contraditório e ineficaz. Pois toda a paralisação de trabalho pressupõe a pressão sobre a classe proprietária a fim de forçá-la a ceder às reivindicações da peonada, o que implica, inapelavelmente, após o seu fim, e atingido o objetivo, na continuidade da existência de patrões e escravos assalariados, ainda que aos últimos sejam garantidos alguns avanços sócio-econômicos, arrancados à força da classe que continua a dominar a maioria trabalhadora.

Uma greve para decretar a extinção da burguesia e do poder institucionalizado que administra suas disputas internas e sistematiza a dominação dos trabalhadores (o Estado e suas instituições formais, as leis, e culturais, a ética e as cartilhas de comportamento e pensamento padronizados), é portanto, algo terrivelmente estranho!

Pois se a grande maioria, os que movimentam o mundo com seu trabalho quotidiano, tiver tomado consciência de que, além de sua condição de “escravos” da classe “proprietária”, o status patronal desta só existe porque seus subjugados nele crêem, e que o mando de patrões e chefes nada cria (mas é o trabalho humano dos dominados o responsável pela produção dos meios materiais e intelelectuais de sobrevivência e atendimento das mais diversas necessidades), basta que os trabalhadores mandem à merda seus algozes, passando a administrar eles mesmos o seu trabalho, e a se apropriar de seu produto, ao invés de permitir que este vá inchar os fofos bolsos burgueses!

Não há, nesta hipótese, nenhuma necessidade de “convencer” a burguesia a aceitar a revogação de seu poder social e a instituição da auto-gestão coletiva dos meios de produção. E a revolução, neste caso, se dará, fundamentalmente, antes de mais nada, no interior das consciências livres e questionadoras, restando à greve geral, à gargalhada gaiata ou ao peido coletivo da classe dominada, o mero caráter de ritual concretizador do que já tiver se estabelecido no âmago dos corpos, mentes, da alma e das emoções dos escravos assalariados auto-libertados, rebelados e conscientes!

Haverá quem, com toda razão, julgue que o anarquista aqui caiu num ataque de utopia infantil e acredita em contos de fadas. Afinal contra a rebeldia revolucionária ,se manifeste ela na greve geral, na desobediência mais ou menos generalizada às “ordens” e regras de chefetes e patrões e na auto-organização da peonada (que corre o risco de recriar o domínio e a exploração se não estiver alicerçada no ânimo libertário interno da grande maioria), pode ser facilmente utilizada a ação das forças repressoras de que o Estado formal se arroga o monopólio, como polícia e forças armadas, e derrotada a revolução. Mas a pura verdade é que a massa de tais forças é composta de peões, de trabalhadores tão explorados e submetidos quanto os demais! A condição da existência da sociedade de classes, e do Estado (o poder, a força bruta dos senhores institucionalizada e tornada abstrata e extra-humana, “divina”, as deusas leis, pretensamente filhas da vontade popular nas “democracias”), se prova, mesmo nas circunstâncias de repressão armada, é a aceitação do explorado, que antes de ser “submetido” pelos senhores, escraviza-se ele próprio em sua mente. Pois são os próprios trabalhadores que, na forma de militares, policiais, gerentes, chefes, fiscais, monitores, pais, clérigos e “autoridades” formais ou sociais de todo tipo servem de braço executor da vontade de domínio dos burgueses. E não há exército capaz de se opor, por maior força e competência que possua, à grande maioria explorada, se esta, consciente e auto-determinada, se rebelar contra sua condição.

A velha idéia da greve geral libertadora perde, neste caso seu sentido e cede à mais óbvia das realidades realmente revolucionárias, ainda que na forma metafórica: a “greve permanente”. Se quisermos usufruir do prazer e do conforto de nossos corpos e mentes, de nossas emoções e do diálogo e relação mútuo e enriquecedor no seio da espécie humana, a primeira e fundamental condição é nos rebelarmos contra o trabalho compulsório, exercido sob as patas concretas e institucionais de patrões e agentes políticos formais. É jogar a ética do altruísmo auto-flagelante e da submissão barranco abaixo e decretar greve permanente contra exploradores e “autoridades”, chefes e controladores de todo tipo. É não trabalhar, nem pensar, dormir, fuder e organizar nossas vidas em torno das prioridades de sádicos, vadios e “refinados” patrões e administradores. Mas amar, viver, raciocinar, sentir e trabalhar por nós e para nós próprios, na interação enriquecedora e prazerosa do aconchego e da divergência livre e mútua.

Pois o “outro” pode ser mais forte e tirar nossas roupas, armas, ferramentas, nossas casas e até nossa vida! Mas, por mais condicionados psicologicamente e mistificados que sejamos, a nossa capacidade de pensamento, de sentir, raciocinar, questionar e decidir é só nossa, habita o interior de nossos corpos, não há poder capaz de nos subtraí-las e é só pela nossa colaboração semi-consciente que nos fazemos escravos de interesses que não são os nossos, de regras que não críamos, nem deliberamos, mas nos foram impostas no proveito dos dominadores, e que, assim como as aceitamos, podemos rechaçar a qualquer momento! E se não o fazemos, mantendo o atual estado de coisas, é muito mais pelo nosso empenho em oprimir e vigiar uns aos outros, no estrito cumprimento da vontade dos senhores exploradores, do que pelo poder imaginário de que eles dispõem.

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 09/10/2007 at 1:12 am Comentários (1)

CHE GUEVARA CONTINUA INCOMODANDO 40 ANOS DEPOIS DE SUA MORTE

Ernesto Guevara de la Serna, o determinadíssimo e incoercível guerrilheiro latino-americano, morria em 8 de outubro de 1967, na selva boliviana, odiado e temido pelo imperialismo americano e pela burguesia transnacional, contra os quais dedicou sua vida, na revolução armada, sem vacilar, até o ponto de ser capturado, fuzilado e sepultado numa cova clandestina e coletiva no coração da América do Sul. O pavor do imperialismo era tão grande, que não podia preservar sequer a identidade do cadáver de seu grande inimigo. E para exorcizar definitivamente o homem que deu a vida em prol da libertação, ainda não alcançada, da humanidade da escravidão assalariada, a mídia burguesa tratou de eternizá-lo na forma de inócuo e inofensivo ícone pop, presente em todas as estampas de tecidos e nos mais diversos badulaques, como chaveiros e canetas – até mesmo em calcinhas e no biquíni usado pela perua Gisele Bündchen em um desfile de moda (o que bastou para escandalizar a redação da filial brasileira do grupo americano Time-Life, a revista “Veja”, desta semana).

Sob o título de “Che, a farsa do herói – verdades inconvenientes do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte”, a servil e direitosa revista “nacional”, editada no último dia 3 de outubro, se esmera em matéria de capa, que ocupa 10 páginas, em apresentar o Che como um fanático comunista comedor de criancinhas, “assassino cruel e maníaco”, “apologista da violência, voluntarioso e autoritário”, cujo “retrato clássico – feito pelo cubano Alberta Korda em 1960″ “foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas”.

Para tanto o periódico, sem mencionar o profundo senso de justiça social, humanidade, e a ingenuidade da dedicação ao “trabalho voluntário” braçal por ele exercido aos domingos, na reconstrução da Cuba espoliada até o estertor pela ditadura de Fulgêncio Batista e pelo domínio norte-americano, enfatiza, devidamente descontextualizado das circunstâncias da guerra de guerrilhas e da revolução, o papel de Che como comandante de frente guerrilheira ou do quartel onde, após a vitória, se levava os ilustres burgueses cubanos (em nome de cujas fortunas e luxuoso e fútil sadismo, milhares de trabalhadores, mulheres e crianças padeciam a própria morte em vida ou morriam um pouco todo dia, de fome, miséria e excesso de trabalho nos canaviais, em verdadeiro regime de escravidão) para o fuzilamento no “paredón”. Que, aliás, apesar de ser pedido aos gritos pelo povo oprimido (e não imposto pela “ditadura comunista de Fidel”), me parece forma muito branda de eliminação dos parasitas exploradores e da peste emocional. Pois um latifundiário ou burguês morto a balas ainda conserva o pescoço, o que é um perigo! Ainda há chance – mesmo remota – de ser “ressuscitado”. Eficientes e espertos mesmo eram os jacobinos de Robespierre, na Revolução Francesa, que usavam a guilhotina, a qual, separando a cabeça do corpo, eliminava toda possibilidade de falha na execução dos “altruístas” nobres da Corte de Versalhes.

No mundo de “Veja” as revoluções se fazem sem sangue… e sem mudanças, é claro. E os puros e educados empresários capitalistas, de punhos brancos e rendados são ótimas, bem-humoradas e afáveis pessoas que não sujam as mãos com o sangue e o suor alheio, portando um fuzil ou uma faca… Isto porque contam com a colaboração de seus lacaios gerentões e contra-mestres, e dos próprios trabalhadores oprimidos e conformados, que vão morrendo aos poucos de cansaço, fome e auto-violentação psicológica todo dia! O crime do lucro e do luxo capitalista, em nome do qual empresários e o próprio Estado (este na guerra predatória e repressora) matam milhões pelo mundo todos os dias é admitido e celebrado pela mídia, na medida em que ocorre de forma surda e “higiênica” nas empresas, ou longe dos olhos “inocentes” de doutores e jornalistas de gabinetes, praticado pela polícia a serviço do regime em becos perdidos, ou abertamente pelos exércitos “humanitários” e defensores da “democracia e dos direitos humanos” no Iraque ou no Haiti, por exemplo. Mas nem por isso George Bush ou Gerdau são qualificados pela mídia de sanguinários e desumanos. E Roosvelt e Churchill (dirigentes dos Estados Unidos e da Inglaterra na Segunda Mundial), responsáveis (ainda bem!) pela morte de milhares de nazistas (e mesmo da população civil não engajada) na Europa são celebrados como heróis, e verdadeiros “santos” laicos pela cultura oficial.

Mas até aí, tudo bem. A caracterização da horrível “violência revolucionária” é uma questão de ponto de vista, admissível e verificável “cientificamente”. O problema é que “Veja” (que no mesmo número celebra “imparcialmente” – às páginas 60 e 61 – a fala do falso socialista, e moderno fascista, Luís Inácio Lula da Silva na ONU, sobre o bio-combustível) para desmistificar e revelar o verdadeiro caráter do Che (“cruel e fanático”), cita justamente entrevistas com imparcialíssimos dissidentes do regime cubano, ex-membros da classe proprietária exilados em Miami e nada mais, nada menos que o agente da CIA Félix Rodríguez (que presenciou a execução do Che).

E a matéria, para coroar sua neutralidade científica e sociológica, se trai da forma mais infantil no discurso anti-comunista, com frases como : “Por suas convicções ideológicas, Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel”, ou “COMUNISMO: Depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia será lembrada sobretudo como a responsável pela morte de 100 milhões de pessoas”. E cai no ridículo da desconstrução histórica ao “denunciar” o óbvio e inconteste fato de que, após a execução, os soldados do exército boliviano (que servia a um regime fascista e subserviente ao colonialismo yankee) “limparam Che para a foto” de seu cadáver, que “sujo, vestido de trapos e calçado com o que sobrou de uma botina artesanal de couro”, “usava um calço em um dos calcanhares, provavelmente para corrigir uma diferença de tamanho entre uma perna e outra”.

É bem verdade que Che Guevara não era nenhum “Ghandi” ou uma “madre Teresa de Calcutá”. Foi revolucionário, e como tal usou da violência contra a violência maior do capitalismo. E não tinha o hábito, tão celebrado e confortável à mídia burguesa, de deixar-se prender em protestos públicos, sem reação, para escandalizar e desarmar a polícia imperialista, o que – desde Ghandi – tornou-se uma atitude completamente inofensiva para os agentes da opressão social e política (que, não tendo a “finesse” e “boa educação” dos pobres soldados e policiais britânicos bitolados no moralismo ainda meio vitoriano do início do século XX, hoje em dia dão gargalhadas de semelhante atitude bufa e ingênua). E muito menos era dedicado à mansa “caridade” do assistencialismo social, que, distribuindo migalhas entre os desvalidos, evita sua revolta contra a dominação e mantém convenientemente os privilégios dos nossos “donos”, para desgraça da maioria da humanidade (sob este ponto de vista, Lula devia ser canonizado como a Madre Teresa de Calcutá de barbas da América do Sul).

Como anarquista que sou, admito mesmo que o Che era um tanto filho do “fascismo vermelho”. Mas, entre tantos “defeitos”, possuia uma qualidade que é responsável pela sobrevivência histórica de sua figura, pela tentativa de integração e aculturação de seu mito “demoníaco” (a sombra da personalidade inconsciente dos psicológos junguianos) pela mídia capitalista e pelo incômodo que causa ainda hoje, ao ponto de suscitar a descabelada matéria da “Veja”, tão empenhada em demonizá-lo. E esta qualidade era o profundo ódio à injusta e massacrante opressão dos patrões e seus lacaios (os modernos “senhores de escravos”) sobre a grande maioria da humanidade, e a capacidade de jamais ceder ou desistir em sua luta pela derrocada do capitalismo, a ponto de colocar em risco a própria vida (o que é próprio de todo revolucionário legítimo). Assassino, incompetente, fanático, ou não, Che jamais poderá ser acusado de covardia. Sustentou até o final as conseqüências de seus atos e, se pediu clemência ao inimigo imperialista ao ser capturado (o que a matéria “demistificante” pretende fazer crer, citando o depoimento de um tenente do exército boliviano), fez apenas o que é próprio de todo ser humano diante da morte – e que não o impediu de levar a guerrilha no altiplano até este ponto. Che sabia que, sem apoio dos camponeses locais, traído pelo Partido Comunista Boliviano (fiel ao imperialismo soviético), e sem condições de resistência, cedo ou tarde, seria cercado pelo inimigo. E era mais fácil, ao invés da humilhação da derrota, ter se suicidado.

Mas, na verdade, o supremo “pecado” do ateu totalitário “Ernesto”, que o puritanismo de empréstimo da mídia brasileira pró-yankee não suporta, é conspurcar simbolicamente um dos ícones do falso hedonismo do capitalismo “pós-moderno”. Afinal, a figura do barbudo revolucionário cobrindo a buceta da dondoca modelo está, de certa forma, “estuprando” o “puro” símbolo do prazer burguês, cuja imagem se oferece à ralé para que babe na contemplação da volúpia glamourizada, que só ao explorador é reservada!

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 05/10/2007 at 3:15 am Comentários (5)

DESVARIO NO PUTEIRO: O ENCONTRO DE CASTRO ALVES E GREGÓRIO DE MATOS

 

Antônio de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, morto de turberculose aos 24 anos de idade, em 1871, foi o grande inspirador literário da minha adolescência e juventude. Seus poemas grandinloqüentes e em tom de oratória fascinaram-me e me impregnaram profundamente. Já o safado Gregório de Mattos Guerra, pândego comedor de mulatinhas e madames, e hilário satirista político, só vim a conhecer quando avançava na década dos meus trinta anos, quando muito me diverti (desbocado e boêmio que sou) com seus poemas. Ambos os poetas baianos (um do século XIX, outro do XVI) estão na lista dos meus prediletos e, de certa forma, são arquétipos dos meus contraditórios sentimentos – apaixonado romântico e ingênuo e desbocado, boêmio, metido a malandro e rebelde que sou.

O que nunca imaginei, porém, é que um dia, parodiando Castro Alves, na onda que ando curtindo de transformar clássicos da poesia nacional oitocentista em poemas de putaria, eu viesse a produzir uma peça digna do espírito de Gregório de Matos, sem a menor intenção consciente.

Assim, ai vai para diversão dos leitores entediados e horror dos inimigos da “pornografia” (que este blog está finalmente se aproximando de uma cena de sexo “explícito), a publicação da última estrofe do “Navio Negreiro” (justo o primeiro que li de Castro Alves, e que foi o responsável pelo meu fascínio) e a paródia que lhe escrevi:

O NAVIO NEGREIRO (6.ª estrofe)

E existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves

Castro Alves

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O DESVARIO DO PUTEIRO

Eu vou de novo à bandalheira, à festa
P’ra cobrir tanta dama e guria!…
Com a gueixa lambuzar-me é o que me resta,
Mandar pau duro na bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! Mas que rameira é esta,
Que, se impotente, ela do “cara” tripudia?
Silêncio. Puta… Chorna, e chorna há tanta,
E o paspalhão aqui foi cair no teu encanto! …

Ao rever-te, bundão de minha terra,
Que a piça, em desvario, beija e balança,
Quero saudar este teu cu em que a enterras,
E cujas pregas há perdido desde a infância…
Tu, que na sacanagem pôs-te em guerra,
Foste puteada, porque errou a dança?
Antes tivesses o cu roto na bandalha,
Que de ti rirem por tão pouca maravalha!…

Imensidade atroz que se mete até às bagas!
Que espirra nesta hora a todo mundo,
Ao trilho que no lombo abriu das magras
Como não íres, em pé, até o fundo?
Mas é da fêmea demais venérea praga!
Levantai-vos, fodei a todo mundo!
Da égua mansa trepai a este bundão nos ares!
No lombo mexa a porra até gozares!

Gravataí, 29 de setembro de 2007

Ubirajara Passos

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E, para coroar, um poema de Gregório de Matos:

 

DÉCIMAS

Estais dada a Bersabu,
Chica, e não tendes razão,
Sofrei-me Maria João,
pois eu vos sofro a Mungu:
vós dais ao rabo, e ao cu,
eu dou ao cu, e ao rabo,
vós com um Negro diabo,
eu com uma Negrinha brava,
pois fique fava por fava,
e quiabo por quiabo.

Vós heis de achar-me escorrido,
não vo-lo posso negar,
eu também o hei de achar
remolhado, e rebatido
assim é igual o partido,
e mesmíssima a razão,
porque quando o vosso cão
dorme c’oa a minha cadela,
que fique ela por ela,
diz um português rifão.

Vós dizeis-me irada e ingrata,
c’oa a mão na barguilha posta”
eu me verei bem disposta”
e eu digo-vos: “Quien se mata?”
eu vou-me à putinha grata,
e descarrego o culhão,
vós ides ao vosso cão,
e regalais o pasmado,
leve ao diabo enganado,
e andemos c’oa a procissão.

Chica, fazei-me justiça,
e não vo-la faça eu só,
eu vos deixo o vosso có,
vós deixai-me a minha piça:
e se o demo vos atiça
mamar numa e noutra teta,
pica branca e pica preta,
eu também por me fartar
quero esta pica trilhar,
numa grêta e nutra grêta.

Dizem que o ano passado
mantínheis dez fodilhões
branco um, nove canzarrões,
o branco era o dizimado,
o branco era o escornado,
por ter pouco, e brando nabo;
hoje o vosso sujo rabo
me quer a mim dizimar,
que não hei de suportar
ser dízimo do diabo.

Chica, dormi-vos por lá,
tendo de negros um cento,
que o pau branco é corticento,
e o negro jacarandá:
e deixai-me andar por cá
entre as negras do meu jeito,
mas perdendo-me o respeito,
se o vosso guardar quereis,
contra o direito obrareis,
sendo amiga do direito.

Sois puta de entranha dura,
e inda que amiga do alho
sois uma arranha-caralho
sem carinho, nem brandura
dou ao demo a puta escura,
que estando a tôdas exposta,
não faz festa ao de que gosta;
dou ao demo o quies vel qui,
e não para quem a encosta.

Quem não afaga o sendeiro,
de que gosta, e bem lhe sabe,
vá-se dormir cuma trave,
e esfregue-se num coqueiro:
seja o cono presenteiro,
faça o mínimo agasalho
ao membro, que lhe dá o alho,
e se de carinho é escassa,
ou vá se enforcar , ou faça,
do seu dedo o seu caralho.

Gregório de Matos

Gregório de Matos

 

Publicado em:  on 02/10/2007 at 9:30 pm Comentários (5)