DEPRESSÃO

Mil perdões aos leitores (que, pela estatística de hoje, parecem ter debandado), mas inúmeras casualidades (entre elas a preguiça homérica que nos dá o calor santa-rosense e o festival de trago após a volta da Argentina, no final do carnaval) me impediram de postar algo novo.

Estive em Oberá e Posadas (a segunda cidade e a capital da província argentina de Misiones) em Encarnación (cidade paraguaia que faz fronteira com Posadas, separada que é desta pelo Rio Paraná) entre o domingo e a terça-feira de carnaval e somente hoje à noite (há uma hora atrás) retornei de Santa Rosa para Gravataí. Amanhã principio uma série de crônicas narrando as aventuras e desventuras da viagem internacional. Por hoje deixo os meus desconsolados leitores na companhia de um velho poeminha de fossa filosófica.

DEPRESSÃO
(Isto é Poesia?)

“O crepúsculo esbraseia no horizonte”,
Tudo se esvai e, insosso, sem sentido,
Sigo o “pulsar frenético das horas”;
Sem interesse, envolto em tédio.

O amargor da alma me espicaça;
Estranhamente, ainda que o não queira,
A depressão invade-me o espírito.
Cada centímetro, descolorido,
O mundo esvai-se e se dissolve em minha mente.
Nem sequer forças para lamentar
Tem minha alma e o único prazer
Que encontra, estranho, abastardo,
É o sofrimento.

Só um impulso, desgastante, violento,
Terrível satisfaz-me;
E, após, violento, o cansaço se me abate.
Não tenho forças, sequer, para o suicídio.

Gravataí, 23 de agosto de 1992

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 28/02/2007 at 10:43 pm Comentários (1)

ONTOLOGIA ERÓTICA

Retornei hoje às 3 h 15 da tarde da minha missão sindical (mobilização das comarcas do interior para pressão no plenário da Assembléia Legislativa a fim de derrubar o veto imposto por Yeda ao reajuste parcial de 6,09%) e sigo amanhã ao meio-dia para Santa Rosa – RS, de onde deverei rumar à Província de Misiones , na Argentina, com meu camarada Valdir Bergmann. Resolvidas questões que me esperavam em Gravataí e refeita a mala, somente agora pude descansar um pouco, o que me impede maior inspiração para escrever neste blog. Deixo assim os leitores na companhia do poema seguinte, durante o carnaval, que se inicia hoje à noite. Quarta-feira de cinzas (ainda de Santa Rosa) espero retomar o blog. Gracias.

Ontologia Erótica

Não te vi na noite obscura,
Imponderável onirismo do meu ser.
As sombras delirantes da figueira
Davam refúgio a todo o fantástico,
Mas não supunham a existência do teu ser!

Nem boi-tatá ou alma do outro mundo
Tão surpreendente aos olhos do ordinário
Se faz como tu em tua beleza,
Ondina eterna, prima de valquírias,
De lubricidade combativa.

Porto Alegre, 11 de agosto de 2001

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 16/02/2007 at 11:09 pm Deixe um comentário

UMA PAIXÃO MOMENTÂNEA

Na primavera de 1996, entre a luta política desenfreada contra o peleguismo petista no Sindjus-RS e o vazio emocional da morte de minha mãe (ocorrida em 20 de julho daquele ano), eu andava achava tempo para apaixonar-me, como um guri, pela primeira gatinha linda que aparecesse à minha frente. Foi assim que, num xaroposo almoço solitário no extinto restaurante Nutriserve, que ficava ao lado do prédio do sindicato, na General Câmara, diante de uma deusa morena que nunca mais vi, compus o poema seguinte, em cuja companhia deixo os leitores por algum tempo, pois saio hoje de manhã em viagem para a região de Santana do Livramento, em mobilização sindical (a convite da Diretoria Executiva), em plenas férias. De hoje a sexta-feira é possível que não haja tempo ou condições para publicar novos textos (não é todo hotel que tem serviço de internet, por exemplo). Divirtam-se com os posts antigos ainda não lidos, se possível, que no carnaval, esteja em Gravataí ou em Santa Rosa (para onde pretendo me deslocar após a viagem pelo pampa), estarei de volta a este blog.

UMA PAIXÃO MOMENTÂNEA

Tua beleza é a intemporalidade,
Um raio indescritível do eterno,
A transcender tempo, espaço, vida.

Um único momento em que sorrires,
Sem que eu de ti saiba coisa alguma,
Bastará para eternizar
A paixão única que tu inspiras.

Não me importa donde vens, aonde irás,
Quanto é comum ou fascinante a tua vida.
Nada me importa.
Se nos realizaremos,
Ou nos perderemos na vala comum.

Talvez eu não te veja nunca mais.
Mas de ti, certamente, ficará
A eterna beleza do momento,
A iluminar-me a senda dos tempos.

Porto Alegre, 24 de setembro – Gravataí, 29 de setembro de 1996

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 12/02/2007 at 1:45 am Comentários (2)

A BUCETA DE PANDORA

Narra um velho mito grego, ao qual o próprio Machado de Assis dedicou um conto, que Pandora foi a primeira mulher da humanidade e, ao abrir a boceta (uma pequena bolsa) que lhe foi dada por Zeus, deixou dela escapar, invonlutariamente, todos os males e misérias, que nela estavam presos, e que, desde então, nos afligem. Teria restado, no fundo da bolsa, apenas a esperança, para consolo dos mortais.

Nesta modorrenta e quente noite de sábado, fui ao banheiro dar uma mijada, pensando em que texto poderia escrever para este blog, quando me saltou do cérebro o paralelo da mitológica boceta com a nossa buceta nacional (a xoxota), que prefiro grafar com “u”, na forma mais popular possível, porque ganhou desde há muito um significado autônomo, completamente diverso do de bolsinha (os dicionários deveriam, mesmo, fazer constar uma palavra nova, “buceta”, além da boceta já existente, que, aliás, ficaria melhor se fosse escrita e pronunciada como bolseta).

Pois, assim como da bolsa da pandora, da buceta também já sairam as piores pragas que assolaram a vida de milhares de gerações, ainda que dela também tenham vindo criaturas geniais e de uma dedicação fantástica às questões profundas da vida humana, como Wilhelm Reich, Karl Marx, Friedrich Nietzche, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Garcia Lorca, Dante, Epicuro, Buda, Sócrates, Bakunin, Kropotkin, Oscar Wilde, Gregório de Matos, Carl Jung, Che Guevara, Albert Einstein, Richard Bach, Reminguay, Castro Alves, Getúlio Vargas, Evita Perón, Rosa Luxemburgo e uma interminável lista.

Quando me lembro que Lula, Hitler, George Bush, Carlos Lacerda, Nero (o “quentíssimo imperador romando), Calígula (este até que era meio divertido, pois nomeou Incitatus, o seu cavalo, senador e criou um bordel com as esposas dos nobres), Médici, Sarney, George Fridmann, Tarso Genro (que só cito, tão medíocre é, pelo tamanho “oceânico” de sua fama de dotô), Yeda Crusius, Mussolini, Stalin, e todos beatos moralistas da Igreja Católica e do PT, assim como os falcatruas pastores neopentecostais, saíram de uma buceta, fico imaginando se a culpa foi dela, da foda ou do caralho.

Mas o fato é que, embora a foda mais apaixonante e prazerosa possa acabar por gerar um monstro destes (já que não há na natureza relação imediata de causa e efeito entre o caráter da buceta e de seus filhos, a coisa é acidental e, muitas vezes, infeliz!), a única coisa certa é que de tais seres tem se originado a condição que impede ou torna sem graça e nociva a foda e o quotidiano de multidões, empesteando-lhes a vida e perpetuando a desgraça dos que trabalham sem ver o produto de seu fardo.

Há, é claro, certas excessões na longa lista de carrascos da humanidade. Júlio César (que deu nome ao parto por abertura do ventre) não veio da buceta, embora tenha sido fecundado nela. E, talvez por isto, conserve (como Napoleão, que não sei se nasceu de buceta ou cesariana, mas pode ter sido também “cagado”) uma certa aura de popular defensor dos oprimidos.

Já nós, humildes filhos da buceta, revolucionários ou oprimidos alienados (a perpetuar a opressão nos menores atos em relação a nossos companheiros), que sofremos, impomos e contestamos as conseqüências de pensamentos, decisões e atos dos grandes filhos da buceta (sejam filhos do simples prazer ou “filhos da puta”) não temos outro caminho, se não quisermos permanecer como eternas vítimas co-responsáveis das taras, interesses e safadezas dos “nobres descendentes da vagina” (impecáveis dominadores de alto coturno, sejam políticos, canastrões donos de empresas ou empolados “guias” intelectuais), senão eleger como máxima prioridade o prazer e a liberdade a que nos destinou, como o legítimo bem-estar de todo ser vivente, a grande buceta chamada vida. E das nossas fodas transcendentes, da oração carnal que constitui o gozo, poderá não se reproduzir mecânica e materialmente uma humanidade feliz, livre e solidária, mas se reproduzirá, no âmago de cada um, a alegria imediata de existir, apesar da precariedade de nossa condição mortal.

 

Ubirajara Passos

DISTÂNCIA

O poema de hoje foi parido na esdrúxula e concreta situação de habitar sob o mesmo teto com a mulher que amava, sem lhe ter o menor acesso, numa das épocas mais trágicas e apaixonadas da minha vida.

DISTÂNCIA

Há uma parede entre nós a separar
Os sonhos e a ternura de cada um.

Há uma parede, simples folha de madeira,
A divergir, em oposição, nossos suspiros.

Os meus arroubos crescem na vertigem
E alçam vôo na busca do teu peito,
Mas vêm detê-los, mais que esta parede
(Divisória, a dividir nossos destinos)
A invisível barreira: o desconcerto

Que faz muito distante as nossas almas,
Ainda que os corpos
Tão próximos estejam, e tão estranhos.

Gravataí, 16 de janeiro de 2001

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 09/02/2007 at 7:09 pm Deixe um comentário

CARTÃO DE FIDELIDADE SEXUAL

     Com o arrocho salarial e o desemprego devastador resultantes da política econômica do Inácio, o expediente dos estabelecimentos comerciais de fornecer aos clientes aquele cartãozinho que permite, a cada dez visitas nele marcadas, o consumo de um produto de graça na décima primeira (ou qualquer outro sistema de “fidelização” equivalente) já não se restringe a locadoras de filmes ou lancherias.

     Há alguns meses, tendo ido ao motel com a gata preferida, tive um ataque de riso que quase me mata de asfixia! Com o ar mais grave e artificial possível, a recepcionista, ao cobrar-me a conta na saída, me anunciou, com toda a pompa de um gerente de financeira falcatrua, que agora eu tinha direito ao cartão de fidelidade do motel. A cada dez fodas , eu teria direito a uma trepada totalmente gratuita nas suas suítes!

     Passado o surto de hiena, não me agüentei e lhe perguntei, com o ar mais debochado possível, se, para valer, a fidelidade do cartão deveria incluir os mesmos parceiros ou eu poderia levar lá outras gatas, e se eu ou a gata poderíamos utilizar o mesmo cartão, trepando com outros machos e fêmeas. “O senhor faça o que quiser. Desde que seja em nosso motel, está valendo a promoção, que, aliás, é muito boa: o senhor não necessita nem gostar muito de sexo. As dez visitas podem ocorrer no espaço de um ano”.  Com esta resposta, mais “peremptória” que discurso xaroposo falcatrua de petista metido a intelectual, murchei e, devidamente carimbado, coloquei humildemente o cartãozinho na carteira.

     Mas, desde então, obcecou-me um desconcertante insight. Ao invés dos velhos deveres do casamento compulsivo e das exigências da escravidão doméstica e sexual disfarçada (aquela em que a mulher se mantém como “Amélia” e gueixa e não desgruda do sujeito, em troca do que o gordo bolso lhe proporciona), uma solução, mais prática e prazerosa, para os conservadores apavorados  (e os apaixonados incorrigíveis) com a inexistência generalizada de parceiros fixos seria a instituição da fidelidade sexual premiada.

     A cada meia-dúzia de fodas em determinado período entre o mesmo casal, cada um dos protagonistas teria direito a receber do outro uma chupada com sorvete até acabar;  um sexo anal   romântico à luz de velas, com champanhe e flores; um sessenta-e-nove  com pimenta e outros tantos requintes e excentridades que dão sabor à putaria. Este simples expediente garantiria o equilíbrio emocional de meia-humanidade e botaria abaixo até o ranço fascista “globalizado”, abrindo as portas da revolução! “Viva Fidel”!

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 08/02/2007 at 12:21 am Deixe um comentário

ENCANTO

Este poema, em perfeita contradição com seu título, não é exatamente a menina dos meus olhos e até me parecia, faz anos, meloso e rebuscado em excesso para o meu estilo atual. Mas, procurando, agora, o que publicar, acabei encontrando-lhe certa graça. Perdoem-me os leitores mais exigentes, mas hoje ele é o prato do dia.

ENCANTO

Eras, então , de um doce despertar
A esperança vã, trêmula, nervosa.
Em cada gesto teu se entrevia
Dissimulados desejos, sensuais
Mensagens que inflamavam-me
O corpo e o espírito.

Louco, inebriado, perplexo eu voava
Em sonhos ternos e picantes,
Construindo de cada ato teu –
Impregnado de malícia –
Um paraíso imaginário de prazeres.

“Linda” não eras,
Nem os manifestos
Erótico-amorosos
Teus eram explícitos.
Nada concreto havia em tuas ações
Ou em teu corpo que correspondesse
A uma beleza extremamente fascinante,
Palpável a olhos comuns.

Porém, tu toda respiravas
Um ar sensual, embriagador, inexplicável,
A arrebatar-me os sentimentos mais recônditos,
Arremessando-me, em transes idolátricos,
Ao mais profundo, inexplorado d’alma.

Como o recanto qualquer de um arvoredo
Transmuta-se, visto, acaso, ao luar
E parece revelar-nos a magia,
A beleza, o êxtase
De alma que jamais
Igual houve na vida –
Irrepetível, fugaz, no instante
Aprisionado,
No relance de um olhar –
Assim tu eras, envolta num hálito
De transcendente e estranho encanto,
Maior que tudo, vívido por si.

Gravataí, 15 de dezembro de 1993

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 06/02/2007 at 11:18 pm Deixe um comentário

A BUCETA DE ÓCULOS

Não, meus camaradas. Não andei fumando maconha estragada, nem tomando chá de bosta de vaca. Simplesmente, agora que o estoque de textos prontos vai se esvaindo, e vou publicando os poemas e dissertações menos originais, a necessidade de manter um comentário ou crônica diários acaba por gerar títulos como o deste post, que mistura entes totalmente estranhos entre si como xoxota e lentes. Estranheza, é bem verdade, aparente, pois, como será “cabalmente demonstrado ao longo desta crônica”, ambas as coisas possuem bem maior identidade do que o fato de pertencerem ao quotidiano das minhas preocupações e experiências relevantes, atualmente.

     Desde os dezoito anos, no final do 2.º grau (curso Técnico em Contabilidade), que sofro de astigmatismo (que auto-diagnostiquei ao perceber os primeiros sinais de raios luminosos borrando o perfil dos objetos), sem que jamais tivesse procurado um oftalmologista. Quando ingressei no serviço público, aos vinte e dois anos, por pouco não fui reprovado no exame “biométrico” .

     Muito embora, com o tempo, fosse se manifestando uma certa dificuldade de enxergar ao longe e a diminuição da acuidade visual, como conseguia ler, andar por aí e fazer tudo sem maior dificuldade, exceto ler placas de rua ou os letreiros das linhas de ônibus, me acostumei com o ceratocone e me julgava muito superior aos míopes e hipermétropes, que eu não precisava de óculos e aquele franzir de olhos (de que resultaram boas rugas na cara) resolvia, sem mexer no bolso, os mínimos problemas óticos.

     Mas a intenção de cursar a auto-escola (em cujo exame oftálmico prévio eu faltamente levaria bomba) me conduziu aos braços da oculista (pois já que tinha de consultar a médico, programa a que tenho verdadeira ojeriza, que fosse uma mulher: aturar barbado de guarda-pó branco a receitar-me a “cura” seria o supremo masoquismo). E, comprados e colocados os óculos, tive algumas surpresas nada óbvias para a minha sapiência de “médico caipira”. Primeiro descobri que andara quase às cegas. Um mundo novo, de cores e imagens precisas e brilhantes, saltou-me à frente e, com um mês de uso dos olhos postiços, ainda imagino, às vezes, não estar vendo, através deles, imagens reais, mas algo virtual, como a tela da TV, tamanha é a diferença do que estava acostumado a enxergar nos últimos vinte e três anos.

     Constatei também, com um prazer e um tesão inéditos, que as gostosinhas que andam rebolando pela rua são muito mais apetitosas do que via! Mas, como todo remendo, por mais sofisticado que seja, os óculos têm lá os seus limites e (invejosos e impertinentes) possuem a mania de nos transmiti-los. Assim é que me dei por conta, puto da vida, que a minha visão “periférica” (não o rabo do olho, mas o plano que fica fora do foco imediato das lentes) se tornou completamente prejudicada.

     Tarado contumaz e curioso dissimulado, costumava, para evitar a censura e a encrenca do olhar alheio, espiar mulher boa e excentricidades com um simples golpe de vista. Entretanto, com os óculos, se o fizesse, me arriscava a ver a imagem distorcida (especialmente se grande e próxima), truncada no limite da borda das lentes. A solução possível seria “usar a cabeça” e deslocar o rosto. Com o que qualquer sujeito esquisito que andasse na minha lateral veria que eu o estava encarando. Adeus expediente de seguir reto, com o nariz hipocritamente voltado para a frente e o olhar desviado para os lados, a espreitar os outros!

     Porém, como não resisto àquela olhadela de soslaio, já encarei, pescoço torcido para o lado, muita coisinha linda a me fazer caretas e muito marmanjo ridículo invocado a me rosnar de raiva: que que é tio, tá pensando que eu tô cagado ou tâ a fim dumas bolachas?

     Foi aí que dei-me conta do real tamanho da hipocrisia humana. Parafraseando a velha frasesinha, “quem tá na rua é pra se olhar”! Mas todo mundo anda como zumbi, fazendo de conta que não há mais ninguém no mundo e (embora espie com o prazer mais fofoqueiro as “excentricidades” alheias) age como se estivesse num aquário de um único peixe: não admite a menor interferência manifesta do olhar de outrem.

      Especialmente, no caso das gatinhas gostosas, a coisa é um disparate. A menor espiadela tímida em direção às suas roliças e desnudas coxas e eis projetada na tela de suas ‘”devassas” mentes a nossa “tara condenável”. Pois outro dia, pesquisando na internet uma das mais belas palavras da língua portuguesa, dei, num blog cujo autor já não recordo, com um poema à buceta que expõe, em versos os mais comuns, o rídiculo da nossa sociedade, construída sobre a recusa não só do maior dos prazeres ( o sexo), mas na apologia do sofrimento e na rejeição, irracional, ao corpo. Dizia lá o sujeito que mesmo as mais recatadas e puras senhoras, as mais pudicas e hipócritas “moçoilas”, das que tem ataques de estupor ou fúria à mera menção da palavra “buceta”, mesmo elas possuem uma xoxota!

     E aqui fica a constatação lógica mais ingênua, e correta, possível. Que inferno de cultura é esta que não entende por que seus membros (na grande totalidade) são infelizes , e expressa, nos seus tabus linguísticos, uma fúria digna de hecatombe nuclear contra uma simples parte do corpo humano, tão ou mais “digna” (e bem mais interessante) como outras tantas, como orelhas, mãos, pés e cotovelos, mas cuja simples menção parece invocar os maiores desastres do universo? Só mesmo o sadismo e a perfídia capazes de nos reduzir, a nós povão trabalhador esfalfado e miserável, a mero objetos de uso de uns poucos burgueses (e antigamente senhores feudais ou de escravos, o que dá no mesmo) é capaz de rejeitar e criar encrenca com algo que, além da suprema preciosidade que a capacidade de dar e sentir prazer lhe reveste, é responsável pela origem e continuidade da própria espécie! Pois, como dizia o meu caro poeta, “somos todos filhos da buceta!”.

Post scriptum: se o leitor ainda não entendeu o que tem a ver a buceta com os óculos, uma recomendação: verifique como anda sua visão “mental”!

Ubirajara Passos

Publicado em:  on at 12:51 am Comentários (1)

À MINHA INDÔMITA GUERREIRA

Um porre homérico na quinta-feira, uma ressaca pior ainda na sexta, e a visita de uma amiga, que dormiu (nada mais que isto) ontem, aqui em casa colocaram-me completamente fora do ar para qualquer outra coisa, ainda que esteja em férias desde o dia 1.º, o que justifica a ausência de novos posts neste blog, nos últimos dias. Antes que os leitores me abandonem por falta de novidades, vai aí publicado um despretensioso poema inspirado nas dificuldades da vida da minha gata preferida, que não é nenhuma pequena-burguesa.

À minha Indômita Guerreira:

Eu te amo como amo a vida,
Como amo cada desgraçado
Que em sofrimento gasta sua vida
Por não possuir outro meio de existir.

Eu te amo em cada pensamento,
Em cada anseio de prazer e alegria
Que me aquece, fugaz e leve, a vida
Pra se frustrar ante a opressão brutal que nos sufoca!

Eu te amo como quem venera
No teu corpo a eternidade e o mistério
Que envolve o cosmos ou o profundo de uma gruta!

Eu amo em ti o aconchego e o desejo
E
amo todas as mulheres
Que enfrentam, sem ceder, o sofrimento
E sobrevivem, sem ajoelhar-se,
À humilhação mais sádica e soberba.

Gravataí, 25 de dezembro de 2005

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 04/02/2007 at 5:17 pm Deixe um comentário