Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 48.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 18 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Tinha uma pedra no meio do caminho

Sempre achei extremamente abstrato o famoso poema de Drumondd. E a interpretação costumeira de sua genialidade sintética e simples diante do fenômeno universal e onipresente dos obstáculos, nos mais diversos locais e circunstâncias possíveis, sempre me pareceu muito óbvia e pouco provável.

Até que há coisa de um mês e meio atrás, tive uma dura e concreta experiência. Uma pedra atravessada no canal do ureter, grande o suficiente para não arrastar-se aparelho urinário abaixo, depois de semanas de sofrimento e investigações médicas infrutíferas acabou por me levar a uma  das aventuras que mais temi na vida, a cuja extinção supunha pudesse me levar: uma cirurgia para sua extração, mediante uso de ultra-som, introduzido justamente pela uretra. O que significa que, além de passar pela sempre temida operação, ainda fui “comido”, isto é sofri a introdução de um corpo estranho dentro de mim,  através do meu próprio pau. Coisa no mínimo bizarra e, depois de passada a anestesia e a sedação, tão sofrida quantos os ardores e dificuldades dos primeiros dias do pos-operatório.

Mas todo este papo meio hipocondríaco, que deve estar fazendo os meus costumeiros leitores bocejarem e gritarem altíssimos “Bira vai à puta que pariu” (não necessariamente simultaneamente nem nesta ordem) é apenas para (tentar) justificar a minha ausência deste blog no período, que espero seja devidamente remediada e absolvida a partir de hoje. Houve muitos outros pedregulhos a causá-la, é bem verdade, mas a partir de agora espero que possamos, eu e os pacientes leitores, fazer uma sopa com a sua poeira.

Ubirajara Passos

Hora muda

Poeminha casmurro e triste que acabo de escrever, após o final do expediente:

Hora muda

Fim de tarde modorrento e insano.
Na opressão morna do ar parado
Pairam, mudos, filhotes mal formados
De pensamentos,
Flutuam gemidos

De angústia proferidos em tom surdo
De obsedantes mexericos velhos.

Junto à janela, o meu olhar percorre
A palidez suspensa da hora e pede
Ao rosa desbotado do horizonte
Um gole de vermute que o console.

Mas, muda e inerte, a tela se enegrece
E oferece-me um bordô pesado,
Me convidando a um denso e insano sono.

Gravataí, 11 de outubro de 2011

Ubirajara Passos

O Discurso de Brizola no comício do Largo da Prefeitura de Porto Alegre (1º de abril de 1964) durante o golpe do dia da mentira

Após o comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, a direita brasileira lacaia, aliada do imperialismo norte-americano, alarmada com a possibilidade de ver o início da derrogação de seus privilégios, se unificaria, da UDN lacerdista ao PSD de Tancredo e Juscelino, contando com o apoio dos generais fascistas formados na ideologia da Escola Superior de Guerra e na convivência com as forças yankees na Itália, no final da Segunda Guerra Mundial, acelerando suas ações em direção ao golpe militar que, depondo João Goulart, acabaria por impor uma ditadura de mais de vinte anos, cujo saldo, além das mortes e das perseguições, e do atraso social, se perpetua até hoje, na miséria, na fome e na violência quotidiana, no apodrecimento da consciência da massa de nossa população e na presença, no poder federal,  de ilustres canastrões corruptos atuantes naquela ditadura, como José Sarney, dono absoluto de um latifúndio que atende pelo nome de Estado do Maranhão.

Em 19 de março, meio milhão de equivocados – ou nem tanto – (inclusive o futuro Presidente da República do Partido dos “Trabalhadores”, o eminente Inácio dos Nove Dedos), liderados por ilustres beatas raivosas e assexuadas (a própria imagem concreta da peste emocional materializada na defesa de sua expressão política, o fascismo), e patrocinados pela burguesia nacional e multinacional, tomaria as ruas de São Paulo, exigindo aos brados histéricos a deposição de Jango e a prisão de Brizola, rosários febrilmente manipulados nas garras, na “Marcha da Família com Deus pelo Brasil e a Liberdade“. Criava-se assim o pretexto de massas civis pretensamente descontentes , como se faria uma década após no Chile de Pinochet, para derrubar um governo popular, eleito legalmente por maioria e que contava, à data de sua deposição, com a aprovação de ampla maioria do povo brasileiro, segundo a própria imprensa da época.

Cinco dias mais tarde cria-se o pretexto da quebra da hierarquia militar, e do descontentamento dos generais e almirantes, em torno do apoio de Jango ao que os golpistas caracterizavam como a subversão dos comandos subalternos das forças armados (sargentes e marinheiros), que haviam se organizado em associações próprias (verdadeiros sindicatos) em defesa de seus direitos políticos (muitos haviam sido eleitos para cargos parlamentares e sido impedidos de assumir por decisão do STF, que corroborava a absurda inelegibilidade prevista da Constituição de 1946 para soldados e comandantes imediatos da tropa, abaixo do oficialato), trabalhistas (o salário dos marinheiros, por exemplo, era inferior ao das empregadas domésticas) e das reformas de base defendidas pela Frente de Mobilização Popular, liderada por Leonel Brizola e integrada por organizações populares como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e União Nacional dos Estudantes (UNE), além de numerosos sindicatos e confederações nacionais de trabalhadores (entre eles, metalúrgicos e trabalhadores rurais), bem como pela extrema esquerda do PTB, PSB e PCB, pelo grupo político do governador pernambucano Miguel Arraes e as Ligas Camponesas do Nordeste, liderados pelo deputado socialista Francisco Julião.

Em 26 de março, especificamente, os marinheiros e fuzileiros navais, sob a liderança do “cabo” (marinheiro de segunda classe) Anselmo (que mais tarde se apurou ser um agente infiltrado do aparelho de conspiração institucional yankee, a CIA), realizam um ato comemorativo ao segundo aniversário da fundação de sua associação, por José Anselmo então presidida, com uma visita à Petrobrás, proibida pelo almirantado (cúpula dirigente da Marinha de Guerra), de que resulta a prisão dos participantes. Em reação à repressão, reúnem-se no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, além dos marinheiros, trabalhadores liderados pelo CGT e sargentos e soldados das demais forças armadas, muito dos quais, enviados pelo comando do Exército para prender os “revoltosos”, aderem ao movimento. Entre eles se encontrava o comandante do corpo de fuzileiros navais, o Almirante nacionalista Aragão, que para lá havia se deslocado a fim de parlamentar com a massa mobilizada.

No dia seguinte o sindicato é  sitiado por tropas do Exército, levantando-se o sítio em razão da resistência dos presentes no prédio e em 27 de março, Jango, vindo de Brasília, se dirige à antiga sede da presidência da república na ex-capital, o Palácio das Laranjeiras, e determina a libertação dos marinheiros presos e a demissão do Ministro da Marinha, Sílvio Mota, responsável pelas prisões, que é substituído nacionalista e reformista Paulo Mário. O resultado é o repúdio do oficialato conservador e golpista, expresso em manifesto do “Clube Naval” no dia 28. Estava criado, definitivamente o pretexto legalista e hierárquico para depor o presidente que “desmoralizava” os austeros e sérios chefes das forças armadas, “defendendo baderneiros”, que se cristalizaria dois depois, na noite de 30 de  de março, após o discurso de Jango no automóvel clube, em ato realizado pela Associação dos Sargentos, nos quais o presidente da República defenderia ferozmente as reformas de base e denunciaria o golpe em marcha.

Algumas horas após, na madrugada de 31 de março, em conluio com o governador udenista (banqueiro que usufruiria lautamente das benesses da futura ditadura) Magalhães Pinto (e com o apoio dos governadores de São Paulo, Ademar de Barros, Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, ambos do PSD, e do histérico fascista Carlos Lacerda, governador da Guanabara, da UDN) o folclórico general auto-intitulado de “Vaca Fardada”, Olímpio Mourão Filho lançaria um manifesto golpista, dirigindo suas tropas de Minas, Juiz de Fora, para o Rio de Janeiro, onde Castelo Branco (incrivelmente chefe do Estado Maior das Forças Armadas) conspirava abertamente para depor o governo federal. As tropas enviadas pelo Ministro da Guerra para combatê-lo aderem ao golpe (por ordem de seu comandante, ainda que muitos soldados e sargentos desertem para resistir), bem como as do “compadre” de Jango, Amaury Kruel, sediadas em São Paulo.

Jango se desloca para Brasília, não encontrado meios de lá resistir e, na manhã de 1º de abril, se dirige para Porto Alegre, onde Brizola, juntamente com o Comandante do III Exército, General Ladário Telles, organiza a resistência ao golpe, reeditando a Cadeia da Legalidade, baseada agora na Prefeitura Municipal de Porto Alegre, governada pelo trabalhista Sereno Chaise, e na Rádio Farroupilha, a qual realizará, na noite daquele dia, o último comício do regime democrático e em que Brizola proferirá o discurso que a seguir transcrevo, a partir de gravação de áudio da época, reproduzida no Site do Correio do Povo, de Porto Alegre, neste ano, por ocasião da comemoração dos 50 anos do Movimento da Legalidade de 1961:

“Ainda não correu  bala! Ainda não se deu um tiro! Os gorilas têm vencido até agora e progredido como aqueles que são hábeis jogadores de xadrez, com seus punhos de renda. Mas, de agora em diante, nós iremos ver quem realmente tem fibra e tem raça. Na hora de correr bala, na hora do cheiro de pólvora, nós iremos ver a covardia dos traidores e dos golpistas. Neste momento, entra em cadeia, em conexão com a Rede Gaúcha da Legalidade a Rádio Nacional de Brasília e centenas de emissoras pelo Brasil afora. 

Gorilas, gorilinhas e micos de toda espécie! Golpistas e traidores! Agora é que nós vamos ver quem é que tem banha para gastar! Mas a nossa resposta, a resposta do povo gaúcho,  a resposta do povo gaúcho ao tartufo Ademar de Barras, de Barros vai ser a bala! Nós agora é que arrecém vamos começar a luta. Até agora ela esteve se realizando como um tabuleiro de num… num tabuleiro de xadrez. Agora é que nós vamos pôr à prova,  vamos comprovar a covardia destes traidores do povo e da pátria. 

Atenção, trabalhadores de São Paulo! Atenção, trabalhadores da Guanabara, trabalhadores do Nordeste e de Minas Gerais. A nossa palavra , a partir de hoje, é a greve geral dos trabalhadores. Somente na área do III Exército e onde atuem as forças que lutam ao lado do povo e dos nossos direitos é que os trabalhadores devem redobrar as suas atividades. Nós, neste momento, já recebemos a comunicação que no Estado da Guanabara parou tudo! Greve geral no Rio de Janeiro. Pararam as barcas. Pararam os trens da Central e da Leopoldina. Amanhã irão parar os metalúrgicos, os serviços de transporte, o DPT e as comunicações. Amanhã, greve geral na Guanabara. E nós, aqui, nos dirigimos ao operariado paulista, aos trabalhadores de São Paulo, aos trabalhadores da Petrobrás, da refinaria, da refinaria do Cubatão. Parem! Greve dos trabalhadores de São Paulo, para defender o próprio direito de greve das classes trabalhadoras!

 Nós, como afirmamos, não tomamos a iniciativa da violência. Nós não começamos a violência. Foram eles que começaram. Pois agora eles irão tê-la. A resposta do povo gaúcho à insurreição golpista, à violência contra os nossos direitos e liberdades , meus patrícios e irmãos, será, primeiro, a ajuda às tropas do III Exército, da 5ª Zona Aérea e da Brigada Militar. Segundo, organização de corpos provisórios para aglutinação do elemento civil, sua organização para participação na luta ao lado das gloriosas forças legalistas do III Exército e da Brigada Militar. Nós, desde já, conclamamos aos nosso chefes e dirigentes do interior: passem a reunir companheiros, centenas, milhares de companheiros para serem selecionados e organizados para a grande marcha que haveremos de realizar, ao lado de nossos irmãos de todos os recantos da pátria, para a conquista das reformas e para a libertação do povo brasileiro da espoliação do capitalismo internacional. 

Pedimos ao povo gaúcho e ao povo brasileiro que acompanhe as transmissões da Rede da Legalidade que estamos fazendo de Porto Alegre. E aos tartufos, aos traidores, aos golpistas, aos gorilas, nós daqui declaramos, a eles declaramos que eles não perdem por esperar, não perdem por esperar. Eles irão prestar contas ao povo brasileiro pelos crimes que estão cometendo contra a Constituição, contra os direitos e conquistas democráticas do nosso povo. E a eles nos queremos dizer: conosco não pegam estas mistificações, esta onda que aí fazem de que nós somos subversivos, que somos anarquistas, que somos extremistas, que somos comunistas, isso e aquilo. A eles nós queremos dizer: vermelho é o sangue de gaúcho e de brasileiro que corre nas nossas veias. 

Nós diremos  ainda, meus patrícios e irmãos, que devemos, de agora em diante, agir com firmeza e energia, sem perder a nossa cabeça e a nossa se… a nossa serenidade. Precisamos agir com firmeza e energia, mas com serenidade e confiança. Eu quero vos dizer que o meu lugar, povo gaúcho, é aqui convosco, é aqui ao vosso lado, para as lutas, as glórias e os sofrimentos do nosso povo, que caminha, que anda, que vai, incoercivelmente, progredindo, avançando em busca de sua libertação e da realização de uma sociedade justa, humana e verdadeiramente cristã, dentro das nossas fronteiras. 

Porto Alegre é um lugar histórico e, hoje, é o centro, novamente, da resistência. O Governo do Estado parece que até já abandonou a sua sede. Segundo se informa, segundo, segundo se informa, o Governador já anda lá por Uruguaiana. Outros dizem que foi se esconder na praia do Quintão. Outros, ainda, informam que está em baixo de uma cama, em algum lugar, aqui mesmo por Porto Alegre. Mas o mais certo é imaginarmos que o seu paradouro deve ser em algum lugar próximo da fronteira argentina ou da fronteira do Uruguai, para fugir da justiça do povo gaúcho, porque ele lançou um manifesto traindo a consciência democrática do nosso povo. 

Porto Alegre é um lugar histórico, Porto Alegre é um lugar histórico, e eu, há muito tempo que eu venho dizendo que os destinos deste país, a chamada crise brasileira, vai, ía e vai ter a sua solução exatamente aqui em Porto Alegre.

 

Eu peço a todos que permaneçam atentos, porque possivelmente ainda hoje tenhamos as mais importantes e decisivas informações a prestar ao povo gaúcho e ao povo brasileiro sobre a crise político-militar, esta guerrinha sem tiros que até agora assistimos, que aí estamos vendo se desenvolver pelo país. 

Nós teremos possivelmente importantes informações. E a nossa palavra de ordem, neste momento, ao povo gaúcho e ao povo brasileiro é a luta e a resistência contra o golpismo, contra a ditadura disfarçada das oligarquias e das minorias dominantes e reacionárias de nosso país! 

Luta e resistência! Nós não nos conformaremos! E nós, por isso, esperamos que o nosso Presidente não nos tire das mãos, nem das suas, nem das nossas, a bandeira da defesa da ordem democrática. Que não passe por sua cabeça, como ele próprio reafirmou, nenhuma idéia de renúncia. Porque nós queremos permanecer coerentes pelos nossos direitos para conquistar o direito de novos avanços em nossa caminhada em busca da libertação social e econômica. 

Quanto a nós, ele sabe, quanto a nós povo brasileiro, é essa a nossa posição. Se for difícil o caminho, não tem importância. Vitória sem luta é a conquista de uma glória sem honra. E, para nós patriotas e brasileiros, nessa cruzada em defesa dos nossos direitos , a nossa sorte está lançada. Mais vale perder a vida que perder a razão de viver! 

Deixo-vos, meus patrícios e irmãos, o meu abraço, a minha confiança. E volto a insistir com a minha palavra. Com a minha palavra ao… aos nossos irmãos sargentos, para que eles tome as suas iniciativas: passe a mão nestes gorilas! Prendam-nos, deponham-nos em nome do povo brasileiro e em nome da própria Constituição. 

E eu, daqui, quero enviar uma mensagem ao valoroso Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, ao Almirante Aragão. Para dizer a ele que o povo gaúcho está esperando dele, e acreditamos que o faça, só mesmo que obstáculos intransponíveis existam em sua frente, que nós esperamos daquele grande soldado, e de sua corporação, a imediata iniciativa da prisão do verdugo Carlos Lacerda. 

 Lacerda,  Lacerda é um homem periculoso. É um contraventor e um criminoso. Ele está ao lado do golpe e nós esperamos que o nosso companheiro Aragão, com os seus fuzileiros navais, deite a mão naquele criminoso para julgamento, para a justiça que clama o povo brasileiro! 

Ao ínclito e valoroso, ao ínclito e valoroso, ao bravo General Oromar Osório, daqui enviamos a nossa mensagem mensagem: nós entregamos ao grande e valoroso  General Oromar Osório, o traidor Amaury Kruel, para ele fazer justiça em nome do povo brasileiro. O bravo General Osório deve estar marchando em direção a São Paulo. E a ele nós entregamos o traidor Amaury Kruel para que ele, com os seus soldados, seus sargentos e seus oficiais, tome a iniciativa de ajustar contas com aquele que quebrou o seu juramento, a sua palavra, a própria dignidade, as tradições de dignidade do povo gaúcho. 

Aos meus conterrâneos do Rio Grande, gaúchos e gaúchos de todas as gerações, à valorosa e inconfundível população porto-alegrense, quero dizer, nesse momento, da minha confiança, do meu apreço, quanto a vossa dedicação, o vosso valor, o vosso heroísmo e a vossa lealdade. E, quanto a mim, podem também ter a segurança e a certeza que o meu lugar  é exatamente aqui convosco, aqui ao vosso lado.”

Na manhã seguinte, 2 de abril, após o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, implementar o golpe de Estado, em plena sessão do Congresso Nacional, daquela madrugada (declarando vaga a presidência da República, sob o pretexto completamente falacioso e inverídico de que Jango havia abandonado o território nacional, e empossando seu colega golpista e lacaio dos generais gorilas, o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzili na Presidência da República – como fantoche, pois o poder passa a ser exercido pelo comando da “revolução”, dirigido por Costa e Silva, no Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro), Jango, sabedor da presença de uma força tarefa de fuzileiros navais yankees postada nas águas territoriais brasileiras, em frente a Vitória (capital do Espírito Santo), pronta a apoiar militarmente os golpistas, após longa reunião com Brizola, líderes trabalhistas e generais do III Exército, renuncia implicitamente, negando-se a resistir, e dirigindo-se a São Borja e, surpreso com a repressão, ao exílio na Argentina.

A cadeia da Legalidade é encerrada, na tarde de 2 de abril, com melancólico discurso de Sereno Chaise, que transmite a recomendação de Brizola aos companheiros de coragem e serenidade diante do fato consumado.Frustrados e desmotivados pela desistência do líder institucional, o Presidente da República, os militantes nacionalistas e populares desarticulariam as greves gerais e outros atos de resistência iniciados, debaixo da feroz repressão do novo regime, bem como as forças militares legalistas e nacionalistas de Oromar Osório e do Almirante Aragão não implementariam os atos reclamados no discurso de Leonel Brizola que, após permanecer por mais de um mês na clandestinidade, percorrendo o interior do Rio Grande do Sul e do Brasil, se exilaria no Uruguai, de lá tentando, nos primeiros anos, organizar a guerrilha para deposição dos militantes capachos do imperialismo e implementação da revolução de caráter popular nacionalista e depois se veria confinado ao interior do país, até ser expulso pela ditadura uruguaia em 1977, e, passando pelos Estados e Portugal, retornar, como grande líder do trabalhismo brasileiro, em 1979, em plena “abertura democrática” do ditador João Figueiredo.

Ubirajara Passos

“Nem tudo está perdido!”

 

Texto que escrevi, de improviso, na tarde  do início do IV Congresso dos Servidores do Judiciário do Rio Grande do Sul (IV Conseju), antes de sair de casa, a partir de minhas experiências com a minha filha Isadora (que cumprimentou 3 anos no dia 1.º de setembro e que aproveito para homenagear com a foto mais recente, do último 20 de setembro – feriado estadual da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul):

Ver a própria imagem refletidanum ser humano real, de carne e osso, em uma versão mais jovem. Isto é que é, verdadeiramente, um mistério. Não a possibilidade remota de improvável de perpetuar-se em sucessivos avatares de milhares de reencarnações. O mistério que engendra, na matéria viva e pulsante, um conjunto de manifestações mentais tão semalhantes às nossas, principalmente na parte operacional das emoções, mas tão distintas quanto às possibilidades do espírito humano.

Muito mais do que saber-se o resultado de reproduções variadas de pares de programas biológicos distintos que resultaram na conformação da consciência extra-corporal e em especializações cada vez mais refinadas de um protótipo original, realizando no concreto as potencialidades apenas entrevistas nos primeiros indivíduos, o entusiasmante mesmo é se constatar o quanto os nossos hábitos de comportamento são capazes de refletir-se naquele corpinho, já nos primeiros dias fora do ventre materno, independentemente de qualquer influência mimética ou condicionante resultante da repetição dos dias.

É fantástico, nos parâmetros estreitos de uma identidade que ainda se define pela noção de apropriação e territorialidade (esta a mais antiga, mãe da anterior, surgida da necessidade de sobrevîvência num mundo hostil e precário, animado na permanente competição entre iguais e na possibilidade do engolimento literal dos menos aptos pelos mais organizados), ver esta hereditariedade confirmatória de nossas precariedades e erros orgulhosos de si.

O mais prazeroso, arrebatante, entretanto, é darmos com aquele serzinho de apenas dois anos de idade tomando ares de autonomia, pretendendo vestir o próprio tênis ou carregar a nossa mala (com um ar voluntarioso e contrafeito à nossa enternecida e, inevitavelmente,  autoritária superproteção), e dizendo: “Deixa eu! Agora é eu! Eu posso!”.

Quando nos bate, ríspida e imprevisível, esta atitude à cara, podemos ter certeza, observando algo tão carregado de sentimentalismo e expectativas ou justificativas, no nosso imaginário, como o próprio filhote: A humanidade ainda tem jeito! A maioria dos indivíduos ainda há, logo, logo,de aprender a dizer NÃO! a toda opressão, a toda imposição unilateral, limitante e infelicitante, de regras e saberes, o mais vezes, sustentada sob o mais vil e hipócrita egocentrismo sádico erigido em pretenso, arrogante, e terrivelmente enojante, nauseante mesmo, dogma “científico” – aparentemente neutro e racional (e, em razão da aparências, mais perigoso e difícil de ser vencido), mas profundamente enraizado nos piores instintos, filhos do sobressalto e da miséria inomináveis. Resultantes da precariedade  que resume a vida a uma “sobrevivência” – infame, insulsa e raivosa – cujo único élan é a raiva incontida e espumante, a disposição destrutiva absoluta contra tudo que semelha um mínimo de gentileza, conforto, liberdade e criatividade, e até mesmo de agressividade sadia e redentora.

E desta negação contundente, convicta (e mergulhada, apesar de sua força e dureza, na ternura e na alegria de viver e compartilhar) há de nascer um novo mundo, prenhe e pleno de prazer, liberdade, inspiração e criatividade, em que não mais seremos galhos secos e indistintos jogados à fornalha dos apetites minoritários, mas o próprio vento, forte e indomável, compondo uma sinfonia de absoluta e enigmática beleza nos encontros e desencontros de  nossas vontades e inferências.

Ubirajara Passos

Móvel Falante

Poeminha medíocre e auto-explicativo escrito há uns doze dias:

Móvel Falante

Assassinaram-me o poeta, o transformaram
E
m guia auxiliar de entregador de pizza.

Isto quando alguma criatividade
Me é permitida,
O contumaz é a rotina burra
De um despertador ou microondas.

Vivo tão seco, sonolento e previsível
Que até o cachorro do fundo do quintal,
Eternamente preso e obcecado
No seu latido, é mais surpreendente.

Quando algum vento qualquer de entusiasmo
Se insinua nos meus galhos, eu bocejo
Solenemente e volto a dormitar,
Velho carvalho carcomido e entediado.

Gravataí, 21 de agosto de 2011

Ubirajara Passos

A uma parceira, infeliz, controladora

Poema auto-explicativo parido há pouco:

 

A uma parceira, infeliz, controladora:

Não me discipline.
Não mate o melhor que existe em mim.

Não me reduza a um rol de atividades,
A um cronograma insípido e impessoal,
Porque sou terrivelmente ineficaz
Como autômato de carne e osso.

E a vida instigante e arrebatadora
Jamais te fará perder o chão
E girar, livre, num terrível torvelinho,

Jamais te agitará o sangue,
Te arrebatando do sacórfago em que vives,
Se não deixares que, ao teu lado,
Eu respire intenso, livre, solto e incontrolável
Como o gelado e imprevisível minuano.

Gravataí, 20 de agosto de 2011

Ubirajara Passos

O duplo trote

Atabalhoado em meio ao trabalho na repartição pública falida, o sujeito estava bom de dispensar qualquer um que insistisse em lhe interromper “por motivos fúteis”, mas a estranha solicitação do colega, feita pelo MSN corporativo, o sacudiu do transe dos cálculos e o colocou em estado de completa disponibilidade, digna de matrona fofoqueira de arrabalde.

Afinal pra que diabos o cara queria saber se havia orelhões no caminho que fazia até em casa,  no intervalo do meio-dia, para baratear o custo do almoço (que até mesmo o prato feito de buteco escroto andava proibitivo para seu salário de funcionário encalacrado)? E, o que era pior, porque queria que lhe ligasse para o celular justamente quando estivesse passando pelo orelhão?

Imbecil o velho amigo e colega, removido para a região do planalto há alguns anos, depois de ter passado pela campanha(com o que se achava longe de Gravataí há uma década) não era. Logo havia alguma matreirice, alguma sacanagem extremamente sofisticada naquela história. A coisa devia ser, além de inusitada, saborosa e instigante.

Mas a reina rotineira o impediu de atender às repetidas solicitações, apesar das vãs promessas em fazê-lo. E assim, depois de vários dias sendo xaropeado (e se esquivando, disciplicentemente), não teve jeito. Se viu forçado a anotar o número que o camarada teimava em lhe fornecer (um banal telefone residencial em Gravataí) e, aproveitando o primeiro telefone público à vista, em frente ao hospital Dom João Becker, sob o testemunho sonolento de um sol de inverno a “meio pino”, cumpriu as instruções.

Ligou para o telefone indicado e deixou tocar para que a criatura desconhecida do outro lado da linha imaginasse que o seu colega se encontrava na cidade, como o tipo  lhe explicara para justificar a coisa toda  (como ela poderia imaginar que se tratava dele, ainda que possuísse identificador no aparelho, e justamente vendo um número gravataiense qualquer era um mistério que se encontrava relacionado, com certeza, ao horário do telefonema e a outras circunstâncias bastante suspeitas e imagináveis).

Lá pela 4 h da tarde, na hora do outro intervalo, em que costumava empurrar um sanduíche na correria do expediente, quando perguntou, em meio ao relatório do fato, se o alvo da ligação era uma mocréia ou uma gatinha (afinal podia ser a mãe ou até uma tia velha), o amigo reagiu “indignado”:

- Porra, mas tu é foda! Eu te falei pra dar somente um toque. Como é que liga a cobrar, deixa atender e ainda faz a pessoa arcar com o prejuízo de um trote mudo! Ah, ah, ah, ah! Deve estar doida! Tava muito braba?

- Não. Pelo tom da voz creio que te perdoou. Mas vem cá, que negócio é este de marcar encontro com amante em pleno meio-dia? E que senha braba é esta? Ligar de orelhão em hora fixa? A cobrar ainda por cima? A gostosa acredita que tu é tão miserável que não tem nem um celular sem chip e te dá pelo simples prazer ou é alguma velha que te alcança uns cobres?

- Tu é espertinho, hein? Já tá querendo saber demais. Mas é uma gatinha! E ronrona que é uma maravilha! Ainda mais quando senta no colinho e ganha um presentinho. Isto de dar toque de orelhão faz parte do sigilo. É pra evitar encrenca. Não da minha parte, que morando fora da cidade a minha jararaca não tem a menor possibilidade de desconfiar. Mas ela tem um corno brabo, um piazão babaca, nada manso o guampa torta! Não gosta dele (o guri é “precoce”), mas atura por causa da exigência da família. E, não fosse pobre, nem precisava lhe dar nada. Já disse, a ingênua, que,  se um dia enricar, paga o motel pro cavalo véio aqui, que prefere o meu trote experiente que a cavalgada estabanada do potrinho crivado de espinhas.

- Ah, tá! Imagino! – E, enquanto desviava o assunto para velhas anedotas de mais de uma década, o nosso herói sorria, sarcasticamente, com aquele ar de gato mirando passarinho. O amigo cheio de cuidados era apenas mais um de uma lista interminável de ilustres trouxas, todos temerosos do fantasmagórico namorado ciumento e incompetente, que frequentavam a alcova da coisinha linda mediante o oferecimento espontâneo de um considerável mimo. Assim lhe revelou a loirinha  mignon, fogosa e doidinha por uma cerveja, em meio à sacanagem na banheira de hidro-massagem do motel, dando boas gargalhadas, quando ele, malandro velho, lhe contou as precauções misteriosas do amigo.

Não só havia deixado a guria atender, como havia encetado longa e sinuosa conversa mole ao telefone, e o resultado fora uma tarde de imenso e intenso prazer com o objeto da paixão extra-conjugal do colega metido a sedutor.

Ubirajara Passos

 

O causo do pregador “endiabrado”

O pastor evangélico falcatrua desafiava, com um entusiasmo febril, os ouvidos dos transeuntes, em pleno largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público de Porto Alegre.

Naquela manhã de dezembro, já passado do meio-dia, vertia uma verdadeira cachoeira de suor, enquanto se esganiçava na pregação moralista e xaroposa, repisada por citações do velho testamento, em perfeito português “analfabético”. Mas ainda assim, os seus ganidos histéricos se perdiam em meio à monotonia dos ruídos da capital e há quem jure haver muito dedicado fiel, em meio ao pequeno rebanho de algumas dezenas de desgraçados que se acotovelavam no canto do largo, próximo à Praça XV, flagrado em pleno pecado do bocejo, apesar da discurseira estridente.

Vindos pela praça Senador Florêncio, três bêbados anarquistas que haviam acabado de encher os cornos e entupir as tripas na extinta churrascaria L’América, no prédio do Dab Dab, surpreendidos pela cena – bastante banal, mas que lhes pareceu inspiradora e inédita – resolvem “dar uma mão” para o Rui Barbosa bíblico (justamente eles que, além de radicais e gaiatos, tinham em comum a entediante e estressante condição de serem diretores da minoria de um pelego sindicato de servidores do judiciário) e, ao se aproximarem da porta central do Mercado, disparam o grito: “Aleluia, irmão”!

O orador, definitivamente entusiasmado, pega fogo! Alcança decibéis que, segundo os manuais de medicina especializada, com certeza deixariam qualquer puta barraqueira em plena briga de rua com a colega definitivamente muda, e e gesticula numa velocidade tendente a lhe fazer saltar o braço a quilômetros adiante, numa verve de possuído pelo próprio capeta contra o qual violentamente vocifera.

É então, no auge do seu transe histérico, que o trio gaiato, passando quase rente ao aglomerado, mas a uma distância precavida contra qualquer reação menos benévola, dispara uma ducha glacial sobre o vulcão beato, que explode em palavrões desconexos e pouco pios: “Viva Satanás!”

Ubirajara Passos

Um currículo de respeito

Sei que o assunto não é nada original e que o texto pode aparentar reprodução de alguma destas prolíficas e saborosas pegadinhas da internet, destas anedotas recheadas de detalhes diversificados, a partir de um núcleo comum, que vamos alterando e enviando aos amigos pequen0-burgueses, para espanto do seu tédio em meio às agruras de seu trabalho em frente ao computador, no escritório ou na repartição pública, naquela escapadela do trabalho, feitas às pressas, enquanto o feitor de escravo do setor se encontra distraído ou ausente.

Mas o pior de tudo é que o texto é real e me chegou às mãos, ontem à noite, por via de um amigo que trabalha como gerente de uma rede de farmácias, que, assustado com o contraste entre introdução, desenvolvimento e a espantosa conclusão do currículo, resolveu retê-lo e não encaminhá-lo ao proprietário que, se estivesse de mau humor, poderia resolver cortar-lhe o pescoço (e o emprego) ao invés de se desmanchar em gargalhadas.

Por óbvia precaução, blogueiro escaldado da censura e da retaliação fascista de “autoridades” e suscetíveis políticos sindicais institucionalizados, omito detalhes que possam identificar o signatário do currículo, a farmácia e o gerente, mas vai abaixo publicado, com toda, e perfeita,  fidelidade a pomposa e surpreendente solicitação de emprego:

“CARTA DE APRESENTAÇÃO

Fulano de tal

Endereço Tal

Alvorada, 11 de julho de 2011

Olá, tudo bem?

Após ter adquirido novas vivências, estou buscando retornar à minha área de atuação profissional, agora tendo em minha bagagem experiências diversificadas que certamente serão muito úteis.

Busquei manter-me atualizado com as novidades do mercado e creio que este é o momento certo em minha carreira para oferecer resultados ainda melhores do que os já obtidos nas organizações onde trabalhei.

Creio também que minhas experiências desenvolvidas em empresas de grande relevância no segmento me qualificam para atuar com sucesso na área pretendida.

Convido a todos para ler meu currículo e conhecer mais sobre meu perfil.

Desde já me coloco à disposição para contatos, indicações e oportunidades de entrevista.

atenciosamente,
Fulano de tal

CURRICULO VITAE

Fulano de tal, IDADE 28 ANOS, SOLTEIRO

FONE TAL

CARGO PRETENDIDO -

EXPERIÊNCIAS ANTERIORES:

ATIVIDADES DESEMPENHADAS:

  • ATENDIMENTO AO PÚBLICO, PALESTRAS DE MOTIVAÇÃO, ABERTURA E FECHAMENTO DO ESTABELECIMENTO,
  • LIMPEZA E ORGANIZAÇÃO EM GERAL

 

PERÍODO: 29-01-2007 À 01-2011

 

EMPRESA: IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS (!)

FUNÇÃO: PASTOR (!)”