Na falta de inspiração maior, e travado por um quotidiano que anda bastante bagunçado, resolvi postar o texto abaixo, que faz parte de livro que estou escrevendo (com o título “Sermões na Igreja de Satanás”), que um dia espero ver publicado:
DO COMÉRCIO SEXUAL
Não, meus caros amigos, não me refiro às putas profissionais! Estas heróicas benfeitoras da humanidade – apesar da esperteza necessária à sobrevivência no seu ramo – anulam-se como pessoas, justamente no que há de mais sublime na vida (o sexo), tornando-se meras máquinas de foder (coisificadas e alienadas de qualquer prazer legítimo) para benefício dos tímidos, dos feios e desajeitados e dos pouco “endinheirados”. O que seria destes deserdados do espírito, da natureza ou do bolso, não houvesse estas santas mártires do prazer? Lhes restaria apenas alistar-se na Legião de Onan ou conformar-se à condição de expulsos do paraíso dos sentidos.
O tema da preleção são as inúmeras moçoilas bonitinhas das classes média baixa ou pobre (não as miseráveis) cuja buceta constitui uma mercadoria no sentido mais patrimonial da especulação capitalista. Premidas pela pouca renda que lhes proporciona o trabalho, estas pudicas senhoritas, numa reedição bufa das “filhas de família” do século XIX, “guardam” a checheca – não para um casamento virginal como aquelas, mas como um dote. E recriam, em plena Era Pós-Revolução Sexual, o mito da pureza. Elas não “cedem” o corpo… para “qualquer um”! Sua xoxota é um fundo de ações, um investimento, que lhes garantirá a emancipação econômica através de um sonhado casamento burguês.
Assim como as meretrizes, o sexo deixa de ser, para elas, uma fonte de -prazer para se tornar uma mercadoria que lhes proporcione uma boa vida. O seu caráter mercantil, entretanto, é mais primitivo do que o das profissionais mais antigas do mundo. Enquanto estas se vendem em troca de dinheiro (comércio organizado), as nossas lindas dondocas ressucitam a velha prática do escambo, oferecendo o seu corpo (e, mais que as putas, a vida) pelas comodidades proporcionáveis pelo bolso de seu futuro proprietário (o marido), em regime de pleno monopólio.
(Seu lema é o capítulo 43, versículo 69 do Evangelho de Lúcifer, segundo Belzebu: “Dá-me cá teu patrimônio e me tome em matrimônio”)
Convertidas em objetos de vitrine, estas “sofisticadíssimas” vestais, finas reservas de beleza e prazer destinadas aos chiques, muitas vezes, submetem-se, com suas puras mamães, ao sacrifício de enormes filas para seleção de modelos, na ilusão de um glamour que acaba se transmudando em sádica putaria de luxo!
Determinadíssimas, frias e racionais, são tão “espertas” que, em sua grande maioria, acabam dando para o primeiro canastrão com ares de burguês (ou para qualquer membro da “nova classe” – o que dá no mesmo) e frustrando-se em seu intento matrimonial.
Na sua ambição cega e besta, porém, excluem, com sua atitude, os seus companheiros de classe do sexo com belas mulheres, relegando-os às feias e desengonçadas!
A propalada liberdade sexual dos tempos modernos se esboroa, assim, nos braços do capitalismo, na medida em que se frustra o tesão do trabalhador do sexo masculino, que é livre para comer quem bem entender… salvo as mocinhas gostosas.
Justamente o mais saboroso e excelso dos prazeres, cujo componente estético é glorificado permanentemente pela mídia burguesa, acaba se constituindo na fonte da mais dolosa neurose. A sociedade exploratória atual brande aos quatro ventos a liberdade sexual, a sensualidade estonteante das mais lúbricas e lindas mulheres, exalta ao infinito a beleza do corpo feminino e depois nega isso tudo à maior parte dos homens, que só podem comê-las com os olhos – desde que paguem, pelas sacanas revistinhas e filmes que lhes vende a impoluta burguesia!
Hosana buceta!
Ubirajara Passos