DA REBELDIA SAGRADA

Mil perdões aos leitores pela preguiça dos últimos dois dias. Logo em breve estarei publicando uma série de crônicas, contos e comentários sobre o Luís Inácio (Lulinha, “o eruditchio”) e mais algumas “safadezas”. Por enquanto, saboreiem mais um ”SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”:

DA REBELDIA SAGRADA

A liberdade, a autonomia de pensamento e ação, a consciência (tanto a derivada da reflexão racional, quanto a verbalização dos sentimentos e emoções mais autênticos e profundos) não nos garantem o prazer, a ausência da dor e a felicidade. Mas sem elas não há qualquer possibilidade!

Quando os acontecimentos e questões que nos dizem respeito são decididos por qualquer outro que não nós mesmos, ou porque qualquer instituição na qual não temos a menor ingerência prática (ou agimos sob tais influências), a única certeza que podemos ter é de que viveremos segundo as inspirações, humores, apetites e interesses alheios e que, salvo um imponderável lance de sorte, 99,99% das vezes estes não coincidirão com os nossos e não levarão a outro caminho que o da infelicidade e do sofrimento.

Nem mesmo o mais desinteressado amor de mãe poderá nos conduzir ao conforto ou ao deleite de uma vida válida e instigante se impuser os seus critérios e sonhos ao nosso roteiro pessoal, pelo simples fato de que eles são o produto de suas vivências e não possuem qualquer intimidade com os nossos processos subjetivos de sentir e pensar, por mais universais que possam ser!

Infelizmente, embora a experiência incontestável demonstre uma unidade nos modos de raciocínio e conhecimento imediato, comum a todos os seres humanos, pela mera contingência de sermos criaturas individuais (corpos limitados, separados uns dos outros, nos quais toda experiência mental se dá “dentro” do cérebro e dos nervos de cada um), as mais indubitáveis “verdades universais” (mesmo aquelas sem as quais nem mesmo poderíamos nos comunicar) só existem como realidade à medida em que se tornam “verdades para nós”, pela construção interna que as impregne de algum sentido além da aceitação frouxa e acomodada da tradição ou do “costume” inquestionado.

Isto é suficiente para renunciarmos a toda passividade de comportamento, por mais prazeroso que seja o deixar-se conduzir, imóvel e cômodo, no fluxo inerte dos dias e das noites, do vento e da chuva, das fofocas de esquina ou dos escândalos e maravilhas do imaginário jornalístico.

E, desde o momento em que resolvemos seguir nossos insights e asneiras auto-inferidas, só podemos realmente ser livres e tentar escapar à fatalidade de nossa condição animal (ainda que só possamos ultrapassar as barreiras da existência material e da morte no íntimo de nossas mentes) se nos colocarmos numa posição de permanente luta e vigilância, em um mundo que está organizado para que sejamos membros do rebanho, sem direito à mais mesquinha individualidade.

Numa sociedade em que a maioria é submetida (com a própria colaboração de seu conformismo) a existir segundo os padrões definidos pelos dominadores (no proveito destes), o exercício do livre arbítrio só é possível como rebelião, pois, a todo momento, estará chocando-se com as regras de comportamento exigidas pela dominação.

Onde há senhores que precisam de autômatos humanos para executar por eles todo o trabalho intolerável e penoso, quem quer se arrogue o direito à própria singularidade jamais o poderá fazer na ingênua crença de ter como justificar sua vida por si, e para si mesmo (uma vez que, como toda gente, é um ser que pensa e sente). Tal disposição é contrária à ordem que nos é imposta e a realização concreta da liberdade só poderá dar-se na forma da rebeldia, já que, permanentemente, os mais diversos condicionamentos e exigências, as mais sutis punições e chantagens, as mais explícitas seduções e sabotagens cairão sobre o indivíduo livre para reconduzi-lo à procissão do fatalismo ou até mesmo ao próprio desaparecimento da Terra, se necessário à manutenção desta ordem.

A cada instante da existência, ou nos opomos às ondas construídas pela sociedade hierarquizada e pela opressão de todo tipo (principalmente a das idéias, crenças e condicionamentos jogados sobre nós em prol das mórbidas necessidades de prazer de nosso amos), ou nadamos ferozmente contra a correnteza do poder e da inércia dos subjugados, ou contestamos tudo o que não seja genuíno e são (que não nasça do âmago de nossos corpos e mentes e a eles não se manifeste como satisfação e gozo), ou nos tornamos rebeldes, transgressores de toda ética vinda dos poderosos e seus adoradores, ou só nos restará o doloroso, e ainda assim inconformável, papel de bufões da inteligência e da liberdade! Mais valeria, não nos rebelando, fôssemos pedras e não houvesse a natureza viva evoluído até nos dotar de consciência.

Ubirajara Passos

ENCONTRARAM O DEDO DO INÁCIO!

O general da Revolução Mexicana (1910–1920) Álvaro Obregon possuía algo em comum com o Luizinho além da origem humilde e de ter se alçado ao mais alto posto da República com o apoio de forças populares (os revolucionários zapatistas).

Seu senso de oportunidade e cinismo o converteram de um simples plantador de grão de bico, no início da Revolução, em Prefeito e em chefe militar que transitaria do apoio aos moderados “Madero” (o liberal que iniciou a revolução) e Carranza (o presidente que promulgou a nova Constituição em 1917) ao flerte com os anarquistas. Seu chefe, Don Venustiano Carranza, ele derrubaria em 1920 com apoio dos camponeses revolucionários esquerdistas zapatistas.

Mas a mais bizarra coincidência é que também perdera um membro superior. Não a mão, ou um simples dedo, mas o braço direito inteiro, amputado a tiro pelo inimigo na batalha de Celaya. Sortudo e prático como era, entretanto, o braço do Obregón não desapareceu e, hoje, repousa em uma urna de cristal num memorial na Avenida Insurgentes, na Cidade do México (existisse então a microcirurgia e Obregón voltaria a ser um demagogo com dois braços).

Ele próprio contava, com a cara mais debochada possível, que na ocasião do acidente estava preocupado “porque não é fácil perder uma coisa tão necessária quanto um braço”. Mas seus soldados, que começaram a procurá-lo pelo campo de batalha, não o achavam. Foi então que um de seus amigos mais íntimos, que o conhecia muito bem, teve uma idéia. “Tirou do bolso um ‘azteca’, uma brilhante moeda de ouro, e a jogou para o ar, onde brilhou ao sol. E então todos viram um milagre: o braço saiu de algum lugar e pegou o dourado azteca no ar, segurando-o carinhosamente. Essa foi a única forma de fazê-lo aparecer”.

Pois o Inácio (segundo nome, pelo qual era conhecido na intimidade o Luizinho), apesar de tantos predicados em comum com o grandioso general (de cuja existência sua imensa cultura jamais suspeitou), não havia até há pouco tido a mesma sorte de seu coleguinha. Quando era um humilde operário, o Inácio descobriu que era mais rendoso reivindicar que simplesmente trabalhar cabisbaixo. E assim, convertido em sindicalista, pôs seu dedo a trabalhar em seu favor. Mas então vigia a ditadura Médici, a que não agradava muito a rebeldia, e o Inácio acabou com o “dedo duro”. E de tão duro que era (qual o caralho do pajé daquele poema safado de Bernardo Guimarães) o dedo ficou pesado e apontava, contra a vontade do consternado Luizinho, para seus colegas de sindicalismo. O estranho dedo, que devia ser parente do nariz do Pinóquio, começou também a crescer e um dia, quando o Inácio esperava o trem na estação do metrô, deu um tropeção e lá se foi o dedo!

Porém, como os tempos são outros, bem diversos daqueles do Obregón, eis que denodados cientistas brasileiros resolveram se dedicar à busca do dedo do Inácio, que rijo e enorme, não poderia ter simplesmente apodrecido e se perdido por aí. Após custosas investigações, que envolveram desde exaustivas pesquisas do genoma até a consultas a chamuscados arquivos do DOI-CODI, da Operação OBAN e do SNI (beméritas ONGs os primeiros e órgão oficial de caridade para rebeldes desencaminhados o último), descobriram onde está o dedo do Inácio: NO CU DO POVO BRASILEIRO!

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 26/08/2006 at 12:14 am Comentários (1)

O MÁRTIR NACIONALISTA

Por Ubirajara Passos

No dia de ontem, 24 de agosto, há exatos 52 anos, um ex-ditador “fascista”, descendente de latifundiários republicanos e forjado na cartilha do positivismo comtiano, rompia o coração com uma bala em nome do direito dos brasileiros, especialmente os trabalhadores, que são a maioria absoluta desta nação, a viver e trabalhar para si próprios, como gente de carne, ossos e emoções e não como meros escravos do imperialismo internacional.

Getúlio (que, embora sempre houvesse sido nacionalista, mal ou bem, jogou – durante seus primeiros quinze anos de governo – com os interesses da elite burguesa e latifundiária nacional) havia se tornado, nos últimos anos de vida, definitivamente um sincero defensor da classe trabalhadora brasileira e um oponente feroz do neo-colonialismo de americanos e europeus, ainda que – dadas as limitações de sua formação social e do jogo político típico da época – não se possa compará-lo a um Fidel Castro ou a um Che Guevara. Seu estilo jamais foi revolucionário, nos termos da mística socialista dos anos 60, mas (na sua característica clássica de manobra política entre os diversos grupos de interesse das cúpulas), foi tão ou mais radical do que aqueles na defesa do nacionalismo e do povinho sofrido, cujo suor e sangue regam o luxo de meia-dúzia de abobalhados burgueses e gerentões de multinacionais, neste país.

Acossado pela manobra mais torpe e moralista dos interesses norte-americanos e entreguistas (representados pela tragicômica figura do ex-comunista Carlos Lacerda), vilmente acusado de estar envolvido na tentativa de assassinato desta versão udenista antecipatória de cínicos Lulas e Genoínos, Getúlio – diante da iminente tomada do poder pelos capachos civis e militares do imperialismo yankee – tomou a única atitude capaz de detê-los. E, com o custo da própria vida, impediu a quartelada da direita histérica e rançosa.

Quase dez anos depois, as mesmas forças que levaram Getúlio ao suicídio deflagraram o golpe de 1964, apavoradas com a possibilidade da concretização de reformas mínimas que pudessem dar uma vida decente ao povo brasileiro, como a reforma agrária, urbana e universitária. A ditadura que dele resultou criou o Brasil da miséria e ignorância absoluta, da total desproteção da peonada diante da sanha dos patrões e dos traidores sob encomenda (os Lulas forjados por Golbery para manter a dominação do povo em nome dos “trabalhadores”) dos dias de hoje.

Nos tempos de Getúlio a pouca vergonha travestida de seriedade conservadora e defensora dos valores tradicionais da família patriarcal escondia, sob tais andrajos, os mais pérfidos interesses anti-nacionais e anti-povo, mas foi desmascarada pelo ato de suprema coragem e coerência de um homem que, pela formação e classe social a que pertencera e pelos hábitos arraigados no exercício do poder, poderia simplesmente ter cedido à pantomima “democrata” das elites golpistas e “composto” com elas sua sobrevivência política em troca do martírio sócio-econômico dos trabalhadores brasileiros. Hoje a mesma safadeza, agora travestida de vermelha e revolucionária (mas que chegou ao poder com o discurso moralista da ética e da “cidadania”, não casualmente aparentado da “austeridade” dos puxa-sacos de yankees e latifundiários) debocha em grande estilo da cara do país inteiro e nos atira as migalhas do bolsa-família em troca de mais vinte anos de ditadura (que é a suprema aspiração do Luís Inácio).

Entre um e outro momento resta a nós, povinho fudido que se esfalfa diariamente nas fábricas, escritórios, lavouras, repartições e lojas, a reflexão necessária para, ao menos, revoltarmo-nos e gritar que somos GENTE e não gado a serviço da sacanagem sádica dos patrões daqui, da América do Norte ou “d’além mar”. E a carta testamento de Getulio Vargas é um instrumento cada vez mais atual para tanto, um desafio, ainda infelizmente não respondido, que expressa no drama de um líder político o drama de um povo e de um continente. Vamos a ela, que ela fala por si, e vale, muito além de seu profundo conteúdo revolucionário, por espelhar o desespero e a coragem de um indivíduo que se sente só antes de consecutar o próprio suicídio do que por ser um “panfleto” político. Sua humanidade é comovente e transcende a mera retórica do poder e da politicagem:

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás. Mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até quinhentos por cento ao ano. Nas declarações de valores do importávamos existiam fraudes constatadas de mais de cem milhões de dólares por ano. Veio a crise do café. Valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportado em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e por vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas este povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma, e meu sangue será o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”Getulio Vargas

Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1954

(a) Getulio Vargas

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA

Embora dirigente partidário, como já escrevi neste blog, sempre mantive a independência mental e a capacidade crítica suficiente para constatar as asneiras dos políticos, até mesmo dos mais autênticos “socialistas”. Certas práticas a que a necessidade do voto, numa sociedade majoritariamente imbuída da mentalidade burguesa e dos preconceitos próprios da cultura autoritária (como “honra”, “honestidade”, “simpatia”, “status”, etc.), acaba por submeter o mais radical revolucionário vermelho (as demagogias “marketeiras” de todo tipo) são simplesmente inaceitáveis.

Não por contrariarem ideais puristas de “verdade”, “realidade” e “conscientização das massas”, mas por jogar na vala comum do lixo geral as oportunidades de indignação concreta dos trabalhadores e igualar, na prática dos palanques (de praça ou eletrônicos) o velho discurso do clientelismo e dos pretensos defensores do povo. Por mais bem intencionado que seja, o político que se arroga a missão de “salvador”, “mártir” ou “protetor das massas”, está (pela simples atitude) colaborando para a manutenção da sociedade autoritária (ainda que seu autoritarismo se faça de forma disfarçada), hierarquizada e opressora.

Não há como escapar, ao ceder às demagogias comuns à cultura da mídia capitalista, à óbvia conseqüência da manutenção da “escravidão assalariada”. Pois muito mais do que no exercício concreto da “força” é nos hábitos e crenças mentais das multidões que se sustenta sua opressão. Assim, toda prática que não apostar no questionamento e na rebeldia aos modos de pensar pré-determinados e condicionados às pencas na TV nossa-de-cada-dia (só para citar o principal instrumento de “adestramento” das nossas mentes) só pode conduzir, NECESSARIAMENTE, à manutenção da sacanagem vigente.

Toda esta elocubração intelectualóide é para, safadamente contextualizado por este escritor cretino, reproduzir abaixo o primeiro “SERMÃO NA IGREJA DE SATANÁS”, por mim parido nos idos de outubro de 1999:

DO FALATÓRIO HISTÉRICO EM POLÍTICA

Não adianta namorar a revolução com intenções explicitamente utópicas, como não resolve flertar com uma mulher de forma manifestamente luxuriosa. O encanto de ambas as coisas está justamente na intimidade secreta, fruída pelos amantes de maneira natural, vale dizer semiconsciente, sem protocolos, nem compromissos formalmente estabelecidos.

É a fascinação daquela afinidade e prazer recíprocos, simplesmente intuídos (captados no relance de um olhar carregado de cumplicidade e tesão), que dá o sabor do sobressalto e valoriza um amor.

Assim é que – quando um líder precisa clamar veementemente às “massas” suas intenções redentoras e engajadas – sua credibilidade, ainda que formalmente íntegra, se encontra simplesmente rota e sua liderança, esboroada.

Previnamo-nos, caros amigos, dos loquazes e verborrágicos representantes da ira divina, dos despreendidos defensores do povo, tempestuosos instrumentos da justiça! A sua verborragia oca e vertiginosa guarda nada mais do que a própria essência do olho do furacão: de nada se compõe e a nada levará, senão à satisfação inconfessável de seus mais elitistas e abjetos interesses.

Ubirajara Passos

UM POEMA APAIXONADO

Para os leitores mais sensíveis e menos políticos segue uma das tantas inspirações a que a minha gata preferida deu existência:

DOCE ABISMO

Eu não te quero apenas como um corpo
Cujo calor venha ao meu corpo dar prazer.
Eu não te quero, linda e sensual,
Como um troféu de caça a expor aos companheiros,
Nem como um objeto de uso descartável.

Eu não te quero, como gueixa ou escrava,
Para preencher minha carência amorosa
E compensar a minha incompetência como amante.

É a tua orgulhosa, arrogante liberdade,
O ar independente e provocante,
A tua sincera e incondicional ternura,
A argila áspera e sem medo de que és feita
Que eu desejo, ao meu lado, afrontando
O mundo hipócrita e frustrante em que vivemos.

É este gato brincalhão, cruel e rebelado,
Porém, sensual, preciso e esperto,
Que vive dentro da tua alma, que fascina
O meu espírito, apesar da cruel certeza
De que jamais terei esta ventura,
Como jamais escaparei do abismo
Em que lancei-me, ofuscado pelo que és.

 

Gravataí, 19 de maio de 2000.

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 23/08/2006 at 1:03 am Comentários (5)

UM POEMA “ENGAJADO”

Na onda de pura política que venho publicando ultimamente, aí vai um texto mais ameno (ao menos é um poema, meio plágio involuntário de Vinicius, mas tudo bem). Perdoem-me os leitores de textos mais safados e alegres. Em breve serão recompensados.

A COISA… OU O HOMEM COISIFICADO?

A vida desabou,
Tudo se esculhambou
E ele estava lá…

Seus afetos mais caros,
Os sonhos mais profundos,
Os mais básicos anseios
De usufruir da vida,
Tudo decompôs-se
E ele estava lá!…

Dele se esperava somente o trabalho,
Que não lhe rendia mais do que migalhas,
Enquanto o patrão à sua custa engordava
Os seus fofos bolsos.

O “trato” desumano
Que lhe impunha o chefe,
E, mais que ele, as regras
Nefastas da atroz disciplina,
Devia suportá-lo a sorrir e jamais
Expor, descontente, suas queixas e mágoas.

Não importa que sofresse,
Amasse ou perdesse
Os encantos pequenos do seu dia a dia,
Todos soterrados pela atroz rotina.

Sua função na empresa
Era trabalhar
E ela suplantava
A morte, a desgraça,
O gozo, a alegria.

Dele se esperava e, no fim, havia
De todo se tornado,
Que fosse uma peça, sem alma ou vontade,
Só um parafuso
Na feroz engrenagem,
Mais um item roto na conta “Móveis e Utensílios”
Do gordo Balanço do capitalista.

Gravataí, 1º de abril de 1996

Ubirajara Passos

DA NATUREZA POLÍTICA DAS SOCIEDADES EXPLORATÓRIAS

Enquanto me curo da ressaca de champanhe (ando um bêbado chique ultimamente, ainda que o “espumante” seja daquele baratinho de R$ 5,00), deixo com os leitores mais um “Sermão na Igreja de Satanás”:

DA NATUREZA POLÍTICA
DAS SOCIEDADES
EXPLORATÓRIAS

Embora os nossos ilustrados revolucionários igrejeiros creiam piamente que todo drama do capitalismo consiste na “má distribuição de renda”, a mais banal e oculta (para os seus compassivos olhinhos) verdade é que, como todas as outras formas de sociedade de classes, a atual nada mais é do que o exercício da velha e boa pecuária aplicada à manada humana. Concentrar toda luta social na reivindicação de salários dignos supõe implicitamente a possibilidade da existência de patrões bonzinhos e reduz a revolução à expectativa infantil de uma oração ao Senhor para que nos dê uma boa burguesia, que nos faça felizes e não nos deixe passar fome”.

Ainda que o capitalismo esteja impregnado da psicologia da classe que, historicamente, lhe deu origem (cuja fé concentra no deus-dinheiro toda devoção), a sua essência em nada difere do escravismo ou da servidão feudal, a não ser na ausência dos pés acorrentados (a qual é mais produto da rebeldia parcial dos “explorados” que da vontade burguesa) e do título formal de vassalagem.

A mentalidade burguesa, filha das incertezas materiais de indivíduos que no Ocidente medieval encontravam-se à margem do sistema produtivo predominante, dá à atual sociedade de classes a cor da marcha ferozmente competitiva e ávida pelo progresso da riqueza (ou melhor, do butim)… do capitalista! (o senhor de escravos ou de feudos já se contentava em ter à sua disposição uma horda de rezes falantes que realizasse por ele todo o trabalho e lhe permitisse integral dedicação ao ofício da vadiagem). Não é, entretanto, o simples exercício da “esperteza”, e a vigarice herdada dos velhos mercadores (cuja sofisticação das técnicas se constitui na moderna gestão econômica), que permite aos ladrões protegidos por lei (com registro na Junta Comercial) sua posição sócio-econômica.

Como seus antecessores de outras eras, eles não possuem poder porque nos roubam, mas nos roubam porque se fazem poderosos. E sua pilhagem se mantém intocável através dos tempos porque não se resume à expropriação do que produzimos com nosso trabalho, mas porque nos roubam a própria vida, o tempo, os braços, a mente, convertendo-nos em sua propriedade!

Pouco importa se o “contrato de emprego” se constitui em compra, troca de serviços por “proteção”, ou aluguel, porque seu objeto não é apenas os braços, o cérebro, a buceta (ou tudo isto, no caso de uma santa esposa e “dona de casa”), mas todo o nosso ser e (ainda que não o percebamos) pelo tempo integral de nossa existência quotidiana.

Esta é a realidade num mundo em que a maioria de nós não possui tempo, dinheiro ou disposição para o prazer, o amor, o sexo, a doce e instigante gandaia de noites bêbadas e boêmias, ou mesmo a mole ternura familiar e a descontração satisfeita de uma conversa à toa, pelo simples fato de que a rotina exaustiva e obrigatória de trabalho que nos impõem os nossos senhores e as migalhas da riqueza que produzimos, e nos é devolvida em forma de “salário”, não o permitem, e não por nossa opção.

Bem observada, a nossa existência se resume a trabalhar e prover os meios de nos manter em pé e preparados para produzir, enquanto a classe que se arrogou o direito de organizar, e carrear em seu proveito, a produção econômica necessária pode viver, dentro das limitações que lhe impõe o próprio exercício do domínio, todas as possibilidades que a aventura da vida consciente de si mesma lhe permite.

Ou seja, não apenas na vontade e concepção de nossos dominadores, mas em nossas próprias atitudes habituais, em momento algum justificamos nossas vidas além da simples sobrevivência, vivendo não para nós mesmos e em vista de nossas necessidades e desejos de animais sensíveis e conscientes. Mas, da mesma forma que os “animais de criação”, toda nossa rotina está voltada para os interesses e necessidades de nossos “donos” e são eles que a definem em detalhes, seja quanto ao ritmo (condicionado pelos horários e dias de trabalho e descanso), quanto às possibilidades biológicas, materiais e mentais (rigorosamente fixadas pela escala de salários, que preenche, no caso humano, as funções da seleção e adestramento de raças destinadas a trabalhos específicos ou exposição: não por acaso um engenheiro ou uma “modelo” de moda têm remunerações diferenciadas das de um lixeiro ou peão de obra), e mesmo quanto às próprias idéias que fazemos do mundo e de nós mesmos (pela via do condicionamento ideológico profundo).

Somos, em suma, os apêndices, as ferramentas necessárias “empregadas” pela burguesia para a geração e perpetuação de seu requintado, vadio e, perfidamente, colorido quotidiano, verdadeiro carnaval de 365 dias por ano, a contrastar com a feiúra e melancolia gris de nossos farrapos e carrancas. Para que a minoria de salteadores prepotentes e maquiavélicos possa gozar permanentemente uma plenitude de deuses do Olimpo nos é imposta, em essência, a mesma e velha condição dos escravos (com a única diferença que, pelas necessidades e interesses decorrentes da moderna tecnologia, nos é dada uma maior mobilidade e uma aparente liberdade), cujas cadeias são ainda mais difíceis de romper que as das correntes físicas, porque disfarçada e fortemente introjetadas na própria alma e com a própria colaboração de nossas crenças.

Já não nos separam em compartimentos para machos e fêmeas, e nem nos retiram nossas crias para a educação impessoal de amas de leite e o adestramento de feitores. Nos permitem ter nossas próprias choças e viver nossas próprias ilusões domésticas, à semelhança das famílias burguesas, e temos liberdade, ao menos teoricamente, para definir a que profissão nos dedicaremos (se seremos cães pastores ou de caça) e em que empresa trabalharemos (a quem nos venderemos). Mas não temos liberdade, em momento algum, para trabalhar o mínimo necessário à manutenção de nossas vidas, nem para decidir qual o grau de sofisticação e prazer físicos e mentais que lhes pretendemos imprimir; se viveremos, dentro das possibilidades naturais, num mundo de alegre e satisfeito jogo, ou nos sacrificaremos em nome de qualquer ilusão grandiloqüente! São os nossos amos quem o decidem, no próprio proveito, e é o poder (calcado nos nossos mais recônditos condicionamentos de obediência servil) de mando (político, portanto) que mantém a vigente tortura universal e inevitável da escravidão assalariada, e não a sua pretensa maior habilidade na negociação de um “contrato” de trabalho entre partes pretensamente iguais.

Enquanto houver patrões, enquanto alguns impuserem na prática, e sob as mais abstrusas fantasias – como as noções de Direito e Estado, aos demais as regras e condições de comportamento e, por via disso, apropriarem-se do produto do trabalho alheio, haverá a miséria, a vida subumana e indigna da condição do mais vil vira-lata, ou, no máximo, a de “touro de exposição agropecuária” (que nem por bem alimentado e tratado, como é o caso da pequena-burguesia , deixa de ser touro e viver nos limites do curral e da mangueira). Ninguém funda uma empresa privada com intenções altruístas e é da própria natureza da propriedade burguesa (que é “propriedade” dos bens alheios, portanto expropriação dissimulada) o desejo de domínio e a conseqüente opressão da humanidade.

Ubirajara Passos

DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA

Como, hoje à noite, o cansaço da avalanche de serviço no foro não me permitiu escrever, vai aí, para que os leitores não fiquem na mão (que punheta literária é coisa braba), mais um dos meus “Sermões na Igreja de Satanás.

DO CARÁTER NEFASTO DA ÉTICA

Mais do que todas as dores e incômodos físicos, constrangimentos e humilhações psíquicos possíveis, a noção de culpa é, historicamente, a mãe dos maiores infortúnios que sofremos. Diversamente daqueles, que podem ser completamente involuntários, ela só pode existir, nos atormentar e induzir-nos às atitudes mais prejudiciais a nós mesmos, pela colaboração de nossa vontade e pela aceitação convicta dos preceitos e proibições com quem somos bombardeados desde a mais tenra infância.

Não é a transgressão destes (que, ao contrário de nossas suposições moralistas, constitui o único modo possível de atingir a felicidade) a responsável pelos desconcertos e tragédias públicas e subjetivas da atual humanidade, mas (por mais absurdo que possa parecer aos denunciadores de escândalos – os modernos ratos de confessionário) justamente o empenho angustiado e intenso com que nos impomos as mais infelicitantes regras, em nada derivadas da necessidade de bem-estar inerente a todo ser vivo, mas filhas do sadismo institucionalizado.

Bem ao inverso do que engolimos diariamente boca abaixo, a “moral” e a ética não possuem qualquer relação com a “harmonia” ou o “bem de todos nós”, mas se constituem, antes de mais nada, num conjunto de imposições e proibições absolutas que – pela sua simples natureza impositiva (acima e a parte de nossas necessidades, raciocínios, sentimentos ou decisões) – necessariamente se opõem à nossa legítima e inquestionável condição de seres conscientes e pensantes.

Se – afora seu caráter autoritário – examinarmos a fundo o conteúdo do que normalmente nos é recomendado em seu nome, verificaremos que a “ética” em muito pouco difere dos modos formais, mecânicos e rígidos de comportamento das “festas” aristocráticas de todo tipo (das velhas orgias “hierarquizadas” do escravismo – onde o prazer sádico dos senhores era absolutamente livre para satisfazer-se no lombo dos “criados”, mas o papel destes era pré-determinado e jungido às taras de seus amos – aos insossos saraus burgueses do século retrasado, devidamente macaqueados da velha nobreza feudal).

Ou seja, não passa, no fundo, de etiqueta, cuja natureza objetivamente irracional, injustificável e indiferente à essência das atitudes que pretende normatizar (da posição dos talheres à mesa à rigidez da ordem unida e das continências e cumprimentos em quartéis, hospícios e escolas) tem por objetivo nada mais nada menos que garantir a nossa cordada e sobressaltada submissão aos nossos “donos” (os “proprietários” de todos os matizes – dos capitalistas senhores de esposas e “empregados” aos feitores de escravos “executivos”, “gerentes” e simples peões “chefes de família” – tão dominados quanto todos os demais trabalhadores, mas a que a moral tradicional da burguesia garante uma parcela de “autoridade”, nem que seja sobre o seu cachorro) para conforto e satisfação de seu domínio sádico.

A própria idéia de que possa existir legitimamente um conjunto de regras de “comportamento” (uma moral) não derivado da consciência raciocinante e dos sentimentos de cada um nós, mas que justifica sua validade (e a necessidade de nossa “obediência” a ele) na sua característica impessoal e abstrata, além da existência concreta da humanidade, trai a sua verdadeira origem e finalidade. Ao invés de verdadeiro “deus”, eterno, anterior aos homens e deles independente – como se pretende apresentá-la na sua forma mais “intelectualizada” e filosófica – a ética é apenas o manual de domesticação e adestramento do rebanho humano para que seja dócil ao domínio da classe exploradora.

Justamente por estar a serviço de nossos subjugadores e dos bretes a que nos submetem, suas normas se apresentam como inflexíveis, ilegitimando qualquer circunstância que não se encaixe estritamente em seus padrões, e revestem-se de uma perversidade que assimila o prazer ao “mal” e ao “pecado” (a imperdoável quebra mística da “lei” ou do “mandamento”) e identifica o sofrimento (o da classe explorada, evidentemente) com a “virtude” e o “bem”.

Outra não é a razão da pretensa “imoralidade” do sexo, ainda subjacente em nossas mentes modernosas, das noções de “honra” (orgulho pessoal revestido de pretenso altruísmo) e “probidade” que implicam na prioridade do cumprimento dos “compromissos assumidos” (sejam eles de caráter explicitamente financeiro, como os empréstimos que devem ser pagos, ou economicamente implícitos, como o casamento compulsório que não deve ser rompido), ainda que dele derive a miséria e a fome de quem teve de emprestar ou a infelicidade emocional do cônjuge cujo fogo amoroso e sexual extinguiu-se, mas não pode separar-se em nome da “integridade psicológica da prole” ou da própria “moral sexual” abstrata. Não é por acaso que tais “crimes” ou “violações” da sacrossanta ética atingem justamente os interesses maiores de seus criadores: a sua sanha de riqueza (em razão da qual os crimes contra a “propriedade” burguesa dos bens alheios são em geral punidos mais severamente que os contra a vida de outrem) e a utilização dos seres humanos como coisas em favor de seus recalques e prazeres sádicos.

É este caráter de verdadeiro adestramento de bois e cavalos – disfarçada sob os conceitos de “dever” racional, dos “bons costumes”, do “bom senso” e do “temor a Deus” (ou seu substituto, a moral laica abstrata) – da ética que desmascara sua contrariedade à nossa legítima integridade biológica e emocional (o que a faz a maior mãe dos sofrimentos psicológicos). Ela é um sistema de prêmios e punições, que castiga os que não se submetem ao auto-flagelo e não reprimem suas legítimas necessidades de prazer e bem-estar de corpo e alma (para contemplar as mesquinhas “necessidades” de fausto, pilhagem e ócio dos donos da sociedade) e mima com o mínimo de conforto a que tem direito (quando não se limita a “reconhecer-lhes” a “honradez” e precedência de “operário padrão”, “pai de família exemplar” ou “esposa ‘honesta’ e dedicada”) os que permitem lhes seja aplicada a canga e as rédeas.

Afinal, o que significa a “honestidade” para um operário senão a absurda crença de que deve se esfalfar oito (ou mais horas) trabalhando arduamente para produzir riquezas capazes de sustentar dezenas de homens com o suficiente a uma vida digna de gente (de carne, ossos, mente e emoções e não simples zumbis) – quando ele próprio pode no máximo manter-se em pé trabalhando com o rendimento de fome canina? Significa o dever absoluto de não furtar-se um segundo ao suplício a que é submetido em nome da sacanagem institucionalizada de seu patrão e penitenciar-se a cada vez que sua precariedade biológica o obriga a “faltar” ao trabalho por se encontrar “doente”?

Qual o sentido dos remorsos de um empregado de escritório ou funcionário público, cujo salário equivale a 7 vezes o deste peão, quando “engana” o chefe imediato e usa a folga solicitada com a desculpa do médico para encontrar-se clandestinamente com uma parceira sexual, cujas “normas” da sociedade verticalizada impediram-no de constituir uma relação à plena luz do conhecimento público? Ou “subtrai” para uso próprio um simples pacote de “papel-ofício” que nada representa em sacrifício econômico para o patrão, mas falta ao filho estudante e pesa no orçamento da família? Significa expor-se à permanente condição de criancinha de 2 anos, submetendo-se a “puxar o saco” de um chefe de setor qualquer, balbuciando os mais cretinos elogios ou calando às mais absurdas afirmações de superioridade de criaturas muitas vezes mais medíocres que uma vítima (irrecuperável) da hidrocefalia?

A ética, qualquer que seja o seu formato alegórico, que nos é imposta sob o pretexto da incontrolável tendência humana à “rebeldia” (que se identifica com a “maldade” por colocar em cheque a dominação), só serve mesmo aos destrutivos e safados interesses dos “poderosos”. E debaixo de seus canônes funestos, filhos do pior ímpeto de redução de seres livres e criativos a meras ferramentas, ela só pode conduzir-nos ao absurdo da psicologia da tortura: se não nos negamos, como indivíduos válidos por si, a servir senhores, se não antepomos o puro prazer de respirar e estar vivo à necessidade do martírio quotidiano, se não rejeitamos deuses abstratos cuja única glória é a nossa própria desgraça, tanto mais “dignos” seremos da prisão a que, por falta de questionamento, aderimos e que é tão moral que sua supremacia importa na vasta legião dos infelizes!

Ubirajara Passos

OS DESCAMINHOS DA ESQUERDA BRASILEIRA

Como consta do título deste blog, sou um anarquista “heterodoxo”, o que significa que – apesar de crer que somente a liberdade e o prazer dão sentido à vida humana, de ser contrário a toda e qualquer estrutura de poder (inclusive o poder das maiorias convictas sobre as definições de cada um de nós sobre a “própria vida”) – me dou ao desplante, como parte que faço de uma sociedade organizada sob os ditames do “Estado” e da política formal, de opinar e atuar em organizações institucionalizadas como o sindicato e o partido.

E o faço na perspectiva de que (sempre que for possível combater – sem violentar minha crença no direito a não me vincular a crença imposta nenhuma – a opressão a que nos submetem nossos ilustres “donos” e avançar alguns milímetros no espaço de liberdade de cada peão fudido como eu neste país) estou sendo mais “libertário” que qualquer companheiro “purista”, que é tão livre que se sente “obrigado” a não “compactuar” com o “Estado” e seus instrumentos.

Mas, apesar do meu “empirismo” comportamental, jamais perdi (mesmo quando ainda não me conscientizara da cor profundamente libertária do meu pensamento e sentimentos, e me definia como um simples socialista democrático) a aspiração radical de completa transformação da sociedade. Jamais admiti a cooperação com as classes opressoras do Brasil e os fiéis vassalos do imperialismo multinacional, que infelicitam a grande maioria do nosso povo, fosse por que forma fosse.

Para mim a política “formal”, exercida através de mandatos nos governos e parlamentos podia e devia ser utilizada para criar os embates e condições de derrubada do capitalismo, que é propriedade “privada” dos bens alheios e expropriação dissimulada do produto do trabalho de multidões escravizadas de forma velada. Mas sempre soube que não seria através dela que criaríamos uma sociedade livre, solidária (não no sentido do “altruísmo”, mas do aconchego mútuo e espontâneo dos indivíduos) e humana.

Jamais me afastei da noção de que só a conscientização auto-inferida da grande maioria dos indivíduos explorados desta nação (que não se faz por decreto ou adesão acrítica às políticas oficiais da burocracia ou dos partidos registrados no TSE) possibilitaria, pela rebelião concreta a toda dominação, o surgimento desta sociedade.

E com o passar dos anos, me vi no constrangimento de, com esta postura, me encontrar à margem das práticas do meu partido, e da própria esquerda em geral (na qual não incluo o fascismo petista, porque sua coloração vermelha sempre foi uma farsa mal-encoberta sob a capa de um pretenso moralismo “socialista”). De repente pretender a extinção das classes, acreditar na organização quotidiana, e sem manobras, das grandes massas populares, descrer da transformação pela simples via de reformas legislativas parecia, até para mim mesmo, uma visão radical que me estranhava das práticas desta esquerda organizada sob a forma de partidos.

Outro dia, porém, consultando o discurso de Brizola no encontro de Lisboa, em 1979, que deu as definições mestras da reorganização do trabalhismo no Brasil (que foi, até 1964, a única corrente concreta que se opôs, em suas limitações ao capitalismo colonial vigente no Brasil), me dei por conta que eu, então piá de 14 anos, havia, até hoje, apenas me mantido fiel àquelas diretrizes. Lá estavam frases como: “De pouco adiantará que nós trabalhistas amanhã concorramos a eleições, elejamos companheiros, prefeitos, governadores, Presidente da República. Isto nada significará, pelo contrário, será até um retrocesso, se essas responsabilidades na condução do País forem conquistadas sem que tudo isso seja respaldado por um grande Partido, por quadros preparados e por soluções alternativas antecipadamente estudadas. Porque isso seria a condução de um companheiro para um cargo com uma multidão desorganizada atrás.” Ou: “Antes de convidar pessoas apenas para serem candidatos, antes de estar formando chapas, nós temos que organizar as nossas bases, temos que estar no meio do povo, no seio dos trabalhadores, com organismos os mais despretensiosos, modestos, simples, mas esparramados pelo Brasil inteiro. O nosso socialismo não pode estar no horizonte. O socialismo democrático para nós é um objetivo concreto. Vamos construí-lo a cada dia, em cada parte, ombro a ombro com nosso povo”.

Nos últimos 27 anos, desde então, qual foi a prática não apenas do PDT, que cito porque foi o berço ideológico em que me fiz ciente de mim como ser político pensante, mas de qualquer das nossas organizações esquerdistas e “revolucionárias” institucionalizadas? Ao invés de apostar na custosa e ingrata tarefa de organizar o povo, de formar indivíduos pensantes, críticos e dispostos a virar o jogo, simplesmente foi se emaranhando cada vez mais no jogo formal da política burguesa, das panacéias dos Executivos e das boas intenções dos legislativos que querem maquiar o drama dos trabalhadores e desempregados sem tocar na sua raiz profunda (a meia dúzia de privilegiados que nos submete a todos a seu capricho) e pela via mágica da “lei”, num país onde a única norma com força concreta vigente é a bala do crime “organizado” e a tendência do povo trabalhador a “obedecer” e “cumprir as normas”. O peão brasileiro, apesar dos velhos mitos de “vagabundo” é um dos mais cordados, produtivos e acomodados do mundo.

Hoje, o pobre e alienado brasileiro comum (que se fode o dia todo “ralando” no trabalho e se contenta em sonhar à noite com os luxos e mimos dos glamurosos personagens da novela das oito) encontra nos seus defensores “oficiais” (os partidos ditos socialistas ou social-democratas) tão-somente uma tribo de acomodados políticos capazes de produzir verdadeiros temporais nas tribunas parlamentares (ou nem isto), mas que não se permitem o menor deslize da imbecilidade oca e politicamente correta das “políticas públicas”, da defesa das “minorias”, da ética e do combate à corrupção, e que possuem verdadeiro pavor de trabalhar (ou sequer discursar) por temas como reforma urbana, expropriação de grandes transnacionais ou, na hipótese mais mansa para verdadeiros revolucionários, lutar pelo salário mínimo do Dieese (cerca de R$ 1.500,00). Para eles a velha revolução converteu-se na busca de votos a qualquer preço e para atuar, se eleitos, de qualquer maneira… que não coloque em risco o seu fofo conforto!

Se a postura da grande maioria de nossos políticos “esquerdistas”, hoje, espelha covardia, desilusão e abandono de entusiasmo diante das dificuldades de organizar o povo ou, simplesmente, traição é algo a analisar caso a caso e que não pretendo aprofundar neste texto. Mas o fato é que estamos a anos-luz, em 18 anos de vigência da “democracia formal” no Brasil, de qualquer embate político a favor do “povinho”

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 17/08/2006 at 2:02 am Deixe um comentário

IMORALIDADE, AMOR E AMBIGÜIDADE

Até que eu tenha tempo de escrever o novo texto que anda saltitando na minha mente desde o almoço, ficam mais três poemas para distração dos leitores.

A MINHA AMADA

A minha amada não é a mais bela,
Nem a mais fogosa de todas as mulheres.
Não é a mais terna,Antes é geniosa!
Não é sincera, joga como pode
Com o fascínio sensual que dela emana.

Nunca foi doce.
É nada submissa,
Desprotegida ou frágil; submete
Quem não se imponha a seus loucos caprichos.

Ela não tem a menor dó de quem a ama,
Conosco brinca com ânimo de um gato
Cruel, que se diverte em torturar
Antes da morte a sua infeliz vítima.

Segura e prepotente, nada cede.
A vida ao seu lado é um rosário de exigências.
Não tem “virtudes”,
Toda ela é um problema.

Mas é a ela, a própria rebeldia,
Que eu amo.
É ela que dispara
O trôpego ritmo do meu coração.
É a sua independência malcriada
Que cega e enlouquece a minha alma.

Gravataí, 30 de setembro de 2000

Ubirajara Passos

**************************************************************************************************************

CONVITE IMORAL

Tu que és toda arrebatamentos,
Que desconheces gozo pouco intenso
(Só o frenesi embriagador, o galopar violento
Te justificam o mergulho d’alma),

Aventureira insaciada de tormentas
Para quem o prazer é uma torrente,
Um turbilhão de ânsias exaustivas,
Mais agonia de morte que doçura,

Deixa mostrar-te o êxtase sublime
Da preguiçosa ternura,
O gesto mole,
Mas meigo e quente,
O carinho

Sem compromisso,
A envolver em ondas tênues
De um crescente imperceptíve
Alma e corpo num clímax sereno,

Filho sutil de leves atenções
(Mais do intuído que do agressivo,
Manifesto agir superficial).

Deixa levar-te a percorrer jardins
De flores comuns, mas de um perfume
De oculto requinte, ultra-exótico.

Deixa crescer no olhar dissimulado
A labareda de um fogo permanente,
Cujo ápice não é explosão abrupta,
Mas o auge da volúpia onipresente,
Que arrebata, mas não exaure o ser.

Porto Alegre, 1º de dezembro de 2002

Ubirajara Passos

************************************************************************************************************

TRISTE AMBIGÜIDADE

Sou um ser esquisito.
Em mim convivem
O irreverente e o apaixonado.
Se um conduz aos sonhos orgiásticos,
O outro, casmurro e ressentido, é só queixumes.

Se o primeiro me lança às belas gatas
(De preferência às onças agitadas),
O segundo pasma ante a beleza
E me transforma num bebê desprotegido.

Basta um olhar direto e inquisitivo
E, desmontado, eis-me apalermado
Frente à mais lúbrica e dadivosa fêmea.

O cafajeste se manda em disparada
Se além do belo rostinho há um certo ar
E já não desejo, mas derreto-me em ternura!

Gravataí, 6 de dezembro de 2004

Ubirajara Passos

Publicado em:  on 16/08/2006 at 12:56 am Deixe um comentário